Ana Rodrigues: A evolução da farmácia hospitalar e os desafios do futuro
Da transcrição manual das prescrições à digitalização dos processos e aos desafios da inteligência artificial, a farmácia hospitalar mudou profundamente nas últimas décadas. Na segunda parte da entrevista à Salus Magazine, a farmacêutica revisita essa evolução, reflete sobre a valorização da carreira, a formação das novas gerações e o futuro da profissão, que antevê cada vez mais próximo do doente e dos serviços clínicos.

Chegou a trabalhar na Indústria Farmacêutica em part-time. Quais eram as suas principais funções? Nunca sentiu vontade de passar para a área da Indústria a tempo inteiro?
Trabalhei em regulatory affairs na indústria cosmética, fazia revisão de cartonagem e material publicitário, e ainda as notificações ao Infarmed e ao Centro anti-venenos (em conformidade com a legislação em vigor na altura). Trabalhava em cooperação com o sector de qualidade e com o Marketing. Gostei muitíssimo da experiência, contudo tinha três filhos pequenos e um marido que viajava muito, sem grandes apoios familiares não teria sido sensato fazer a passagem para a indústria. De qualquer forma nunca me arrependi, creio que senti sempre que a minha verdadeira vocação era o exercício da atividade farmacêutica na sua componente mais clínica e hospitalar.
De que forma evoluíram os Serviços Farmacêuticos na passagem dos anos 1990 para os 2000? Sentiu que o SNS perdeu qualidade?
Não, de forma alguma, pelo contrário, ganhou muita qualidade. Com a entrada do novo milénio houve uma verdadeira revolução na farmácia hospitalar que veio a melhorar muitíssimo a qualidade do trabalho e a segurança do doente. No início da minha carreira, no ano de 1992, não havia computadores, trabalhávamos com prescrições manuscritas em papel que transcrevíamos para uma folha terapêutica do doente. Era necessário interpretar o que estava escrito (a expressão popular “letra de médico” tem certamente origem nas prescrições manuscritas que estes profissionais faziam no passado, não eram realmente nada fáceis de interpretar), após a transcrição pelo farmacêutico, a medicação era preparada pelo técnico de diagnóstico e terapêutica, através da leitura dos registos manuscritos dos farmacêuticos, sendo depois enviada para o doente, onde o registo de administração era também manuscrito pelo enfermeiro. Conseguem imaginar trabalhar sem computadores, sem telemóveis e sem internet? Só era possível mediante uma boa (e constante) comunicação entre os vários profissionais de saúde que intervinham no processo.
Para tirar dúvidas consultávamos livros e manuais (Martindale, Formulário Britânico, Formulário da Sociedade Farmacêutica Hospitalar Americana, etc.), muitos grandes calhamaços em papel bíblia, demorávamos às vezes horas para dar uma resposta sobre segurança, compatibilidade, efeito secundários, de um determinado medicamento. O SNS ganhou efetivamente muita qualidade com a democratização da internet, e com a digitalização e automatização dos processos de trabalho.
No início da minha carreira, no ano de 1992, não havia computadores, trabalhávamos com prescrições manuscritas em papel que transcrevíamos para uma folha terapêutica do doente. Era necessário interpretar o que estava escrito (a expressão popular “letra de médico” tem certamente origem nas prescrições manuscritas que estes profissionais faziam no passado, não eram realmente nada fáceis de interpretar), após a transcrição pelo farmacêutico, a medicação era preparada pelo técnico de diagnóstico e terapêutica, através da leitura dos registos manuscritos dos farmacêuticos, sendo depois enviada para o doente, onde o registo de administração era também manuscrito pelo enfermeiro.
E as condições laborais dos profissionais de saúde foram alteradas?
Sim, mas não acompanhou a velocidade da inovação farmacêutica. Os procedimentos tardaram a adaptar-se e a remuneração salarial estagnou durante 20 anos, o que causou grande desmotivação dos profissionais
Após a reorganização dos Centros Hospitalares, a maioria da equipa farmacêutica do HPV foi transferida para Santa Maria. Como decorreu essa mudança? Quais foram as principais intercorrências?
Foi uma adaptação desafiante. Fui nomeada para criar o procedimento de transição para a preparação no Hospital Santa Maria (e transporte) dos módulos diários de medicação dos doentes do Hospital Pulido Valente. Felizmente correu tudo bem
Considera que as competências técnicas dos farmacêuticos hospitalares estão a ser bem aproveitadas atualmente?
Os novos desafios da IA vão obrigar a uma grande transformação no trabalho do farmacêutico hospitalar, que penso que irá ser positiva, e que nos vai aproximar mais do doente e dos serviços clínicos.
A carreira de Farmacêutico Hospitalar foi criada há poucos anos. Sendo um grupo profissional imprescindível no tratamento dos doentes em meio hospitalar, quais os motivos desta falta de atenção crónica pelos Farmacêuticos Hospitalares?
O nosso trabalho é muito discreto, trabalhamos nos bastidores, no hospital onde trabalho garantimos a cedência em segurança da medicação de mais de mil doentes internados em 2 hospitais, doentes em hospitais de dia, ambulatório, toda a medicação é validada por um farmacêutico antes de ser preparada e cedida. É um hospital com uma dimensão enorme de valências, um centro de referência para várias patologias raras, e com uma atividade experimental e académica intensa, onde o farmacêutico pode exercer de uma forma estimulante e inovadora o seu trabalho.
Acredito que com o desenvolvimento de novas linhas terapêuticas cada vez mais sofisticadas (adaptadas a cada doente/doença) a atividade do Farmacêutico Hospitalar vai ser cada vez mais importante no contexto dos cuidados prestados ao doente, e também no contexto de gestão dos custos, que serão cada vez mais altos.
Considera que o actual programa de Residência Farmacêutica é uma boa forma de resolver este problema e de valorizar a carreira Farmacêutica? Como está a correr no processo no Hospital de Santa Maria?
Está a correr muito bem e creio ser um excelente programa para a nossa carreira, estamos a criar novos profissionais muito bem treinados e mais preparados para os desafios futuros
De que forma os currículos das faculdades de farmácia se deviam adaptar para dotar os futuros farmacêuticos de melhores instrumentos para responder aos desafios da longevidade, das patologias mentais, da desinformação, do acesso aos sistemas de saúde e das novas tecnologias?
A desinformação é o maior problema. Quanto ao resto vejo com muito otimismo a inovação na área do medicamento, vamos poder tornar crónicas doenças que até bem pouco tempo não eram tratáveis. Acredito que com o desenvolvimento de novas linhas terapêuticas cada vez mais sofisticadas (adaptadas a cada doente/doença) a atividade do Farmacêutico Hospitalar vai ser cada vez mais importante no contexto dos cuidados prestados ao doente, e também no contexto de gestão dos custos, que serão cada vez mais altos.
Aconselhava o curso de Ciências Farmacêuticas aos candidatos ao Ensino Superior?
Sim, claro.
A nível profissional, quais são os seus planos a médio prazo?
Passar o meu conhecimento e experiência às novas gerações, e continuar a aprender, o conhecimento na nossa área nunca se esgota.




