Cortes bruscos em financiamento internacional afetam prevenção e tratamento do HIV/Aids

Cortes bruscos em financiamento internacional afeta prevenção e tratamento do HIV/Aids

Relatório da Unaids expõe como a redução abrupta de fundos está a provocar uma crise nos serviços de prevenção e tratamento do HIV/Aids, com destaque para Moçambique e Angola. Mais de 30 mil profissionais perderam os empregos e dívida pública compromete resposta à doença. Brasil surge como referência de financiamento sustentável.

Unfpa Moçambique/Mbuto Machili, 

Cabo Delgado, Moçambique – Ancha comparece a uma consulta numa clínica móvel de saúde apoiada pelo Unfpa, site da ONU News

O mais recente relatório do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), intitulado Aids, Crise e o Poder de Transformar, denuncia que cortes abruptos no financiamento internacional para a resposta ao HIV/Aids estão a pôr em risco milhares de vidas e o sustento de profissionais do setor da saúde em vários países, incluindo lusófonos.

Em Moçambique, mais de 30 mil profissionais de saúde ligados às ações de prevenção e tratamento do HIV/Aids foram diretamente afetados com a suspensão do apoio financeiro internacional, em particular do Pepfar — Programa de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para o Alívio da Aids. O país, altamente dependente deste fundo (que cobre mais de 60% das despesas relacionadas à doença), enfrenta a ameaça real do colapso dos serviços, caso os apoios norte-americanos sejam totalmente interrompidos.

“O corte de financiamento representa, na prática, o desaparecimento imediato de serviços essenciais, afetando especialmente as populações mais vulneráveis e as crianças”, sublinha o relatório.

A situação agrava-se em Angola, onde o relatório evidencia que a despesa com o serviço da dívida pública é quase cinco vezes superior ao orçamento nacional de saúde. Este desequilíbrio orçamental dificulta ainda mais a capacidade do país para compensar a redução de fundos internacionais e cumprir compromissos com atividades críticas, que exigem mão-de-obra qualificada e sistemas logísticos robustos.

Apesar do cenário preocupante, há exemplos positivos. O relatório destaca o Brasil como caso de sucesso, sendo um dos poucos países de rendimento médio em que todo o fornecimento de medicamentos antirretrovirais é coberto por financiamento doméstico. O programa Bolsa Família também mostrou impacto expressivo na contenção da epidemia, levando a uma redução de 41% na incidência de HIV e 39% na mortalidade entre beneficiários.

O relatório alerta ainda para a existência de uma verdadeira “bomba-relógio”, já que mesmo antes dos cortes recentes, 9,2 milhões de pessoas — incluindo 620 mil crianças — estavam sem acesso a serviços essenciais em 2024. No mesmo ano, registaram-se 630 mil mortes por causas associadas ao HIV/Aids, das quais 61% na África Subsaariana.

Entre as recomendações, o Unaids pede urgência na promoção da solidariedade global e investimento sustentado, destacando o surgimento de novas ferramentas de prevenção, como a PrEP injetável de longa duração, eficaz mas ainda de acesso limitado devido ao preço elevado.

A diretora executiva do Unaids, Winnie Byanyima, apela à solidariedade e ação coordenada:

“Os países estão a aumentar o financiamento interno, as comunidades mostram soluções eficazes — mas falta compromisso global para corresponder à coragem e resiliência demonstradas.”

Para saber mais consulte o artigo completo disponível em: https://news.un.org/pt/story/2025/07/185042