Ana Fortunato: uma farmacêutica em transição
Licenciou-se pela Universidade de Lisboa em 1997, fez todo o seu percurso em Farmácia Comunitária até à Direção Técnica, onde se manteve durante vários anos. Sem margem para progressão ganhou asas e tornou-se empreendedora na área do imobiliário e consultora de viagens.

O curso de Ciências Farmacêuticas foi a primeira escolha no acesso à Universidade?
Não, na altura nem sabia bem o que queria. Estive dois anos em Psicologia Clínica e depois mudei para Ciências Farmacêuticas porque achei que teria mais saídas profissionais.
Quais eram as expectativas?
Adorei o curso e as expectativas eram altas. Depois dos estágios gostava de ter seguido farmácia hospitalar, mas como não consegui entrar fui para farmácia comunitária.
Quais são as melhores recordações da faculdade?
Da vida académica sem dúvida. Das amizades e das festas.
Trabalhou vários anos no mesmo grupo de farmácias e chegou a ser Diretora Técnica. Quais as maiores dificuldades nestes cargos?
Ser Diretora Técnica foi uma experiência muito enriquecedora, mas também bastante exigente. A responsabilidade ia além da componente farmacêutica. Tinha de gerir a equipa, stocks, encomendas, objetivos, problemas operacionais e, acima de tudo, garantir a qualidade do serviço prestado aos utentes. Uma das maiores dificuldades era conciliar toda essa responsabilidade com a gestão diária da equipa e a exigência do negócio. Com o tempo fui sentindo que a responsabilidade nem sempre era acompanhada pelo reconhecimento e pelas condições que considerava justas. É uma profissão que exige muito de nós, não apenas em termos técnicos, mas também emocionais e pessoais.
É mais complicado quando não se é proprietário?
Acredito que sim, porque existe uma diferença entre ter responsabilidade pela gestão de uma farmácia e ter poder de decisão sobre todas as matérias. Enquanto Diretora Técnica, temos responsabilidades muito significativas, mas não temos autonomia para implementar mudanças. Podemos identificar problemas, mas as decisões finais não dependem de nós. Às vezes existe um sentimento de frustração quando sentimos que estamos a dar o nosso melhor, mas não temos margem de decisão proporcional à responsabilidade.

Ser Diretora Técnica foi uma experiência muito enriquecedora, mas também bastante exigente. A responsabilidade ia além da componente farmacêutica. Tinha de gerir a equipa, stocks, encomendas, objetivos, problemas operacionais e, acima de tudo, garantir a qualidade do serviço prestado aos utentes.
Como geria os conflitos entre a equipa?
Sempre tentei resolver os conflitos através do diálogo, da transparência e do sentido da responsabilidade. Considero importante ouvir as pessoas, perceber as suas dificuldades e procurar soluções, sem esquecer que somos uma equipa que precisa de regras, organização e objetivos comuns, mas nem sempre foi fácil. Aprendi que uma boa liderança não significa agradar a todos, mas procurar ser justa e dar o exemplo.
Quais foram os principais motivos para iniciar a transição profissional?
A minha decisão foi sendo construída ao longo do tempo. Não foi tomada de impulso nem aconteceu de um dia para o outro. Após 26 anos na Farmácia Comunitária, dos quais os últimos 5 anos como Diretora Técnica, comecei a sentir que já não me identificava com o modelo de vida que a profissão me proporcionava. Horários rotativos, trabalhar aos fins de semana, a dificuldade de escolher as férias e a falta de liberdade começaram a pesar cada vez mais. Queria ter mais controlo sobre o meu tempo, poder fazer planos com a minha família e deixar de sentir que a minha vida estava constantemente condicionada pela organização do trabalho. A isto juntava-se o facto de estar no topo da carreira e já não ter muito mais por onde crescer. Sentia que iria fazer o mesmo até à reforma. Chegou um momento em que precisava de mudar. Não queria continuar a adiar a vida que desejava ter. A palavra que melhor resume esta decisão é liberdade: liberdade de tempo, de escolha, de organização e de construir o meu próprio futuro.
Sentiu que não havia evolução possível?
Sim. Senti que tinha chegado a um patamar em que já não tinha possibilidade de progressão. Não se tratava apenas de progressão na carreira ou ganhar mais. Era também uma questão de qualidade de vida, autonomia e realização pessoal. Percebi que se continuasse a fazer exatamente o mesmo, dificilmente conseguiria alcançar resultados diferentes. Então decidi que tinha que ser eu a mudar.
Desde a crise de 2011 que emigraram muitos farmacêuticos ou deixaram mesmo a profissão. Conhece mais colegas da área da saúde que também se desiludiram?
Sim, conheço muitos colegas que foram repensando o seu percurso profissional e procurando alternativas fora da farmácia comunitária. Muitos profissionais da área da saúde acabam por sentir as mesmas dificuldades: muita responsabilidade, horários pouco compatíveis com a via familiar, a falta de reconhecimento e a sensação de que o esforço nem sempre é devidamente reconhecido.
Existe algum padrão ou cada um teve as suas razões?
Penso que existem pontos em comum, mas cada história será diferente. Há quem procure melhores condições salariais, quem queira emigrar para ter uma carreira mais valorizada, quem precise de conciliar a vida profissional com a familiar e quem simplesmente sinta necessidade de mudar de rumo. No meu caso, foi sobretudo uma questão de qualidade de vida, liberdade e perspetivas de futuro. O facto de termos dedicado vários anos a uma carreira não significa que tenhamos de ficar presos a ela para sempre. Podemos valorizar o caminho percorrido e, mesmo assim, escolher um caminho diferente.
A farmácia é uma profissão exigente, que requer conhecimento, responsabilidade, capacidade de atualização e uma grande componente humana. É importante que os estudantes conheçam a realidade da profissão, as suas diferentes áreas de atuação e as oportunidades que existem para além da farmácia comunitária. Dir-lhes-ia também para não terem medo de arriscar e mudar de ideias se não se sentirem realizados.
Em que áreas decidiu apostar?
Decidi apostar no empreendedorismo, numa área completamente diferente. Iniciei primeiramente um percurso na área do imobiliário, na consultora KW Coastline, e desde o ano passado comecei a desenvolver um negócio na área do turismo, como consultora da Icligo, uma atividade que me permite conciliar a minha paixão por viajar com a possibilidade de construir o meu próprio projeto e que me dá liberdade total de horários. Foi um recomeço que me obrigou a crescer e a sair da minha zona de conforto. Passei de uma profissão que dominava, após 26 anos de experiência, para áreas em que tive de voltar a aprender e a sair muitas vezes da minha zona de conforto, só assim conseguimos evoluir. No conforto e no estável ninguém cresce nem evolui.
Sente-se mais realizada nestes novos projetos?
Sinto-me realizada, mas ainda não totalmente, estou numa fase de mudança em que ainda não consigo viver deste projeto a full-time, mas a curto, médio prazo é esse o objetivo. A diferença é que estou a construir algo meu, com uma visão de futuro que vai além de cumprir um horário e receber um salário no final do mês.
Como são os seus dias nas novas atividades?
São bastante diferentes do que estava habituada. Estou numa bolsa de farmacêuticos e ainda trabalho como Farmacêutica preenchendo alguns horários em falta nas farmácias. Aparte destas horas semanais que escolho consoante a minha disponibilidade estou muito focada no meu negócio das viagens e da imobiliária. Agora sou eu que organizo a minha vida e não tenho nenhum patrão que manda em mim, sou eu que mando na minha vida. E há uma vantagem que, para mim, é particularmente importante: não ter de esperar pela reforma para poder usufruir do meu tempo, viajar ou fazer planos com as pessoas de quem gosto.
Que alterações na prática farmacêutica lhe dariam vontade de regressar a tempo inteiro à Farmácia Comunitária?
Neste momento não pondero regressar a tempo inteiro à farmácia comunitária. Agora que sou livre de horários não quero voltar a sentir-me presa a um contrato de trabalho. Mas acho que a farmácia ganharia em dar aos seus farmacêuticos maior reconhecimento profissional, uma remuneração compatível com as suas funções e melhores condições para exercerem a sua atividade com qualidade, tempo para acompanharem os utentes e tempo para a família. No meu caso não bastaria melhorar apenas o salário. O tempo e a liberdade foram determinantes na minha decisão.
Nesta altura, há centenas de novos alunos a iniciar as aulas no primeiro ano do curso de Ciências Farmacêuticas e outros tantos a preparar-se para os estágios curriculares do último ano. O que gostaria de dizer a estes alunos?
Diria para aproveitarem a formação, aprenderem o máximo possível e terem orgulho na profissão que escolheram. A farmácia é uma profissão exigente, que requer conhecimento, responsabilidade, capacidade de atualização e uma grande componente humana. É importante que os estudantes conheçam a realidade da profissão, as suas diferentes áreas de atuação e as oportunidades que existem para além da farmácia comunitária. Dir-lhes-ia também para não terem medo de arriscar e mudar de ideias se não se sentirem realizados. Escolher uma profissão não significa assumir um compromisso para a vida toda, independentemente das circunstâncias. Podemos gostar do que fazemos, dar o nosso melhor e, um dia perceber que queremos algo diferente. Mudar não significa que desistimos. Por vezes, é ter a coragem de reconhecer que crescemos, que as nossas prioridades mudaram e que precisamos de procurar um caminho mais alinhado com aquilo que somos e queremos ser. Eu dediquei 26 anos à farmácia comunitária e não considero esses anos perdidos. Pelo contrário, fazem parte de quem sou hoje. Mas aprendi que nunca é tarde para mudar.
Quais são os seus planos para os próximos anos?
Quero construir e consolidar o meu negócio na área do turismo, aumentar a minha equipa e ser responsável por muitas pessoas também conseguirem mudar as suas vidas. Os meus objetivos não se resumem apenas a números e resultados, quero ter mais tempo para a minha família, viajar muito (uma vez que consigo trabalhar em qualquer lado) e realizar ainda muitos sonhos que tenho por realizar. Durante muitos anos fiz o suposto: estudar, tirar um curso superior e trabalhar por conta de outrem até me reformar para um dia ser livre. Há uns meses quebrei o ciclo porque quero ser livre antes da reforma, porque nem sei se lá chego um dia. A vida é curta demais e bonita demais para trabalharmos 40 anos para os sonhos e a realização de alguém e deixarmos sempre os nossos sonhos suspensos. Se há algo que esta mudança me ensinou é que nunca é tarde para mudarmos e para recomeçarmos a construir uma vida com mais sentido.





