Gordura abdominal pode revelar risco cardiovascular que o IMC não deteta

Conclusão resulta de um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto que usa Inteligência Artificial para analisar a gordura abdominal e identificar características associadas à calcificação das artérias coronárias.

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A quantidade de gordura abdominal não conta toda a história sobre o risco cardiovascular. Duas pessoas com peso e perímetro da cintura semelhantes podem apresentar riscos diferentes, dependendo das características do tecido adiposo. É esta dimensão que uma investigação liderada por Jennifer Mancio, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), procurou explorar através de uma técnica de análise de imagem baseada em Inteligência Artificial (IA).

Os resultados do estudo, desenvolvido no âmbito do projeto SAFE-CT e financiado pela Bolsa CUF D. Manuel de Mello, da Fundação Amélia de Mello, divulgados na revista científica International Journal of Obesity, mostram que determinadas características da gordura abdominal estão associadas à presença de calcificação nas artérias coronárias, um marcador de aterosclerose e de maior risco de enfarte.

“O índice de massa corporal e o perímetro da cintura medem quanta gordura temos, mas não como ela é. Duas pessoas com a mesma quantidade de gordura podem ter riscos completamente diferentes”, explica Jennifer Mancio, investigadora da FMUP, citada no site da Universidade do Porto.

A equipa analisou exames de tomografia computorizada (TAC) de 1736 adultos sem doença coronária conhecida. O objetivo foi estudar a gordura subcutânea, localizada logo abaixo da pele, a gordura visceral, que envolve os órgãos abdominais, e a gordura abdominal total.

Para interpretar as imagens, os investigadores recorreram à radiómica, uma abordagem que transforma exames médicos em dados quantitativos. Através de algoritmos de IA, a técnica extrai centenas de características dos tecidos, incluindo a densidade e a textura, que não são diretamente percetíveis a olho nu. Por funcionar como uma espécie de “biópsia virtual”, permite caracterizar a gordura sem recorrer a uma colheita de tecido.

A investigação identificou uma “assinatura pró-aterogénica”, ou seja, um padrão de gordura com textura mais heterogénea, associado à presença de calcificação nas artérias coronárias. Este resultado sugere que a composição e a estrutura do tecido adiposo poderão acrescentar informação à avaliação convencional do risco cardiovascular.

“Quando a gordura abdominal se torna muito heterogénea na sua textura, isso funciona como um sinal de alerta para a presença de calcificação nas coronárias”, afirma a investigadora.

O estudo identificou ainda diferenças na estrutura da gordura abdominal entre homens e mulheres. Jennifer Mancio salienta que, nos homens, “até a gordura subcutânea, que tendemos a considerar protetora, já tem características de gordura de risco”. A investigadora considera que esta observação poderá contribuir para compreender melhor por que motivo os homens sofrem, em média, enfartes cerca de dez anos mais cedo do que as mulheres.

Uma das possibilidades futuras desta abordagem passa por analisar TAC que já tenham sido solicitadas por outras razões clínicas. De acordo com Jennifer Mancio, “a análise não implicaria custos nem exposição adicional à radiação para os doentes, uma vez que utilizaria imagens existentes”.

A investigadora considera que “a integração da tecnologia nos programas de análise de imagem poderá ajudar a identificar mais cedo pessoas cuja gordura abdominal apresenta características associadas a maior risco de calcificação coronária, contribuindo para personalizar a prevenção e o tratamento, nomeadamente em pessoas com obesidade”.

A aplicação clínica desta abordagem dependerá, contudo, da sua validação e integração nos processos de avaliação médica. O estudo aponta para o potencial da caracterização da gordura abdominal como fonte adicional de informação, que poderá complementar os indicadores tradicionais, e não substituí-los.