“A inteligência artificial deve ampliar as capacidades dos cirurgiões, preservando o seu controlo”

A introdução da tecnologia Force Feedback no sistema cirúrgico da Vinci 5 permite medir, em tempo real, as forças exercidas sobre os tecidos e transmitir essa informação ao cirurgião. Numa conversa exclusiva com a Salus Magazine, David Marante, vice-presidente da Intuitive no Reino Unido e Irlanda, Itália e Península Ibérica, explica como os dados e a inteligência artificial podem contribuir para aperfeiçoar a técnica cirúrgica, reduzir a variabilidade e melhorar os cuidados prestados aos doentes, sem retirar ao cirurgião o controlo das decisões clínicas.

Esta imagem não tem texto alternativo. O nome do ficheiro é: david-marante-headshot-2026


O Force Feedback é apresentado como uma das principais evoluções do da Vinci 5. O que muda, na prática, para um cirurgião com a introdução desta tecnologia?A tecnologia Force Feedback foi desenvolvida para aumentar a perceção do cirurgião relativamente à força exercida sobre os tecidos durante a intervenção. Sensores localizados junto às extremidades dos instrumentos medem, em tempo real, as forças de pressão, tração e direção, aproximadamente 1.000 vezes por segundo. Estas forças são transmitidas ao cirurgião através dos comandos manuais da consola do da Vinci 5.
Em simultâneo, o Force Gauge disponibiliza uma indicação visual, em tempo real, da força relativa aplicada aos tecidos. Em conjunto, estas capacidades permitem ao cirurgião complementar a informação visual com dados sobre as forças que está a exercer. Na prática, proporcionam uma maior perceção da forma como interage com os tecidos durante a intervenção, podendo contribuir para uma cirurgia mais delicada.

Que evidência clínica existe de que o Force Feedback melhora a cirurgia ou os resultados para o doente? Em que procedimentos a vantagem é mais evidente?
Existe um conjunto crescente de evidência obtida em contexto de prática clínica real que demonstra que o Force Feedback e as tecnologias digitais podem permitir uma cirurgia mais delicada e melhorar os resultados em etapas fundamentais de diferentes procedimentos. A evidência disponível abrange a cirurgia torácica, a reparação de hérnias paraesofágicas, a prostatectomia radical assistida por robótica e a resseção anterior baixa, incluindo também a utilização de ferramentas Force Feedback para quantificar a força aplicada durante tarefas cirúrgicas específicas.
Esta evidência emergente ajuda-nos a compreender de que forma a informação objetiva sobre a força pode favorecer uma interação mais consistente com os tecidos e como as métricas de força se podem relacionar com o aperfeiçoamento da técnica cirúrgica e a melhoria dos resultados clínicos em diferentes procedimentos.
Através do Case Insights, na plataforma MyIntuitive+, os cirurgiões podem consultar as suas métricas de força após a intervenção para aperfeiçoar a técnica e, potencialmente, reduzir a variabilidade da força aplicada entre procedimentos.

O Force Feedback e as tecnologias digitais podem permitir uma cirurgia mais delicada e melhorar os resultados em etapas fundamentais de diferentes procedimentos. A evidência disponível abrange a cirurgia torácica, a reparação de hérnias paraesofágicas, a prostatectomia radical assistida por robótica e a resseção anterior baixa, incluindo também a utilização de ferramentas Force Feedback para quantificar a força aplicada durante tarefas cirúrgicas específicas.

Afirmam também que o da Vinci 5 gera dados sobre vídeo, movimentos dos instrumentos e força aplicada. Como está a Intuitive a transformar estes dados em novas ferramentas de apoio à cirurgia?
A inteligência artificial já está integrada no da Vinci 5 através do Case Insights, que disponibiliza aos cirurgiões os dados do seu sistema da Vinci num formato útil e aplicável à prática. O Case Insights analisa dados do sistema, movimentos dos instrumentos e vídeo para fornecer informação objetiva sobre as intervenções, ajudando os cirurgiões a aperfeiçoar as suas competências e a melhorar os cuidados prestados aos doentes.
A nossa estratégia mais abrangente passa por desenvolver capacidades de inteligência artificial que possam apoiar os cuidados antes, durante e após a cirurgia. A base desta abordagem são dados cirúrgicos interligados e de elevada qualidade. Ao combinar vídeo, movimentos dos instrumentos, Force Feedback e outros sinais do sistema, podemos compreender melhor o que acontece durante uma intervenção e utilizar essa informação para orientar o desenvolvimento de futuras ferramentas e funcionalidades.

O Case Insights permite aos cirurgiões analisar as suas métricas de força. Como garantir que estes dados servem para melhorar a técnica e a formação, e não para criar comparações descontextualizadas entre profissionais?
O Case Insights foi desenvolvido para disponibilizar aos cirurgiões informação objetiva sobre as suas intervenções. Com o Force Feedback, podem analisar as métricas de força após a cirurgia para aperfeiçoar a sua técnica e, potencialmente, reduzir a variabilidade da força aplicada entre procedimentos.
O valor destas métricas reside na possibilidade de fornecerem informação contextualizada que apoie a reflexão e a melhoria contínua, em vez de reduzir o desempenho cirúrgico a um único número ou a uma comparação isolada. A cirurgia é complexa e os dados devem ser interpretados tendo em conta o procedimento, as particularidades de cada caso e o contexto clínico.

O da Vinci 5 foi concebido como uma plataforma de inovação contínua. O que significa este modelo para os hospitais em termos de investimento e atualização dos sistemas?
Significa que permite integrar regularmente novas funcionalidades, capacidades, indicações de utilização e instrumentos. As recentes melhorias do sistema não representam um investimento adicional para os hospitais. Fazem parte da estratégia de inovação contínua da Intuitive, que inclui o desenvolvimento da plataforma e atualizações de software, permitindo aos cirurgiões e às equipas clínicas acompanhar o ritmo da inovação.

Encaramos a inteligência artificial como uma forma de melhorar os cuidados cirúrgicos, reduzir a variabilidade, melhorar os resultados, facilitar procedimentos complexos e encurtar as curvas de aprendizagem.

A Intuitive fala numa capacidade de processamento 10 mil vezes superior à do da Vinci Xi. Que novas capacidades permite esta arquitetura e o que podemos esperar dos próximos desenvolvimentos em inteligência artificial?
O da Vinci 5 tem uma capacidade de processamento 10 mil vezes superior à do da Vinci Xi, juntamente com novos sensores, software e processadores avançados. Esta arquitetura disponibiliza aos cirurgiões mais dados úteis para quantificar, compreender e melhorar o seu desempenho cirúrgico em benefício dos doentes.
No domínio da inteligência artificial, a estratégia da Intuitive passa pelo desenvolvimento progressivo de capacidades que possam apoiar os cuidados antes, durante e após a cirurgia. A maior capacidade de processamento e o ambiente de dados mais rico do da Vinci 5 constituem uma base importante para essa evolução.
Encaramos a inteligência artificial como uma forma de melhorar os cuidados cirúrgicos, reduzir a variabilidade, melhorar os resultados, facilitar procedimentos complexos e encurtar as curvas de aprendizagem. Com mais de 20 milhões de procedimentos realizados com os nossos sistemas, a Intuitive dispõe de um dos conjuntos de dados de cirurgia em contexto real mais abrangentes do setor da saúde, necessário para o desenvolvimento responsável da inteligência artificial.

À medida que a cirurgia se torna mais digital e baseada em dados, onde deve estar o limite da intervenção da tecnologia? Em última análise, quem deve ter a última palavra: o algoritmo ou o cirurgião?
Estamos empenhados em ampliar de forma responsável as capacidades dos cirurgiões através de tecnologia sustentada em dados, rigorosamente validada e concebida para preservar o controlo e a responsabilidade do cirurgião. A nossa visão para a inteligência artificial assenta na manutenção dos mais elevados padrões de segurança e de controlo pelo cirurgião, com vista a contribuir para os cinco objetivos fundamentais: melhorar os cuidados prestados aos doentes e os resultados clínicos, otimizar a experiência dos cirurgiões e das equipas de saúde, alargar o acesso à cirurgia minimamente invasiva, reduzir o custo global dos cuidados de saúde e promover a equidade na saúde e o valor clínico.