Nutrição clínica na farmácia comunitária: uma oportunidade que não podemos desperdiçar

Nutrição clínica na farmácia comunitária: uma oportunidade que não podemos desperdiçar

Artigo escrito por Catarina Dias, Farmacêutica especialista em Farmácia Comunitária, CEO do Grupo 24 e fundadora da Pharma & Go


Sou farmacêutica especialista em farmácia comunitária e ao longo de mais de duas décadas de trabalho, vi a farmácia mudar, adaptar‑se, ganhar novas competências clínicas e perder algumas oportunidades por falta de visão estratégica. Se há área onde essa evolução é urgente — e inevitável — é a nutrição clínica.

A nutrição não é um complemento, não é um “extra”, é um pilar fundamental da saúde, tão ou mais determinante que a terapêutica farmacológica. Um doente malnutrido não responde tão eficazmente à terapêutica, recupera mais lentamente, tem mais complicações, mais internamentos e maior mortalidade. Ainda assim, durante anos, a nutrição foi tratada como um tema secundário no sistema nacional de saúde.

Em Portugal, a desnutrição relacionada com a doença continua a ser altamente prevalente, sobretudo em idosos, doentes oncológicos, neurológicos, doentes crónicos e pessoas em convalescença. Muitos destes doentes vivem na comunidade, passam diariamente pelas farmácias e, apesar disso, durante muito tempo ficaram fora de uma abordagem estruturada e acessível de suporte nutricional. Estima-se que em Portugal existam cerca de 115 000 doentes em risco nutricional ou malnutridos necessitando de suporte clínico nutricional.

A recente comparticipação dos produtos de nutrição entérica e modulares representa uma mudança estrutural no acesso à terapêutica nutricional em ambulatório. Pela primeira vez, a nutrição clínica começa a ser tratada, do ponto de vista do financiamento público, com a dignidade que merece: como uma verdadeira intervenção terapêutica.

Esta decisão tem impacto direto nos doentes — reduz barreiras económicas, melhora a adesão e permite continuidade de cuidados fora do hospital — mas tem também um impacto profundo nas farmácias comunitárias.

Portugal era até ontem, um dos 2 países da Europa onde estes produtos não eram comparticipados e continua a ser um dos raros países da União Europeia que não comparticipa a nutrição clínica de forma transversal. A recente alteração legislativa (Portaria 82/2025/1, de 4 de março) prevê a comparticipação apenas para doentes com necessidades nutricionais especiais e quando a prescrição é feita por especialidades médicas específicas, excluindo muitos doentes com carências nutricionais, mas é um passo muito importante!

A farmácia comunitária é, por definição, o ponto de contacto mais frequente e mais acessível do sistema de saúde. Somos profissionais altamente qualificados, com proximidade, confiança e conhecimento do doente e do seu contexto familiar.

A entrada da nutrição entérica comparticipada nas farmácias não deve ser vista apenas como mais uma gama de produtos, mas sim como uma oportunidade clínica:

  • Identificar doentes em risco nutricional
  • Apoiar a correta selecção e utilização das fórmulas nutricionais
  • Monitorizar tolerância, adesão e continuidade do tratamento
  • Trabalhar em articulação com médicos e nutricionistas para potenciar resultados do tratamento nutricional

Este é um campo onde a farmácia pode — e deve — afirmar valor clínico, não apenas focar-se no volume de vendas.

Muito se discute se as farmácias vão “ganhar” ou “perder” com a comparticipação da nutrição entérica. A experiência europeia mostra que a margem unitária destes produtos tende a ser mais baixa em produtos comparticipados, mas o volume aumenta de forma consistente devido à redução de barreiras financeiras para os utentes e ao aumento da prescrição pelas especialidades médicas.

Reduzir esta discussão a uma questão de margem é um erro estratégico. O verdadeiro ganho está:

  • Na fidelização de doentes crónicos
  • Na integração da farmácia em percursos de cuidados continuados
  • No reforço do papel clínico e da relevância social da profissão farmacêutica

Farmácias que encararem a nutrição entérica e modular apenas como mais um produto, provavelmente verão pouco retorno. As margens por unidade estimam-se nos 10 a 15%. Farmácias que a integrem como serviço clínico vão colher benefícios sustentáveis.

A comparticipação da nutrição entérica testa a maturidade da farmácia comunitária portuguesa. Obriga-nos a sair da lógica puramente comercial e a assumir, de forma consistente, o nosso papel enquanto profissionais de saúde.

Depois de mais de 20 anos em farmácia comunitária, estou convencida de uma coisa: o futuro da farmácia não passa por vender mais produtos indiferenciados. Passa por cuidar melhor, acompanhar mais e intervir mais cedo. A nutrição clínica é uma dessas oportunidades e cabe-nos decidir se vamos estar à altura dela!