Uma carreira longa não começa aos 33 anos
Artigo escrito por Cristina Oliveira, Técnica Superior de Diagnóstico e Terapêutica na área de Análises Clínicas e Saúde Pública

Trabalho em Imuno-hemoterapia desde 1994. Ao longo de 32 anos, acompanhei uma transformação profunda da medicina transfusional: processos que eram largamente manuais passaram a integrar equipamentos automatizados, sistemas informáticos e formas de comunicação clínica muito mais rápidas. Mudaram as metodologias, os tratamentos e a complexidade dos doentes. O que não mudou foi a responsabilidade de quem trabalha entre a dádiva e a transfusão.
Para muitos cidadãos, a Imuno-hemoterapia resume-se à determinação do grupo sanguíneo. Na realidade, envolve pesquisa e identificação de anticorpos, estudos de compatibilidade, análise da história transfusional e resolução de situações complexas, nomeadamente em doentes politransfundidos. Algumas terapêuticas interferem com os resultados e obrigam a recorrer a metodologias específicas. Não basta obter um resultado: é necessário interpretá-lo, reconhecer incoerências e perceber quando exige investigação adicional.
Esta responsabilidade torna-se particularmente evidente perante uma hemorragia grave, um politraumatizado, uma complicação obstétrica, uma cirurgia urgente ou um recém-nascido prematuro que necessita de transfusão. Nessas situações, o conhecimento, a experiência e a rapidez podem ser determinantes. Em certos períodos pode estar apenas um TSDT no serviço, com apoio médico em regime de prevenção. É preciso atuar dentro das nossas competências e articular rapidamente sempre que necessário.
Faço turnos desde que iniciei funções e mantive trabalho noturno até 2018. Noites, fins de semana, feriados, prolongamentos de turno e substituições de colegas fizeram parte do meu percurso. Esta disponibilidade permite assegurar um serviço permanente, mas também representa tempo que deixou de ser vivido com a família. Somos profissionais, mas somos igualmente pessoas, e décadas de horários por turnos têm um impacto real na vida pessoal.
A experiência não dispensa a aprendizagem. Pelo contrário, quanto mais a ciência e a tecnologia evoluem, maior é a obrigação de atualizar conhecimentos. Para além da licenciatura em Análises Clínicas e Saúde Pública, concluí três pós-graduações e uma segunda licenciatura em Biologia Aplicada. Tenho também participado na orientação de estudantes e na formação laboratorial de médicos internos. Formar não é apenas ensinar uma técnica; é ensinar a questionar um resultado, a reconhecer o que não é coerente e a compreender a responsabilidade associada a cada decisão.
Apesar deste percurso, a revisão anterior da carreira obrigou-me a recorrer ao tribunal para procurar ver reconhecidos direitos relacionados com os anos de serviço, as avaliações e a experiência acumulada na carreira anterior. Foi um processo desgastante. Os pontos podem parecer apenas números a quem observa de fora, mas representam anos de vida profissional. Por isso, perante uma nova revisão, não basta perguntar o que vamos ganhar: é inevitável perguntar também o que poderemos voltar a perder.
A valorização prevista para as chamadas carreiras longas suscita-me uma dúvida essencial. A redução do limiar de 35 para 33 anos constitui uma melhoria, mas não resolve o problema. Tenho 32 anos de serviço e atravessei praticamente os mesmos congelamentos, mudanças de carreira e dificuldades de progressão de um colega que tenha hoje 33. Uma diferença de meses ou de um ano não torna um percurso longo e o outro irrelevante.
Defendo que 25 anos de serviço devem ser considerados uma carreira longa. Um profissional com esse percurso acumula já décadas de experiência e foi igualmente afetado pelas alterações legislativas e pelos bloqueios à progressão. Mas há uma segunda questão: qualquer que seja o limiar escolhido, o reconhecimento deve acompanhar o trabalhador. Se 33 anos justificam hoje uma valorização, quem atingir 33 anos daqui a três ou cinco anos deverá beneficiar do mesmo reconhecimento. Uma carreira longa não existe apenas na data em que um diploma entra em vigor; constrói-se ao longo do tempo.
Valorizar não significa apenas remunerar. Significa reconhecer formação, experiência, diferenciação, responsabilidade, disponibilidade e condições de trabalho. Contudo, a remuneração também traduz o valor que o sistema atribui às exigências que coloca aos profissionais. Esta questão ultrapassa a Imuno-hemoterapia: diz respeito às 18 profissões que integram a carreira dos Técnicos Superiores das Áreas de Diagnóstico e Terapêutica.
Depois de 32 anos, continuo a fazer turnos, a estudar, a formar quem vem depois e a sentir a mesma responsabilidade perante cada resultado e cada componente sanguíneo. Não quero voltar a pedir a um tribunal que decida se os meus anos de trabalho contam. Uma verdadeira revisão deve melhorar o futuro sem apagar o passado. Não pedimos privilégios; pedimos coerência, justiça e reconhecimento pelo percurso construído.




