Ana Lorena: uma Farmacêutica no Hospital Santa Maria

Nascida no Funchal, Ana Lorena, licenciou-se na Faculdade de Farmácia de Lisboa no final dos anos 1980, começou a trabalhar nos Serviços Farmacêuticos do Hospital Pulido Valente e passou para o Santa Maria após a concentração dos Serviços Hospitalares. Nesta primeira parte da entrevista, partilha o início da sua história na área farmacêutica.

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Ana Lorena no seu gabinete nos Serviços Farmacêuticos do Hospital de Santa Maria


Estudante do ensino secundário no Funchal, quais eram as áreas de que mais gostava?
Gostava de Biologia, Fisico-Química e Português. Na verdade escolhi como disciplina extra a Quimicotecnia porque gostava mesmo de química.

O curso de Ciências Farmacêuticas foi a primeira escolha no acesso à Universidade?
Sim, mas se tivesse uma média melhor (tinha “apenas” 16 valores) teria colocado Medicina em 1º lugar. Não que tivesse uma vocação missionária para ser médica, mas porque gostava da ideia de poder intervir mais nos cuidados ao doente

Quais foram os principais motivos para esta escolha?
O curso de Ciências Farmacêuticas parecia-me ser uma escolha abrangente, que me permitiria poder fazer escolhas no futuro (poderia trabalhar num hospital, numa farmácia, numa empresa, ou mesmo ser professora). Por outro lado, agradava-me a possibilidade de trabalhar na área da saúde, de poder ajudar as pessoas no tratamento e na prevenção de doenças.

O curso de Ciências Farmacêuticas parecia-me ser uma escolha abrangente, que me permitiria poder fazer escolhas no futuro (poderia trabalhar num hospital, numa farmácia, numa empresa, ou mesmo ser professora). Por outro lado, agradava-me a possibilidade de trabalhar na área da saúde, de poder ajudar as pessoas no tratamento e na prevenção de doenças.

Até 1997, a Faculdade de Farmácia de Lisboa ainda funcionava nos antigos edifícios com cobertura de amianto e com uma biblioteca muito pequena no famoso “Castelinho”. Como é que se estudava e se realizavam as apresentações sem os recursos informáticos actuais e sem o acesso aos artigos científicos on-line?
Aulas um pouco enfadonhas num grande anfiteatro (onde professores e alunos fumavam), com professores a projectar folhas de acetato manuscritas num retroprojector. Mas para mim, alguém que veio de uma cidade pequena, numa ilha pequena, tudo me parecia interessante e verdadeiramente moderno. Para mimetizar os meus colegas mais “cool” também aprendi a fumar SG Lights, iniciação e treino feito no Bar da Faculdade de Farmácia, onde todo o mundo se conhecia, e onde se discutia muito a política dos anos 1980 (o Cavaco Silva foi até à Figueira da Foz fazer a rodagem do seu Citroën e acabou eleito líder do PSD e pouco depois 1.º ministro). Os trabalhos eram feitos a partir de pesquisas em revistas especializadas em bibliotecas académicas (no Castelinho, no Técnico, na Faculdade de Ciências), onde, nas mais sofisticadas, também se pesquisava em microfilmes.

Como era a vida social na Faculdade? Já existiam as famosas Farmos (convívios organizados pela Associação de Estudantes em zonas turísticas, normalmente no Algarve na Farmo de Verão e no interior na Farmo de Inverno)?
A vida era intensíssima, o ambiente era alegre, jovem e divertido. Os deslocados das ilhas e de regiões distantes do continente, e os residentes na cidade de Lisboa, passávamos horas na Faculdade a conversar (no bar, obviamente), e a combinar saídas nocturnas no Plateau, no Frágil, etc. Os colegas que viviam na margem sul, ou na linha de Cascais desapareciam logo no final das aulas, só permaneciam os mais boémios, os curiosos, e os que tinham de fazer tempo para o jantar na Cantina Velha.
Sem fantasias nem idealismos nostálgicos, foram mesmo tempos muito felizes para mim. Embora sentisse saudades da minha família e da minha ilha, a sede de viver experiências e “aventuras” era imensa, provavelmente alimentada pelos romances de ficção (portuguesa e estrangeira) que lia desde os meus doze anos (Eça e as suas viagens e tertúlias, gostava de reconhecer em Lisboa os locais que tinha lido nos seus romances, Milan Kundera, claro, o Sommerset Maugham, o Sandor Marai, etc.). A leitura do Expresso e do Independente era também obrigatória no grupo do Bar da Faculdade, alguns rapazes liam o Record, o Jogo ou a Bola. Foi um momento muito bom da minha vida, mas foi vivido na altura própria, com a idade certa. Curiosamente ainda conservo amigos muito próximos dessa época, mas raramente falámos dos tempos de faculdade.

Como comecei a trabalhar num hospital relativamente pequeno, e era a única farmacêutica em escala no horário prolongado da tarde (até as 19h), foi muito fácil conhecer as equipas de enfermagem e as equipas médicas, com quem discutia diariamente as situações de urgência, pelo que rapidamente me senti valorizada e útil.

Como decorreram os seus estágios em Farmácia Comunitária e em Hospitalar?
Fiz o estágio de Comunitária numa farmácia em Alvalade e o estágio de Farmácia hospitalar no Hospital Pulido Valente. Era muito jovem e muito insegura ao balcão, talvez por isso não guarde recordações marcantes do estágio em farmácia comunitária. Depois da conclusão do curso comecei logo a trabalhar na Farmácia do Hospital Pulido Valente.

Como foram esses primeiros anos de trabalho no Hospital Pulido Valente?
Foram anos muito importantes, pude aplicar os meus conhecimentos na actividade profissional diária. Como comecei a trabalhar num hospital relativamente pequeno, e era a única farmacêutica em escala no horário prolongado da tarde (até as 19h), foi muito fácil conhecer as equipas de enfermagem e as equipas médicas, com quem discutia diariamente as situações de urgência, pelo que rapidamente me senti valorizada e útil. Na altura, a formação profissional era dada pela indústria farmacêutica e era relativamente fácil ter acesso a cursos, congressos, jornadas, etc., a actualização dos conhecimentos era apenas veiculada desta forma, ou através da leitura de artigos e revistas científicas especializadas, uma vez que a internet ainda não estava disponível.