“A obesidade é fisiologia, não uma falha moral”
Em pleno Dia Mundial da Obesidade, Gil Faria, cirurgião, investigador e especialista em Obesidade e Doenças Metabólicas, defende uma mudança estrutural na forma como encaramos a doença. E, entre reflexão no que toca a ciência, inovação e combate ao estigma, deixa um alerta: “ninguém escolhe ter obesidade, mas todos devem ter acesso a tratamento”.

A obesidade é frequentemente referida como a “epidemia do século”. Do ponto de vista clínico e de saúde pública, que dimensão tem hoje em Portugal e no mundo?
A expressão “epidemia do século” não é retórica, é mesmo uma descrição real. A Organização Mundial da Saúde estima que mais de mil milhões de pessoas vivam, atualmente, com obesidade em todo o mundo. Em Portugal, cerca de 63% da população adulta tem excesso de peso ou obesidade e aproximadamente uma em cada quatro pessoas (24%) já apresenta obesidade clínica. Entre crianças e adolescentes, estes números rondam os 16%, o que significa que o problema começa cada vez mais cedo. Do ponto de vista clínico, isto traduz-se numa enorme carga de doença associada: diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia, apneia do sono, doença hepática metabólica, infertilidade e vários tipos de cancro.
A obesidade não é uma condição isolada, mas uma doença que amplifica o risco de muitas outras, afetando praticamente todos os sistemas do organismo. Mas, acima de tudo, impacta numa dimensão que raramente aparece nas estatísticas: a qualidade de vida. A dor nas articulações, o cansaço constante, a limitação funcional, a dificuldade em dormir bem. A obesidade rouba muitos anos de vida saudável (comparável ao tabaco, por exemplo) e isso tem impacto nas famílias, no sistema de saúde e na economia. Estamos, portanto, perante um problema estrutural de saúde pública, que exige prevenção, tratamento eficaz e políticas consistentes. Ignorá-lo ou reduzi-lo a uma questão estética é um erro que já pagamos caro.
Apesar de já reconhecida pela OMS como doença, a obesidade continua fortemente marcada pelo estigma. Que impacto tem essa visão social na procura de ajuda e no acesso ao tratamento?
O estigma é uma das barreiras mais poderosas e menos visíveis no tratamento da obesidade. Quando a sociedade perpetua a ideia de que a obesidade é apenas resultado de opções individuais e de falta de disciplina, a maioria das pessoas internalizam essa falha e sentem culpa, vergonha e fracasso. Esse peso emocional tem consequências clínicas reais. Muitas pessoas adiam consultas, evitam falar sobre o tema com o seu médico ou sentem-se desmotivadas a procurar soluções especializadas. Continuam a tentar sozinhas controlar aquilo que é uma doença e. entram, quase sempre, numa espiral de frustração e desânimo. O estigma eterniza a evolução de uma doença tratável.
Existe também um impacto estrutural. Quando a obesidade é vista como problema comportamental, as políticas de saúde tendem a privilegiar apenas campanhas de sensibilização, deixando para segundo plano políticas públicas e o acesso a tratamentos eficazes, como fármacos ou cirurgia metabólica. Combater o estigma não é apenas uma questão de justiça social, é uma condição necessária para melhorar resultados clínicos e garantir equidade no acesso aos cuidados.
Muitos ainda encaram a obesidade como uma questão exclusivamente comportamental. O que diz a ciência sobre os mecanismos metabólicos e hormonais envolvidos?
A ciência atual já desmontou definitivamente a ideia de que a obesidade é apenas resultado de “comer demais”. O peso corporal é regulado por complexos sistemas neuroendócrinos que envolvem o cérebro, o intestino, o pâncreas, o fígado e o tecido adiposo. Hormonas como a leptina, a grelina e a GLP-1 regulam a fome e a saciedade. Quando uma pessoa perde peso, o organismo responde aumentando a fome e reduzindo o metabolismo basal: um mecanismo de defesa evolutivo. Alguns estudos apontam que o aumento da fome seja cerca de cinco vezes superior à restrição calórica efetuada (por cada 20Kcal restringidas, a fome aumenta em 100Kcal). O corpo interpreta a perda de peso como uma ameaça. Estudos genéticos mostram que uma parte significativa da predisposição para obesidade é hereditária. Não se trata de um determinismo absoluto, mas de suscetibilidade biológica. Isto não significa que o comportamento não tenha importância. Significa que ele atua dentro de um sistema biológico que pode estar profundamente alterado e que as pessoas com predisposição para obesidade terão de ter muito mais cuidado com a sua alimentação e estilo de vida. A obesidade é fisiologia, não uma falha moral.
No que toca ao tratamento da obesidade, em que situações deve ser considerada a cirurgia metabólica?
Falamos, atualmente, do tratamento mais eficaz para a obesidade grave. Os estudos de longo prazo (a 20 anos) demonstram uma redução significativa da mortalidade, melhoria da qualidade de vida, perda de peso sustentada e elevada taxa de remissão das doenças associadas à obesidade. Atualmente, os critérios técnicos para a cirurgia metabólica deverão considerar todas as pessoas com obesidade, quando as abordagens clínicas convencionais não são suficientes e quando a obesidade causa um impacto significativo na qualidade de vida e nas doenças associadas. Nos casos de obesidade mais grave, a cirurgia metabólica poderá ser considerada, independentemente da presença de doenças associadas, apenas pelo risco intrínseco da obesidade. Um erro comum é vê-la como “último recurso”, apenas para casos extremos. Na realidade, quanto mais cedo for considerada no contexto adequado, melhores serão os resultados metabólicos. A cirurgia metabólica compreende um conjunto de intervenções com critérios rigorosos, realizadas por equipas multidisciplinares, com acompanhamento estruturado. Não é uma solução mágica; é medicina baseada em evidência.
A par da cirurgia, têm surgido novas terapêuticas farmacológicas para a obesidade. Como vê esta evolução e de que forma estas abordagens se complementam?
Os novos fármacos baseados em agonistas do GLP-1 representam uma mudança profunda no tratamento da obesidade. Atuam diretamente nos mecanismos hormonais que regulam o apetite e o metabolismo energético. Pela primeira vez vêm confirmar o que a ciência básica (e a cirurgia metabólica) já dizia: que uma alteração do ambiente hormonal e um controlo do metabolismo conseguem resultados clínicos consistentes e muito mais importantes do que os mais interventivos planos de otimização de estilo de vida. No fundo, que o problema é das hormonas e não do comportamento.
Os fármacos permitem perdas de peso entre 15% a 20%, em muitos casos, com melhoria significativa de parâmetros metabólicos. São especialmente úteis em fases mais precoces da doença ou como complemento a estratégias já implementadas, incluindo após cirurgias. Não substituem a cirurgia nos casos mais graves, mas ampliam o leque terapêutico. Hoje, podemos oferecer tratamento mais personalizado, adaptado ao perfil clínico de cada pessoa. A integração entre estilo de vida, fármacos e cirurgia é o modelo mais moderno e eficaz. A sua utilização deve ser sempre no seio de equipas multidisciplinares, com acompanhamento adequado, para permitir um controlo a longo prazo da obesidade.
Foi pioneiro na realização de cirurgia bariátrica em ambulatório na Península Ibérica. Que impacto teve essa inovação na experiência e segurança dos doentes?
Este projeto de realização de cirurgia metabólica em ambulatório demonstrou que, com uma seleção adequada e equipas experientes, é possível reduzir ainda mais o impacto da cirurgia na vida dos doentes, garantir segurança e recuperação precoce, e que os doentes possam ser operados e regressar a casa no mesmo dia, com segurança, conforto e eficácia. Isso traduz-se em melhor experiência para o doente (pode fazer toda a recuperação em casa) e em otimização dos recursos de saúde. Além disso, diminui o risco de complicações (nomeadamente infeções hospitalares), com menor gasto de recursos e uma recuperação mais confortável para o doente.
A inovação não está apenas na técnica, que tem de ser meticulosa e com diminuta taxa de complicações, mas sim em toda a organização de cuidados e apoio multidisciplinar coordenado. Vai desde a preparação do doente no pré-operatório, aos cuidados cirúrgicos e anestésicos e a capacidade de reavaliação precoce e de “mudar de estratégia” ao primeiro sinal de risco.
Foi um projeto que começamos há cinco anos e os resultados têm sido ótimos. Com uma diminuta taxa de complicações, raras necessidades de reinternamentos e uma elevada taxa de satisfação e sensação de segurança para os doentes. Os resultados mostraram que a segurança clínica e a humanização podem caminhar juntas e que a medicina centrada no doente pode ser mais do que um chavão técnico.
Em 2025, apresentou a técnica Koala Sleeve, adaptação ao sleeve tradicional para reduzir o risco de refluxo. O que diferencia esta abordagem e que resultados preliminares têm observado?
O sleeve gástrico tradicional é, atualmente, a técnica cirúrgica mais frequente no mundo, altamente eficaz e com excelente perfil de segurança. No entanto, em alguns casos, pode associar-se a refluxo gastroesofágico. Dessa forma, a presença de refluxo pré-operatório ou elevado risco de refluxo são tradicionalmente contraindicações relativas para realização de um sleeve, devendo propor-se outras técnicas cirúrgicas. A técnica de Koala Sleeve foi desenvolvida para tentar preservar e reforçar os mecanismos anti refluxo naturalmente existentes. Nesta técnica, após a realização do sleeve gástrico efetua-se uma espécie de válvula entre o esófago e o estômago, na tentativa de reduzir o risco de refluxo pós-operatório. Assim, permite-nos realizar a técnica de sleeve gástrico sem compromisso da sua eficácia e do seu perfil de segurança, mesmo em alguns doentes em risco de refluxo. Os dados preliminares mostram resultados encorajadores, com boa tolerância, sem complicações significativas e controlo sintomático em mais de 80% dos doentes. A medicina evolui através destes ciclos de aprendizagem contínua: observar, reconhecer fragilidades, aperfeiçoar intervenções e avaliar, de forma crítica, o impacto real nos doentes.
No âmbito do Dia Mundial da Obesidade, assinalado hoje, que mensagem considera essencial transmitir sobre prevenção, tratamento e acesso equitativo aos cuidados?
A mensagem principal é simples e clara: ninguém escolhe ter obesidade! A obesidade não é uma falha de carácter, nem o resultado inevitável de más escolhas. É uma doença complexa, biologicamente determinada, onde se cruzam fatores genéticos, hormonais, ambientais, sociais e comportamentais. A predisposição para ganhar peso está profundamente inscrita no nosso património genético: um legado evolutivo que, em tempos de escassez foi uma vantagem e hoje se tornou numa vulnerabilidade. Mas quando conseguimos intervir nos mecanismos hormonais que regulam a fome, a saciedade e o metabolismo deixamos de pedir às pessoas que lutem apenas com força de vontade. Damos-lhes armas eficazes, e ninguém vence uma batalha sem os instrumentos adequados.
Por isso, precisamos de políticas públicas que promovam ambientes mais saudáveis (cidades que incentivem a atividade física, acesso facilitado a alimentos frescos e redução das desigualdades sociais). Mas precisamos, igualmente, de garantir acesso efetivo a tratamentos eficazes para quem já vive com obesidade. A prevenção é essencial; o tratamento é inadiável. A obesidade é parcialmente prevenível, claramente tratável e merece o mesmo respeito clínico e social que qualquer outra doença crónica. Tratar estas pessoas exige ciência, empatia e humanização. Mas também coragem, porque enquanto não houver equidade no acesso aos tratamentos, não há verdadeira justiça em saúde.



