“A enxaqueca é uma doença neurológica que pode ser tratada e controlada”

A enxaqueca afeta cerca de dois milhões de pessoas em Portugal, mas continua a ser uma doença frequentemente subdiagnosticada e subvalorizada. À Salus Magazine, a neurologista Andreia Costa, do Hospital Universitário São João e do Hospital CUF Porto e professora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, aborda os obstáculos ao diagnóstico, a importância de avaliar o impacto da doença e o papel de uma abordagem terapêutica individualizada, sem esquecer a relevância que iniciativas como a Migraine Doesn’t Wait (ação da responsabilidade da Lundbeck) no alerta para a importância de reconhecer e compreender a enxaqueca. Além disso, a especialista reflete sobre a imprevisibilidade das crises e as suas consequências na vida profissional, familiar e social. No fundo, a mensagem é clara: “a enxaqueca é uma doença que não deve ser normalizada”.

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A enxaqueca afeta cerca de dois milhões de pessoas em Portugal, mas continua a ser frequentemente subdiagnosticada e subvalorizada. Quais são os principais obstáculos ao reconhecimento da doença?
A enxaqueca é uma doença neurológica heterogénea, que pode manifestar-se de formas diferentes e cuja evolução e impacto variam significativamente de pessoa para pessoa. Esta complexidade pode contribuir para que o diagnóstico demore, sendo que muitas pessoas passam anos até encontrar uma resposta adequada para os seus sintomas.
A própria natureza da doença contribui para a sua invisibilidade: entre crises, a pessoa pode aparentar estar bem, apesar do impacto acumulado e da imprevisibilidade associada à doença. Por isso, é importante reconhecer a enxaqueca como uma doença neurológica que pode ter um impacto significativo na qualidade de vida e que merece diagnóstico e acompanhamento adequados.

Que sinais e sintomas devem levar uma pessoa a procurar avaliação médica, para além da dor de cabeça, e que papel podem desempenhar os cuidados de saúde primários no diagnóstico da enxaqueca?
A enxaqueca pode envolver muito mais do que a dor de cabeça. Náuseas ou vómitos, sensibilidade à luz, ao som ou a odores, alterações visuais ou outros sintomas sensoriais podem acompanhar as crises. Algumas pessoas podem ainda apresentar sintomas antes da própria dor, como fadiga, bocejos ou alterações do humor.
Perante episódios recorrentes de dor de cabeça, sobretudo quando estes condicionam as atividades quotidianas, é importante procurar avaliação médica e não assumir que se trata de algo com que é necessário simplesmente aprender a viver. Os cuidados de saúde primários podem desempenhar um papel importante na identificação da doença e no encaminhamento adequado, sempre que necessário.

Avaliar o impacto da enxaqueca deve fazer parte do acompanhamento clínico. Não basta perceber quantas crises a pessoa tem, é importante compreender quanto a doença limita a sua vida e se o tratamento está efetivamente a reduzir essa carga e a melhorar a sua qualidade de vida.

Falamos de uma patologia pode interferir com a vida familiar, social e profissional, incluindo a produtividade e a capacidade de cumprir tarefas. Como deve ser avaliado este impacto durante o acompanhamento clínico?
O acompanhamento não deve centrar-se apenas no número de crises ou na intensidade da dor. É essencial perceber o que a doença significa concretamente na vida de cada pessoa: quantos dias de trabalho ou de estudo são afetados, que atividades deixa de realizar, se consegue cumprir as suas responsabilidades familiares e sociais e até que ponto vive condicionada pela possibilidade de uma nova crise.
A dimensão deste impacto é também refletida nos indicadores de carga da doença. Em Portugal, as estimativas do Global Burden of Disease 2016 apontaram para cerca de 88 mil anos vividos com incapacidade devido à enxaqueca, evidenciando que as suas consequências ultrapassam largamente o momento da crise. A nível profissional, estudos realizados em Portugal mostram igualmente um impacto relevante através de absentismo e, sobretudo, de presentismo, quando a pessoa mantém as suas atividades apesar de uma capacidade de concentração e desempenho comprometida. 81% dos portugueses com enxaqueca referem impacto na sua vida profissional e a perda global de produtividade foi estimada em 42,3%.
Por isso, avaliar o impacto da enxaqueca deve fazer parte do acompanhamento clínico. Não basta perceber quantas crises a pessoa tem, é importante compreender quanto a doença limita a sua vida e se o tratamento está efetivamente a reduzir essa carga e a melhorar a sua qualidade de vida.

A imprevisibilidade das crises obriga muitas pessoas a adaptar decisões e atividades quotidianas. De que forma esta dimensão da doença deve ser considerada na escolha e na gestão do tratamento?
A imprevisibilidade é uma dimensão importante da experiência de quem vive com enxaqueca e o impacto da doença não se limita aos períodos de crise. Mesmo nos dias sem dor, a antecipação de uma nova crise pode levar a pessoa a alterar planos, evitar determinadas atividades ou tomar decisões em função da possibilidade de os sintomas surgirem. Existem dados que sustentam que as pessoas com episódios frequentes de enxaqueca sofrem o seu impacto mesmo no período entre crises.
Por isso, a escolha e a gestão do tratamento devem ser individualizadas e considerar não só a frequência e a intensidade das crises, mas também o impacto que têm na vida daquela pessoa. O objetivo é reduzir a carga da doença e permitir que a pessoa recupere maior previsibilidade e controlo sobre a sua vida quotidiana.

Os dados disponíveis indicam que cerca de 40% das pessoas com cefaleias em Portugal não têm acompanhamento médico. Que medidas considera prioritárias para melhorar o acesso ao diagnóstico e ao seguimento adequado?
É prioritário aumentar o reconhecimento das cefaleias e da enxaqueca, tanto junto da população como dos profissionais de saúde, reduzindo a normalização de sintomas que podem ter um impacto significativo na vida das pessoas. É igualmente importante promover um diagnóstico atempado e garantir acesso a acompanhamento e a estratégias terapêuticas adequadas à realidade de cada doente. Melhorar este percurso pode contribuir não só para reduzir o sofrimento e a incapacidade associados à doença, mas também para diminuir o impacto que a enxaqueca tem na vida familiar, social e profissional.
Melhorar o diagnóstico e o acompanhamento não é apenas uma questão de saúde individual. Tem também uma dimensão social e económica. Investir num diagnóstico atempado e num tratamento adequado pode contribuir para reduzir esta carga, tanto para as pessoas como para as organizações.

Existe um conjunto diversificado de opções terapêuticas para a enxaqueca, incluindo tratamentos destinados a atuar durante as crises e tratamentos preventivos. A prevenção assume um papel particularmente importante quando a frequência ou o impacto da doença o justificam. O objetivo do tratamento preventivo é reduzir a frequência e a intensidade das crises, diminuir o impacto global da doença e melhorar a qualidade de vida.

A iniciativa Migraine Doesn’t Wait procura dar visibilidade a experiências que muitas vezes permanecem invisíveis. Que importância têm as histórias reais na redução do estigma e na compreensão da enxaqueca enquanto doença neurológica?
As histórias reais têm um papel muito importante porque tornam visível aquilo que, muitas vezes, não é percetível para quem está de fora. Uma pessoa pode estar aparentemente bem e, ainda assim, viver com crises incapacitantes, faltar ao trabalho, cancelar planos ou alterar rotinas por causa da enxaqueca.
Ao dar voz a essas experiências, iniciativas como Migraine Doesn’t Wait ajudam a mostrar que o impacto da doença ultrapassa largamente a dor e que existe uma pessoa por detrás de cada diagnóstico. Esta maior compreensão pode contribuir para combater o estigma, promover empatia e incentivar quem vive com sintomas recorrentes a procurar avaliação e acompanhamento.

Embora a enxaqueca não tenha cura, pode ser tratada e controlada. O que é possível esperar atualmente da abordagem terapêutica e que mensagem gostaria de deixar a quem continua a normalizar os seus sintomas?
Atualmente, existe um conjunto diversificado de opções terapêuticas para a enxaqueca, incluindo tratamentos destinados a atuar durante as crises e tratamentos preventivos. A prevenção assume um papel particularmente importante quando a frequência ou o impacto da doença o justificam. O objetivo do tratamento preventivo é reduzir a frequência e a intensidade das crises, diminuir o impacto global da doença e melhorar a qualidade de vida.
Temos hoje também acesso a novas terapêuticas preventivas eficazes e seguras, permitindo uma abordagem cada vez mais individualizada e adaptada às necessidades de cada pessoa. A escolha do tratamento deve ser feita em conjunto com o profissional de saúde e acompanhada ao longo do tempo, avaliando a resposta e ajustando a estratégia sempre que necessário.
A mensagem fundamental é que a enxaqueca não deve ser normalizada. Ter de cancelar regularmente planos, faltar ao trabalho, limitar atividades ou organizar a vida em função da possibilidade de uma crise não deve ser encarado como inevitável. A enxaqueca é uma doença neurológica que pode ser tratada e controlada, e procurar ajuda é o primeiro passo para reduzir o seu impacto e melhorar a qualidade de vida.