Raquel André: A farmacêutica que “descobriu” as gravuras rupestres de Foz Côa
Tornou-se proprietária e Diretora Técnica da Farmácia Moderna em 1994, no ano do anúncio da descoberta de painéis de arte rupestre nas margens do rio Côa. Nesta primeira parte da entrevista a Raquel André falamos sobre o impacto das gravuras na região e sobre a história centenária da farmácia Moderna.

A Farmácia Moderna é uma das mais antigas de Vila Nova de Foz Côa. Qual é a história da sua fundação?
Do que me foi possível descobrir a Farmácia Moderna foi fundada pelo Dr. José Augusto Salvador que se formou na escola Médica Cirúrgica do Porto em 1894. Desde então passou por alguns proprietários até que adquiri o seu alvará em 1994.
Qual foi o seu percurso como farmacêutica até se tornar Diretora Técnica da Farmácia Moderna?
Licenciei-me em ciências farmacêuticas pela universidade Coimbra em 1991 e o meu primeiro emprego foi numa Farmácia comunitária no Sabugal, onde continuei até adquirir a Farmácia Moderna em outubro de 1994.
Quais os motivos que a trouxeram a Vila Nova de Foz Côa?
Mero acaso. Na época residia na Guarda e uma colega com a qual tinha comentado que gostaria de adquirir o alvará de uma farmácia mostrou-me um anúncio no diário de Coimbra que mencionava que uma farmácia no distrito da Guarda estava à venda.
O processo de classificação das Gravuras Rupestres ocorreu há 30 anos, bem como aquele grande acampamento sob o mote “As gravuras não sabem nadar”. Pouco tempo depois, Vila Nova de Foz Côa foi elevada a cidade. Recorda-se dessa época?
Não tenho como não recordar. Na brincadeira até costumo dizer que fui eu que descobri as gravuras, pois o anúncio da descoberta ao público coincidiu com a minha vinda para Foz Côa.
Os primeiros tempos após o anúncio da descoberta das gravuras foram de grande tumulto entre a população. Por um lado os que viam o potencial e a importância local e mundial da descoberta, e os que, até então, contavam com a construção da barragem para fazer crescer os seus negócios e trazer mais movimento à então Vila de Vila Nova de Foz Côa.
Quais foram as grandes mudanças para quem vive e trabalha em Foz Côa?
Os primeiros tempos após o anúncio da descoberta das gravuras foram de grande tumulto entre a população. Por um lado os que viam o potencial e a importância local e mundial da descoberta, e os que, até então, contavam com a construção da barragem para fazer crescer os seus negócios e trazer mais movimento à então Vila de Vila Nova de Foz Côa. Presentemente, em retrospetiva, apesar de as mudanças terem sido mais graduais do que inicialmente esperado esta descoberta apresentou a cidade a Portugal e ao Mundo levando a um aumento no turismo. A construção do museu do côa impulsionou o turismo nacional e internacional, o que os locais souberam aproveitar criando novos negócios como, por exemplo, lojas de produtos regionais, quintas turísticas ou Alojamentos Locais.
O Concelho de Foz Côa tem várias freguesias com poucos transportes para a cidade. A Farmácia Moderna faz entregas ao domicílio?
Sim, as entregas ao domicílio fazem parte dos serviços que disponibilizamos aos nossos utentes.
Quais são os principais serviços disponibilizados aos utentes?
Além de medição de parâmetros bioquímicos e fisiológicos para ajudar na prevenção e monitorização da saúde, disponibilizamos ainda a administração de vacinas e os serviços gratuitos de entrega ao domicílio e preparação individual de medicação (PIM).
Quem trabalha em farmácia, principalmente comunitária sabe que o seu trabalho é inerente e incontestavelmente parte dessa resposta. As principais barreiras, na minha opinião, estão em conseguir evidenciar e quantificar este trabalho invisível feito por nós diariamente e em criar sinergia entre as farmácias e o SNS de maneira que possa ser aproveitado ao máximo e ajude ainda mais a aliviar o SNS.
Os Farmacêuticos são profissionais habilitados e habituados a lidar com queixas agudas e crónicas dos doentes e são uma porta aberta a qualquer hora do dia ou da noite. Na sua opinião, quais são as principais barreiras para que os Farmacêuticos, em especial os que trabalham em Farmácia Comunitária, façam parte da resposta primária aos doentes de modo a aliviar a pressão sobre as Urgências e os Centros de Saúde?
Na minha opinião, não há uma barreira que impeça os farmacêuticos de fazer parte dessa resposta. Quem trabalha em farmácia, principalmente comunitária sabe que o seu trabalho é inerente e incontestavelmente parte dessa resposta. As principais barreiras, na minha opinião, estão em conseguir evidenciar e quantificar este trabalho invisível feito por nós diariamente e em criar sinergia entre as farmácias e o SNS de maneira que possa ser aproveitado ao máximo e ajude ainda mais a aliviar o SNS.
Nestes últimos anos, a rotatividade nas equipas das farmácias tem aumentado. Quais são as vossas estratégias para ultrapassar as dificuldades em fixar recursos humanos?
Para ser sincera, a área dos recursos humanos é a que mais me preocupa. As ofertas são as possíveis não pondo em causa a sustentabilidade da Farmácia e consequentemente o sustento de todos os que cá trabalham.
Que condições oferece a Farmácia Moderna para atrair farmacêuticos? Aceitam estagiários?
No concelho temos cinco farmacêuticas e acho que estamos todas por amor à camisola. Eu como proprietária e membro mais velho da equipa assusta-me o futuro. Sempre recebemos estagiários, os mais recentes vieram do Instituto Politécnico da Guarda e da Faculdade de Farmácia de Coimbra.
Qual é a chave para manter a equipa motivada e coesa?
Não tenho soluções milagrosas, diga-me onde estão que eu vou lá… Sinceramente não creio que haja uma solução universal, tento sempre que haja espírito de equipa e um ambiente de tolerância, honestidade e cooperação entre todos, mas temos de perceber que pessoas com mais de 30 anos de diferença vão ter perspectivas e maneiras de trabalhar e pensar diferentes, o que irá sempre dar origem a algum atrito.




