Relatório da OCDE destaca desafios e progressos do sistema de saúde em Portugal
O relatório State of Health in the EU – Perfil de Saúde do País 2025: Portugal, elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) em parceria com o Observatório Europeu dos Sistemas e Políticas de Saúde, traça um retrato abrangente da situação da saúde nacional e dos principais desafios e oportunidades do sistema nacional.

O documento, parte da série de perfis nacionais de saúde que cobrem os 27 Estados-Membros da União Europeia, foi concluído com dados até setembro de 2025 e fornece elementos cruciais para a definição de políticas públicas orientadas por evidência.
Segundo o relatório, a saúde em Portugal apresenta indicadores positivos em vários domínios, mas enfrenta desafios estruturais importantes. Em 2024, a esperança de vida à nascença atingiu 82,7 anos, cerca de um ano acima da média da União Europeia, refletindo ganhos constantes desde a década de 2000. Tal como noutros países europeus, existe uma diferença de género: as mulheres vivem, em média, 5,6 anos mais do que os homens, mas também passam mais tempo com limitações de saúde.
As principais causas de morte continuam a ser as doenças cardiovasculares e o cancro, que, em conjunto, representaram aproximadamente 48% dos óbitos. Além disso, o número de mortes por cancro aumentou, enquanto as mortes por doenças cardiovasculares diminuíram ligeiramente, incluindo uma redução nos óbitos por acidente vascular cerebral.
No que toca ao Sistema de saúde, financiamento e desempenhos, Portugal gasta cerca de 10% do PIB em saúde, em linha com a média da UE, com um gasto por pessoa de aproximadamente 3 mil euros.
Dos custos totais de saúde, apenas 62% são financiados por fundos públicos, com os pagamentos diretos das famílias a atingirem 29%, uma das proporções mais elevadas dos Estados-Membros, expondo muitos agregados familiares a despesa catastrófica em cuidados de saúde.
Privado vs. Público e Recursos Humanos
O relatório sublinha também o papel do setor privado no sistema de saúde, com prestação de serviços como hemodiálise, exames laboratoriais e reabilitação a serem habitualmente contratados pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS) junto de prestadores privados.
Por outro lado, os medicamentos de venda ao retalho e dispositivos médicos representam uma proporção significativa da despesa, enquanto a despesa com cuidados de longa duração permanece baixa, refletindo tanto dependência de cuidadores informais como distinções na forma de contabilização.
Ao nível da eficácia e qualidade dos cuidados, Portugal destaca-se por manter taxas de mortalidade evitável e tratável 17% abaixo da média da UE, e por registar internamentos evitáveis entre os mais baixos, fatores que refletem políticas preventivas sólidas e um sistema de cuidados primários eficaz.
O acesso aos cuidados de saúde também apresenta desafios: cerca de 4% dos adultos reportaram necessidades médicas não satisfeitas em 2024, e 15% dos que necessitaram de cuidados dentários não os obtiveram devido a custos, distâncias ou tempos de espera, sendo que estas barreiras são mais severas entre pessoas em risco de pobreza.
Outro dado importante é a conclusão de que a pressão sobre os recursos humanos no SNS continua a ser um fator crítico. Apesar do aumento de vagas e da diminuição de barreiras administrativas, como a digitalização de processos e triagem apoiada por inteligência artificial, existem desafios persistentes ao nível da rigidez dos arranjos de trabalho e da necessidade de maiores funções avançadas para enfermeiros e farmacêuticos, que poderiam aliviar a pressão sobre os serviços médicos. Por último,o relatório aponta para a necessidade de reforçar aresiliência do sistema de saúde através de estratégias que integrem serviços, promovam a inovação digital e enfoquem políticas preventivas sustentáveis, especialmente num país com uma das populações mais envelhecidas da União Europeia.



