Farmacêuticos pelo mundo: Patrícia Silva
Patrícia Silva, farmacêutica, natural de Cascais, 50 anos, começou por trabalhar em farmácia comunitária em Portugal até aos 39 anos, mas, em 2015, mudou-se para a Suécia, com vista ao desenvolvimento da sua carreira profissional, após ter-se especializado com um Mestrado em análises clínicas e feito ainda uma pós-graduação em Engenharia Biomédica.

6 de Janeiro, 2026
Como foi o seu percurso até chegar a Estocolmo ?
Assim que concluí o curso de ciências farmacêuticas, na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa (FFUL), em 2001, comecei logo a trabalhar em farmácia comunitária após o estágio. Trabalhei até 2013, sempre na mesma farmácia, mas durante este período tirei o mestrado de especialização em análises clínicas também na FFUL e fiz uma pós-graduação em Engenharia Biomédica na faculdade de engenharia Católica da Universidade de Lisboa. O mestrado e a pós-graduação fiz não só para minha realização pessoal, mas também com o objetivo de desenvolver a minha carreira como farmacêutica noutra área, que não a de farmácia comunitária.
Assim sendo, em 2013, fiz o exame à ordem dos farmacêuticos do Canadá, para poder exercer a profissão no Canadá no qual fui bem sucedida. No entanto, por questões de visto de trabalho e de não precisarem de farmacêuticos para trabalhar no Canadá nesse ano, adiaram mais um ano. Nessa altura já me encontrava no Canadá a fazer um ”Observership” numa clínica de medicina geral e familiar, mas não quis esperar mais um ano e voltei a Portugal em 2014, onde encontrei emprego mais uma vez em farmácia comunitária e onde trabalhei seis meses. Durante esses seis meses comecei a procurar oportunidades para trabalhar na Europa e foi assim que surgiu a oportunidade de trabalhar na Suécia. Após três entrevistas, foi-me feita a proposta de trabalho para trabalhar na segunda grande rede de farmácias na Suécia, sendo que no contrato estava incluído o curso de sueco. Em 2015, comecei a trabalhar nessa rede de farmácias comunitárias na Escânia durante 8 anos, onde desenvolvi várias competências e aprendi o sistema de saúde Sueco.
Em 2023, decidi mudar-me para Gotemburgo, onde trabalhei em farmácia hospitalar, nomeadamente na preparação de citostáticos e medicamentos estéreis. Entretanto, em 2024, decidi mudar-me mais uma vez, agora sim para Estocolmo, onde me encontro presentemente a viver e a trabalhar, numa empresa de dose unitária que distribui a medicação individualizada de cada paciente, que tenha acordo com a empresa, para toda a Suécia. Como farmacêuticos fazemos essencialmente o controlo farmacêutico do receituário de cada paciente, nomeadamente as doses, as interações e o aconselhamento farmacêutico no caso de alguma prescrição irracional.
Quais foram as principais razões que potenciaram a sua saída de Portugal?
Essencialmente, a falta de oportunidades de desenvolvimento da carreira, a retirada de direitos como profissionais, o salário e a descriminação de idade. Muitas empresas só aceitavam candidatos em que a idade fosse entre os 30 e 35 anos.
Como surgiu a oportunidade de ir para o estrangeiro? Era já um sonho antigo ou potenciou-se após concluir o curso de ciências Farmacêuticas?
Como referi, a oportunidade surgiu quando decidi regressar do Canadá para Portugal. Não era de todo um sonho antigo, foi-se potencializando após concluir o curso e aumentando cada vez mais, ao longo dos anos, à medida que fui trabalhando em Portugal.
Qual foi a primeira escolha no mercado de trabalho no estrangeiro? Que outras propostas teve?
A primeira escolha foi a farmácia comunitária, pois era onde eu tinha experiência profissional e onde me sentia mais confortável pela experiência. Não tive propostas nas outras áreas, pois não apresentava experiência profissional, que era um dos requisitos mais precisos aqui na Suécia.
Quais os principais desafios quando mudou de Portugal para esses países? Quais as vantagens e as dificuldades?
Os principais desafios foram a língua, principalmente na Suécia, onde tive de falar sueco desde início no local de trabalho… à exceção de português, só sabia falar inglês. Relativamente à cultura, que embora não seja assim tão diferente da nossa, há sempre diferenças… acrescento que foi particularmente difícil aprender a viver sozinha sem família nem amigos, num país em que nunca tinha estado antes, bem como aprender o funcionamento de todo o sistema organizacional do país, que é bastante diferente.
Quais as principais diferenças da profissão farmacêutica em Portugal, e nos países em que esteve?
As leis e a organização.
O que a levou a fazer este percurso académico e laboral até agora?
A minha vontade de realização e desenvolvimento profissional, pessoal e também económica. Conforme me foi logo elucidado na primeira entrevista, não temos salários suficientes para comprar luxos supérfluos, mas pelo menos temos uma vida digna e com uma certa qualidade.
Como é o seu trabalho diário?
Também como já referido anteriormente no meu trabalho diário, faço essencialmente o controlo farmacêutico da prescrição dos pacientes. Controlamos as doses, a posologia, as interações, asseguramos a prescrição racional dos medicamentos assim como a sua qualidade.
Quais os projetos diários em que está envolvida? E quais os seus planos futuros?
Os meus projetos diários são a avaliação e a retificação da medicação, assim como o uso racional do medicamento. Poderei dizer que será a otimização da medicação para um doente em particular e do seu uso em geral. Tenho assim como planos futuros voltar a trabalhar em farmácia hospitalar.
Quer apresentar sugestões para melhorar o sector farmacêutico em Portugal?
Na minha opinião, o sector está tão monopolizado que é difícil de ter sugestões para o melhorar.
O que gosta de fazer nas horas livres?
Gosto essencialmente de ouvir música, ler um bom livro, ver um bom filme, nadar, viajar e ir a eventos culturais.
Ponderou ou pondera regressar a Portugal? Em que circunstâncias?
Sim, principalmente devido à família e dos amigos, sendo que não penso voltar a farmácia comunitária.
Quer deixar algum conselho / recomendação para os farmacêuticos que estão agora a concluir o curso de ciências farmacêuticas em Portugal?
Um conselho é serem objetivos em relação ao que pretendem obter da sua carreira profissional, bem como seguir algo que as/os faz sentirem-se realizadas/os. É importante sentir que fazemos a diferença no dia a dia com o nosso trabalho, que somos valorizados e que podemos evoluir… não se acomodem!




