A Cardiopneumologia é muito mais do que um eletrocardiograma
Artigo escrito por Márcio Oliveira, Técnico de Cardiopneumologia na Unidade Local de Saúde de Castelo Branco desde 2005

Quando digo que sou Técnico de Cardiopneumologia, muitas pessoas associam imediatamente a profissão ao eletrocardiograma. Essa associação não está errada, mas é profundamente incompleta. O eletrocardiograma é apenas uma das muitas técnicas que realizamos. O problema é simples: aquilo que o cidadão não conhece dificilmente consegue valorizar.
Na Cardiopneumologia realizamos Holter, monitorização ambulatória da pressão arterial, provas de esforço e de marcha, ecocardiografia cardíaca e vascular, Doppler transcraniano, estudos funcionais respiratórios e estudos do sono. Participamos ainda, consoante a organização dos serviços, em áreas invasivas como hemodinâmica, eletrofisiologia e pacing, incluindo a implantação e o acompanhamento de dispositivos cardíacos. Em muitos hospitais, asseguramos a resposta ao eletrocardiograma na urgência durante todo o ano.
Não somos simples executores de técnicas. Cada exame exige conhecimento de anatomia, fisiologia e fisiopatologia, domínio dos equipamentos, reconhecimento de artefactos, adaptação do procedimento ao doente e avaliação da qualidade da informação obtida. Em algumas técnicas elaboramos relatórios que são posteriormente validados por cardiologistas ou pneumologistas. Existe autonomia técnica e científica, bem como responsabilidade pelos exames realizados. Reconhecer esta autonomia não significa substituir outras profissões, mas compreender as competências próprias e complementares de cada elemento da equipa.
Trabalho na Unidade Local de Saúde de Castelo Branco desde 2005. Na nossa realidade existem 13 Técnicos de Cardiopneumologia para uma cardiologista. Este dado ajuda a perceber a importância da autonomia profissional: se toda a atividade dependesse permanentemente da presença médica, seria impossível manter a capacidade de resposta. As tarefas que asseguramos autonomamente, dentro das nossas competências, permitem que mais doentes tenham acesso atempado aos exames de que necessitam.
A ecocardiografia é um exemplo particularmente claro. Um ecocardiograma não consiste apenas em colocar uma sonda e obter imagens. É necessário encontrar os planos corretos, efetuar medições, avaliar a qualidade do estudo e reconhecer alterações que exigem atenção. Realizamos também ecocardiografia pediátrica, incluindo em recém-nascidos, em articulação com a Cardiologia Pediátrica de referência. Por vezes, este trabalho evita que uma criança e a sua família tenham de se deslocar a outro hospital. Perante um bebé com poucos dias, sentimos de forma muito concreta a responsabilidade daquele exame.
Colaboramos ainda em ecocardiografia transesofágica e em estudos de sobrecarga farmacológica ou física, integrados numa equipa com médicos e enfermeiros. São procedimentos que exigem formação e experiência específicas. Os equipamentos e os sistemas de informação mudaram muito ao longo das últimas duas décadas, tal como mudou o conhecimento científico. Falar de antiguidade não é apenas contar anos: é reconhecer tudo o que o profissional aprendeu e passou a ser capaz de fazer.
Essa aprendizagem mantém-se durante toda a vida profissional. Cursos, congressos, pós-graduações, mestrados, doutoramentos e formação contínua exigem investimento de tempo e dinheiro. Contudo, mais formação não deve significar automaticamente maior remuneração. O que deve ser reconhecido são as competências efetivamente adquiridas, necessárias e utilizadas pelo serviço, sobretudo quando envolvem maior diferenciação, autonomia ou responsabilidade.
Também acompanhamos estudantes em estágio. Ensinar implica supervisionar, corrigir, explicar e avaliar competências, muitas vezes enquanto a atividade assistencial continua. Estamos a formar profissionais que, pouco tempo depois, poderão estar sozinhos perante um doente. Na nossa realidade, esta responsabilidade formativa não tem uma compensação remuneratória específica, embora inclua trabalho pouco visível, como avaliações, documentação e organização.
A profissão envolve ainda riscos e exigências que variam consoante a área: exposição a agentes biológicos e físicos, riscos ergonómicos, horários prolongados, fins de semana, feriados e pressão associada à responsabilidade e à carga de trabalho. Ao fim de muitos anos, estes fatores têm consequências profissionais e pessoais que não podem ser ignoradas.
Não peço que a Cardiopneumologia seja valorizada porque os seus profissionais dizem que é importante. Peço que se observe aquilo que fazemos. Convido quem decide o futuro da carreira a assistir a um ecocardiograma de um recém-nascido e a perceber a complexidade técnica, o cuidado com a criança e os pais e a concentração necessária. Quando um cidadão precisar de nós, quererá que saibamos exatamente o que estamos a fazer. Assumimos essa responsabilidade todos os dias; o reconhecimento da profissão deve estar à altura dessa confiança.




