Hantavírus identificado em navio de cruzeiro mobiliza autoridades de saúde
Surto de infeção respiratória grave associado a hantavírus identificado num navio de cruzeiro com bandeira dos Países Baixos mobiliza autoridades internacionais de saúde pública, após a confirmação de vários casos e três mortes.

O navio, com 147 pessoas a bordo, iniciou viagem na Argentina a 1 de abril e percorreu diferentes zonas remotas do Atlântico Sul, tendo como destino final Cabo Verde. No entanto, a embarcação não chegou a atracar no arquipélago, permanecendo fundeada ao largo da costa com passageiros e tripulação a bordo.
Os dados mais recentes apontam para oito casos suspeitos, três deles confirmados laboratorialmente, incluindo três casos fatais. As análises permitiram identificar a estirpe Andes como responsável pelo surto, uma variante de hantavírus associada à América do Sul e a única com transmissão interpessoal documentada.
O primeiro caso desenvolveu sintomas a 6 de abril e morreu cinco dias depois. O segundo caso, identificado como contacto próximo do primeiro, viajou da ilha de Santa Helena para Joanesburgo já sintomático, acabando por falecer a 26 de abril. A confirmação da infeção levou ao rastreio dos restantes passageiros desse voo.
A Organização Mundial da Saúde está a coordenar a resposta com autoridades de saúde de Cabo Verde, Países Baixos, Espanha, África do Sul e Reino Unido, enquanto o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças acompanha a evolução epidemiológica e o potencial impacto para a Europa.
Os hantavírus pertencem ao género Orthohantavirus e são vírus zoonóticos transmitidos sobretudo por roedores infetados. A transmissão ocorre principalmente através da inalação de partículas contaminadas provenientes de urina, fezes ou saliva destes animais.
A transmissão entre humanos é considerada rara e, até ao momento, apenas foi confirmada para o vírus Andes. Quando ocorre, está geralmente associada a contacto próximo e prolongado, sobretudo nas fases iniciais da doença.
A infeção pode manifestar-se de diferentes formas clínicas, dependendo da estirpe envolvida. A forma associada ao atual surto é a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), considerada a mais grave e potencialmente fatal.
Os sintomas iniciais incluem febre, cefaleias, dores musculares e sintomas gastrointestinais, podendo evoluir rapidamente para dificuldade respiratória aguda, edema pulmonar e choque, podendo apresentar taxas de mortalidade entre 20% e 40%.
Como ainda não existe vacina nem tratamento antiviral específico para infeção por hantavírus, a abordagem terapêutica centra-se no suporte clínico e na monitorização rigorosa das complicações respiratórias, cardíacas e renais.
As medidas de prevenção passam sobretudo pela redução do contacto com roedores e pela adoção de práticas adequadas de higiene e limpeza em áreas potencialmente contaminadas.
Apesar da gravidade do surto, o ECDC considera que o risco para a população europeia permanece “muito baixo”, sublinhando que o vírus não é facilmente transmissível entre pessoas e que estão a ser aplicadas medidas adequadas de controlo a bordo da embarcação.
As autoridades internacionais continuam, contudo, a investigar a origem do surto e possíveis cadeias de transmissão.




