Molécula experimental pode atrasar doença de Machado-Joseph

Molécula experimental pode atrasar doença de Machado-Joseph

Equipa de investigadores liderada pelo Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S) identifica molécula experimental com potencial para reduzir a gravidade e atrasar o aparecimento da doença de Machado-Joseph, uma patologia neurológica rara, hereditária e degenerativa, para a qual ainda não existe cura.

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O estudo, desenvolvido em colaboração com o Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS) da Escola de Medicina da Universidade do Minho e com o Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra/Centro de Inovação em Biomedicina e Biotecnologia (CNC-UC/CIBB), foi publicado na revista científica Advanced Science.

A doença de Machado-Joseph, também designada por ataxia espinocerebelosa tipo 3, é causada por uma alteração no gene ATXN3, que conduz à produção de uma forma anómala da proteína ataxina-3. Esta proteína tende a formar aglomerados tóxicos que se acumulam nas células do sistema nervoso, provocando sintomas como perda de coordenação motora, espasmos, desequilíbrio e dificuldades na fala e na deglutição.

As investigadoras Alexandra Silva (i3S), Sara Duarte-Silva (ICVS-UM), Ana Luísa Carvalho (CNC-UC/CIBB), Patrícia Maciel (ICVS-UM) e Sandra Macedo-Ribeiro (i3S) integram a equipa responsável pela descoberta.

No trabalho agora divulgado, os investigadores exploraram o efeito de um composto experimental, o CLR01, descrito como um inibidor de largo espectro da acumulação anormal de proteínas, um mecanismo comum a várias doenças neurodegenerativas, e, segundo Sandra Macedo Ribeiro, investigadora do i3S e líder do estudo, os resultados “foram bastante encorajadores”, demonstrando que o CLR01 não só reduz a formação de aglomerados da ataxina-3, como é capaz de os desintegrar.

Um dos principais avanços do estudo foi a identificação de um novo local de ligação do CLR01 à proteína ataxina-3, situado longe da região diretamente envolvida na formação dos aglomerados. Este mecanismo inovador permite alterar a estrutura da proteína de forma indireta, reduzindo a sua toxicidade sem comprometer a sua função normal nas células.

Os efeitos benéficos do composto foram observados em modelos celulares e animais da doença de Machado-Joseph. Em modelos de Caenorhabditis elegans, verificou-se uma melhoria da locomoção, enquanto em modelos de ratinho a administração do CLR01 em fases pré-sintomáticas atrasou significativamente o início e a gravidade dos sintomas.

Apesar de os resultados ainda estarem longe de uma aplicação clínica em humanos, os investigadores consideram que esta descoberta representa um avanço relevante na procura de terapias eficazes para a doença de Machado-Joseph, abrindo caminho a novas estratégias terapêuticas direcionadas para este novo alvo molecular.