“O setor farmacêutico deve ser encarado como um investimento crítico na melhoria da saúde dos cidadãos”

Quando se assinala o Dia Nacional do Farmacêutico, a Salus Magazine convida Helder Mota Filipe a refletir sobre as mudanças de que a profissão foi alvo nos últimos anos, enquanto, simultaneamente, a classe farmacêutica alargou a sua intervenção a diferentes áreas da saúde, assumindo responsabilidades que ultrapassam o circuito do medicamento. Perante isso, para o bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, o desafio passa agora por garantir que o sistema de saúde acompanha esta evolução, aproveitando plenamente as competências dos farmacêuticos, numa dinâmica que envolve o raio de ação da farmácia comunitária, a transformação digital e a relação entre recursos humanos e ética, questões que exigem novas respostas e maior integração, em nome do bom futuro da profissão.

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Que retrato que faz do atual estado da profissão farmacêutica em Portugal e quais considera serem os principais sinais de evolução?
Olho para a profissão farmacêutica com enorme confiança e orgulho. O retrato atual é o de uma classe mais jovem, altamente qualificada, cada vez mais diferenciada e com uma forte dimensão internacional. Os principais sinais desta evolução estão na diversidade e especialização da nossa intervenção: temos hoje sete especialidades farmacêuticas e várias competências implementadas em áreas críticas como a Oncologia, a Investigação Clínica, a Saúde Pública, a Medicina Farmacêutica, e a de Gestão e Administração em Saúde, refletindo a transversalidade do nosso papel, que vai desde a investigação de uma nova molécula até à sua utilização pelo cidadão. Outro sinal claro de maturidade é o sucesso da vacinação nas farmácias comunitárias, que deixou de ser uma resposta secundária para se assumir como uma componente essencial da estratégia de saúde pública, provando inequivocamente aquilo que acontece quando o sistema de saúde confia nas competências dos farmacêuticos.

Que desafios continuam a limitar o pleno reconhecimento das competências dos farmacêuticos e a sua integração nas diferentes áreas do sistema de saúde?
O maior desafio não está na falta de capacidade instalada, mas sim na resistência estrutural do sistema em utilizar plenamente os recursos e qualificações que já tem à sua disposição. O debate na saúde ainda se foca excessivamente em quem, de forma histórica, executava determinada atividade, quando a pergunta vital deve ser: quem tem a formação, a competência e as condições para a realizar com segurança e eficácia? Precisamos de uma discussão urgente e madura sobre a partilha e delegação de tarefas (task sharing e task shifting) para melhorar o acesso dos cidadãos e a eficiência do sistema. Além disso, o bloqueio mais crítico à nossa plena integração é a barreira tecnológica: não podemos exigir que o farmacêutico previna interações, faça revisão da medicação e assuma maior responsabilidade clínica se, em simultâneo, lhe negamos o acesso adequado e rastreável à informação clínica do doente. A falta de interoperabilidade entre os sistemas de informação continua a ser um constrangimento central.

O sucesso da vacinação nas farmácias comunitárias, que deixou de ser uma resposta secundária para se assumir como uma componente essencial da estratégia de saúde pública, provando inequivocamente aquilo que acontece quando o sistema de saúde confia nas competências dos farmacêuticos.

A farmácia comunitária tem assumido responsabilidades crescentes na prestação de cuidados. Como deve evoluir o seu modelo de intervenção e que condições são necessárias para o consolidar?
O modelo de intervenção da farmácia comunitária tem de evoluir de forma articulada para se afirmar, em definitivo, como uma rede de prestação de cuidados de primeira linha, essencial para aliviar a pressão sobre as urgências e os centros de saúde. Esta evolução passa, prioritariamente, pela implementação da intervenção farmacêutica nas situações clínicas ligeiras, como infeções urinárias, dores de garganta ou otites médias, um modelo que temos vindo a propor suportado em protocolos clínicos e num sistema estruturado de referenciação de utentes. Esta intervenção farmacêutica já está, aliás, amplamente implementada em países como o Reino Unido, servindo de referência internacional e de excelente exemplo de como a nossa profissão pode ser eficaz a libertar os cuidados de saúde primários e as urgências para a resolução de casos mais graves. A evolução passa também por escalar e consolidar definitivamente a dispensa de medicamentos hospitalares em proximidade, assegurando a continuidade de cuidados e o acompanhamento clínico rigoroso do utente. Para que este modelo se consolide, é fundamental garantir uma total interoperabilidade tecnológica, estabelecer canais de comunicação ágeis entre médicos e farmacêuticos e criar mecanismos de remuneração baseados em valor, que compensem os serviços efetivamente prestados e os resultados em saúde gerados.

A escassez de profissionais, a pressão sobre as equipas e a sustentabilidade económica são preocupações frequentemente apontadas pelo setor. Qual é o impacto destas questões na qualidade do exercício profissional?
O impacto é severo e constitui uma ameaça que exige ação imediata. Quando a pressão sobre as equipas e a falta de recursos ultrapassam os limites de resiliência das instituições, é a segurança do próprio doente que fica comprometida. Tivemos recentemente um forte alerta com as declarações de exclusão de responsabilidade apresentadas por mais de uma centena de colegas em 26 instituições, refletindo a enorme preocupação perante a manifesta insuficiência de quadros e a degradação de infraestruturas que impossibilitam a garantia de um ato profissional seguro. No contexto comunitário, a indisponibilidade constante de medicamentos obriga os farmacêuticos a dedicarem, em média, onze horas por semana apenas à gestão desta escassez, consumindo um tempo precioso que deveria ser canalizado para o aconselhamento e acompanhamento clínico do utente. Um sistema cronicamente subdimensionado e sob stress perde capacidade de inovar, afasta talento e fragiliza a qualidade dos cuidados prestados.

Por outro lado, a transformação digital, a inteligência artificial e a utilização crescente de dados estão a alterar a prática farmacêutica. Que competências devem ser reforçadas e que riscos importa acautelar?
Estamos perante um novo paradigma impulsionado pelas terapias genéticas, novos biológicos, inteligência artificial e a utilização de megadados (Big Data). Para acompanhar esta mudança, os farmacêuticos têm de aprofundar competências analíticas, sobretudo na monitorização de dados obtidos em contexto real e na avaliação de tecnologias em saúde. Contudo, o risco que não podemos ignorar é a desumanização dos cuidados e o desfasamento ético da inovação. Temos de nos questionar continuamente: quem assume a responsabilidade por uma decisão apoiada num algoritmo? Como evitamos os enviesamentos tecnológicos? Como garantimos a proteção absoluta da privacidade dos utentes? A inovação nunca pode avançar dissociada da ética. Por esta razão, considero imprescindível que a ética e a bioética assumam uma preponderância central nos currículos e na formação profissional, assegurando que o farmacêutico possui não apenas o conhecimento para utilizar a tecnologia, mas o espírito crítico para questionar os seus limites.

A implementação da Residência Farmacêutica foi um marco extraordinário, dotando o sistema de profissionais altamente especializados. No entanto, é inaceitável que surjam obstáculos artificiais e bloqueios no acesso à formação destes residentes por conflitos interprofissionais. O direito à formação não é estanque e a saúde exige equipas multidisciplinares e colaborativas.

Como avalia a preparação dos atuais modelos de formação e desenvolvimento profissional contínuo para responder às novas responsabilidades e exigências colocadas aos farmacêuticos?
Os nossos modelos de formação têm percorrido um trajeto notável, mas precisam de responder com maior agilidade às necessidades do terreno. Um excelente exemplo dessa adaptação é a recente evolução na formação pré-graduada: desde março de 2026, a Ordem reconhece a administração de vacinas e medicamentos como uma competência intrínseca da profissão. Como reflexo direto desta mudança, as Instituições de Ensino Superior garantem agora a todos os estudantes do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas uma formação adequada de pelo menos 7 horas em administração de injetáveis, incluindo um mínimo de 4 horas de Suporte Básico de Vida, realizada antes do estágio curricular em farmácia comunitária.
No plano pós-graduado, a implementação da Residência Farmacêutica foi um marco extraordinário, dotando o sistema de profissionais altamente especializados. No entanto, é inaceitável que surjam obstáculos artificiais e bloqueios no acesso à formação destes residentes por conflitos interprofissionais. O direito à formação não é estanque e a saúde exige equipas multidisciplinares e colaborativas.
Ao nível do desenvolvimento contínuo, a Ordem tem liderado este esforço com a regulamentação de novas competências, mas precisamos de fomentar uma cultura prática de investigação e translação científica. Não basta que a formação renove o saber, ela tem de transformar-se rapidamente em protocolos clínicos auditáveis, traduzindo-se numa melhoria imediata do serviço prestado às pessoas.

Olhando para os próximos anos, quais são as mudanças que considera prioritárias para valorizar a profissão, melhorar as condições do seu exercício e reforçar o contributo dos farmacêuticos para os resultados em saúde?
A primeira e mais premente prioridade é o planeamento estratégico de recursos humanos, traduzido na urgente criação de vagas na Carreira Farmacêutica para garantir a integração da centena de especialistas que agora terminam a Residência Farmacêutica, evitando um êxodo de talento especializado do nosso Serviço Nacional de Saúde. Em segundo lugar, temos de avançar decisivamente para a partilha de dados clínicos e garantir a interoperabilidade total das plataformas informáticas, que é a espinha dorsal de qualquer intervenção sustentada baseada no valor. A terceira grande mudança passa por uma reforma nas políticas públicas, de forma a assumir que o setor farmacêutico deve ser encarado não apenas na ótica da despesa hospitalar ou ambulatória, mas sim como um investimento crítico na melhoria da saúde dos cidadãos, e um pilar de desenvolvimento científico, industrial e económico do país. Com melhores lideranças nas organizações de saúde e vontade política para otimizar as competências de cada profissional, a profissão farmacêutica será capaz de dar um contributo transformador para a sustentabilidade e coesão do sistema.