A profissão avançou, mas a carreira não avançou connosco
Artigo escrito por Inês Figueira, Técnica de Cardiopneumologia no Hospital de Santa Marta e Membro da Comissão de Acreditação do European Board of Cardiovascular Perfusion

Exerço Cardiopneumologia há 27 anos e trabalho no Hospital de Santa Marta, um centro de referência cardiovascular. Ao longo deste percurso assisti a uma enorme evolução tecnológica e científica. A profissão tornou-se mais complexa, diferenciada e exigente. Contudo, nem sempre a carreira e a remuneração acompanharam essa transformação.
Num centro desta natureza, os Técnicos de Cardiopneumologia integram áreas como hemodinâmica, eletrofisiologia, pacing e cirurgia cardíaca. Trabalhamos com procedimentos invasivos e equipamentos altamente especializados. Não basta operar uma máquina: é necessário interpretar informação, reconhecer alterações, antecipar problemas e articular com a equipa.
Num estudo eletrofisiológico acompanhamos e analisamos a atividade elétrica do coração e sinais intracardíacos. Isso exige conhecimento aprofundado de eletrofisiologia e domínio de sistemas complexos. Participamos também, de acordo com a organização das equipas e as competências profissionais, em procedimentos terapêuticos de arritmias, incluindo ablações. Na hemodinâmica integramos equipas que realizam intervenções cardiovasculares, por vezes em contexto urgente. Num enfarte agudo do miocárdio, cada minuto conta; concentração, rapidez e coordenação não são opcionais.
A perfusão cardiovascular torna ainda mais evidente a responsabilidade desta profissão. Na vasta maioria das cirurgias cardíacas, a circulação extracorporal substitui temporariamente funções essenciais da circulação e da oxigenação do sangue. O perfusionista controla continuamente o sistema e múltiplos parâmetros, mas não está apenas a vigiar um equipamento: existe uma pessoa na mesa operatória cuja vida depende da qualidade das decisões tomadas. A responsabilidade e a exigência são totais.
A licenciatura fornece a formação de base, mas não é suficiente para trabalhar autonomamente em perfusão. O percurso recomendado inclui integração nunca inferior a dois anos, aquisição progressiva de autonomia, prática comprovada, formação pós-graduada específica e possibilidade de certificação pelo European Board of Cardiovascular Perfusion. A atualização mantém-se ao longo da vida.
Integro a comissão de acreditação do EBCP. A exigência europeia aplicada aos programas de educação e treino, à formação continuada e à acreditação demonstra a complexidade destas competências. No entanto, encontramos uma contradição: o sistema necessita de profissionais diferenciados, utiliza essas competências e atribui-lhes responsabilidades crescentes, mas a carreira nem sempre reconhece esse percurso. Não se trata de acumular certificados. Trata-se de reconhecer competências de que o hospital efetivamente precisa e que utiliza todos os dias.
Grande parte do investimento formativo é pessoal. Inclui propinas, cursos, congressos, deslocações, fins de semana e muitas horas depois do trabalho. No meu caso, terminei a licenciatura em 2000 e tive de esperar 22 anos até reunir condições económicas para regressar à faculdade. Houve prioridades familiares inevitáveis: filhos, habitação, alimentação e saúde. A baixa remuneração também condiciona as escolhas de formação e de vida dos profissionais.
Os horários e os riscos têm igualmente um custo. No bloco operatório, na hemodinâmica e em alguns procedimentos de eletrofisiologia existe exposição a radiação ionizante, sujeita a monitorização e proteção, bem como riscos biológicos, gases anestésicos e exigências ergonómicas. Os equipamentos de proteção podem contribuir para problemas musculoesqueléticos. Acrescem urgências, prevenções, trabalho noturno e descanso reduzido. Reconhecer estas condições não é dramatizar; é descrever a realidade.
Também formamos estudantes. Essa função envolve acompanhamento, avaliação, correção de trabalhos, documentação e organização, frequentemente conciliados com a atividade assistencial. Fazê-lo com gosto não significa que deixe de ser trabalho. Estamos a preparar profissionais que terão de tomar decisões responsáveis perante doentes e, por isso, esta função deve ser reconhecida.
A valorização é mais ampla do que o salário: inclui carreira, progressão, diferenciação, condições de trabalho e reconhecimento da experiência. Mas o salário também é valorização. Os profissionais de saúde trabalham para viver e não deve ser inconveniente discutir se a remuneração corresponde à formação, à autonomia, aos riscos e à responsabilidade exigidos.
Antes de decidir quanto vale esta profissão, é necessário conhecê-la: entrar numa sala de hemodinâmica, acompanhar um estudo eletrofisiológico, assistir a uma cirurgia cardíaca ou a um transplante e perceber o que significa assegurar a circulação extracorporal. É também necessário ouvir quem trabalha há 20 ou 30 anos e perguntar quanto estudou, investiu e assumiu. Não pedimos privilégios. Pedimos coerência entre aquilo que o Serviço Nacional de Saúde exige e aquilo que reconhece, para que os mais novos não recebam uma profissão avançada dentro de uma carreira parada no tempo.




