Estudo Europeu Revela Impacto Silencioso da Esclerose Múltipla em Portugal
Mais de 700 portugueses participaram num estudo europeu que revela o impacto invisível da Esclerose Múltipla. Fadiga, dor e défice cognitivo estão entre os sintomas mais debilitantes. Resultados apontam para falhas nos cuidados e necessidade urgente de mudança.

A Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla (SPEM) revelou os dados nacionais do maior estudo europeu sobre o impacto dos sintomas da Esclerose Múltipla (EM). O estudo IMSS – Impact of MS Symptoms Survey, promovido pela Plataforma Europeia de Esclerose Múltipla (EMSP), contou com a participação de 785 pessoas em Portugal, uma das maiores adesões nacionais nesta iniciativa que envolveu 24 associações de doentes em 22 países.
“Este estudo mostra-nos, com evidência concreta, aquilo que os doentes já sentem há muito: que muitos dos seus sintomas mais incapacitantes são invisíveis para o sistema de saúde”, sublinha a SPEM.
Quando os sintomas são invisíveis e o impacto é real
A Esclerose Múltipla é uma doença neurológica crónica e imprevisível, que atinge maioritariamente adultos jovens, em especial mulheres. Em Portugal, 56% dos inquiridos foram diagnosticados entre os 18 e os 35 anos, sendo a idade média de diagnóstico de 34,3 anos.
Os dados mostram que o tempo médio entre o início dos sintomas e o diagnóstico ronda os três anos, um intervalo que pode comprometer precocemente a autonomia e qualidade de vida dos doentes. E mesmo após o diagnóstico, os desafios continuam.
13 sintomas em simultâneo e pouca resposta do sistema de saúde
As pessoas com EM reportaram viver, em média, com 13 sintomas diferentes ao mesmo tempo. Os mais frequentes incluem:
- Fadiga
- Alterações na sensibilidade
- Dor
- Distúrbios do sono
- Défice cognitivo
Contudo, os sintomas que mais afetam a qualidade de vida são: fadiga, alterações motoras, problemas urinários, intolerância à temperatura e disfunção sexual — sintomas que muitas vezes não são abordados de forma eficaz nas consultas.
Apesar de 81% dos participantes beneficiarem de algum tipo de cuidado ou tratamento para os sintomas, 1 em cada 3 pessoas com EM está insatisfeita com os cuidados que recebe. Além disso, 12% disseram precisar de um cuidado, mas não têm assistência disponível.
Abandono profissional e incapacidade em crescimento
O estudo destaca ainda o impacto económico e social da doença:
- 22% dos inquiridos tiveram de abandonar o trabalho devido à EM;
- 11% apresentavam já incapacidade grave, enquanto 34% referiram incapacidade moderada;
- Em média, os participantes recorrem a 4 a 5 tratamentos diferentes para gerir os sintomas;
- O tempo médio entre o diagnóstico e o início do tratamento modificador da doença é de 1,7 anos.
Um apelo à mudança: cuidados centrados na pessoa com EM
O IMSS sublinha a necessidade urgente de adotar modelos de cuidados multidisciplinares e personalizados, com especial atenção aos sintomas invisíveis, muitas vezes negligenciados mas profundamente incapacitantes.
Entre as recomendações-chave destacam-se:
- Reconhecimento da EM como uma condição complexa que exige gestão coordenada de sintomas;
- Melhor articulação entre profissionais e serviços;
- Acesso equitativo a terapias e reabilitação;
- Mais investigação centrada nas necessidades reais das pessoas com EM.
“O estudo é uma chamada de atenção clara para decisores políticos, profissionais de saúde e para a sociedade civil. Está nas nossas mãos transformar os cuidados prestados às pessoas com EM”, conclui a SPEM.
O relatório nacional completo está disponível no site da Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla.