“As mulheres são a coluna vertebral do sistema de saúde”

“As mulheres são a coluna vertebral do sistema de saúde”

Iniciamos, neste Dia Internacional da Mulher, uma série de entrevistas a mulheres empreendedoras na área da saúde. A nossa primeira convidada é Daniela Santos, CEO da Salus e mentora na área da saúde, que defende que “o futuro do setor passa por desenvolver não só competências técnicas, mas também humanas”. Através de projetos como a PHARMABSC e a BmindLab, procura capacitar profissionais para liderar, inovar e prevenir o burnout, promovendo uma cultura de saúde mais integrada e centrada nas pessoas.

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O que a motivou a criar projetos como a PHARMABSC e a BmindLab e de que forma estas iniciativas contribuem para transformar o setor da saúde em Portugal?
A motivação nasceu de uma constatação simples: o sistema de saúde português tem profissionais tecnicamente excelentes, mas muitas vezes esgotados, desalinhados com os locais onde trabalham e sem ferramentas para comunicar, liderar ou inovar.
A PHARMABSC surgiu da minha vivência no setor farmacêutico — vi que havia uma lacuna enorme entre a formação focada nos resultados e a realidade do dia a dia. Não só resultados monetários, mas resultados na qualidade dos serviços, na realização dos profissionais e na evolução das lideranças. Os profissionais sabiam a ciência, mas ninguém lhes tinha ensinado a gerir equipas, a dar feedback, a construir projetos ou a comunicar com impacto.
A BmindLab foi o passo seguinte: percebi que não bastava formar competências técnicas. Tínhamos de trabalhar o ser humano por trás do profissional. Resiliência, comunicação, liderança, capacidade de ouvir — tudo isto pode ser treinado.
Estes projetos contribuem para transformar o setor porque trazem uma visão integrada: saúde não é só clínica. Saúde é também pessoas, processos e cultura.

Sendo uma mulher empreendedora na área da saúde, que desafios sentiu ao iniciar estes projetos e de que forma os ultrapassou?
O primeiro desafio foi o de enfrentar a realidade que me expuseram de forma fria e dura – Estava a entrar num mundo dominado pela presença de homens, e onde uma mulher e mãe, tinha de subir mais umas escadas para demonstrar que também lá chegava.
Essa foi de facto, o meu primeiro desafio, mas também a minha maior motivação. Tinha 33 anos, dois filhos pequenos e muitos sonhos. Não desisti e hoje sinto-me completa. Principalmente, quando posso ajudar outras mulheres a crescer e a nunca desistir. Continuamos a ter uma desigualdade de oportunidades e principalmente, ainda hoje temos de ter um homem ao nosso lado que nos valide o nosso valor. Isso não deveria acontecer. Parece que por sermos nós a apresentar um projeto tem menos credibilidade que um homem. Questiono… os motivos por que isto ainda acontece, em pleno século XXI.
O segundo desafio foi a solidão do empreendedorismo. Quando comecei, havia apenas uma certeza – o resultado só dependia de mim. Muitas horas sem dormir, muitas desilusões, mas também muitas vitórias.
Ultrapassei-os com resiliência e tempo. Não foi linear. Houve momentos de grande dúvida. Mas aprendi que empreender é também aceitar que não sabemos tudo — e que o caminho se faz caminhando.

Na sua experiência, existem ainda barreiras específicas que as mulheres enfrentam quando querem empreender ou liderar projetos nesta (ou noutra) área?Sim, embora a narrativa tenha mudado muito nos últimos anos. Ainda existe uma pressão silenciosa para que a mulher seja “tudo para todos” — a profissional competente, a líder disponível, a mãe presente, a esposa atenta. Quando uma mulher decide empreender, muitas vezes é vista como “corajosa” ou “ousada”, quando um homem na mesma posição seria visto como “ambicioso” ou “estratégico”.
Há também uma dificuldade de acesso a redes de influência que historicamente foram dominadas por homens. Isto está a mudar, mas ainda é real.
Acredito que as mulheres têm hoje uma vantagem competitiva: a capacidade de liderar com empatia, de construir equipas coesas e de integrar diferentes dimensões da vida. Isto não é fraqueza — é competência.

“Acredito que as mulheres têm hoje uma vantagem competitiva: a capacidade de liderar com empatia, de construir equipas coesas e de integrar diferentes dimensões da vida. Isto não é fraqueza — é competência.”

Os seus projetos têm uma forte componente de desenvolvimento pessoal e profissional. Porque considera essencial trabalhar estas dimensões entre profissionais de saúde?
Porque profissionais de saúde são seres humanos primeiro. Passam o dia a lidar com dor, ansiedade, decisões difíceis, pressão de tempo, expectativas de pacientes e famílias. Se não tiverem ferramentas para gerir as suas próprias emoções, comunicar de forma clara e construir relacionamentos saudáveis com colegas, entram em burnout. E o burnout não é um “problema pessoal” — é um risco sistémico. Um profissional esgotado comete mais erros, comunica pior, tem menos empatia com o doente.
Trabalhar desenvolvimento pessoal e profissional não é um “extra”. É infraestrutura. É o que permite que a excelência técnica se traduza em resultados reais para pacientes e equipas.

De que forma iniciativas como a PHARMABSC e a BmindLab ajudam a criar uma nova geração de profissionais de saúde mais empreendedores e inovadores?Ajudamos a tirar o profissional da zona de conforto. Muitos profissionais de saúde foram ensinados a seguir protocolos, a evitar erros, a ser “técnicos perfeitos”. Isto é importante, mas não ensina a inovar. Inovação exige experimentar, falhar, ajustar, tentar de novo.
Os nossos programas criam espaços seguros para isto. Usamos metodologias como gamificação com LEGO, design thinking, mentoria estruturada. Isto permite que profissionais de saúde experimentem pensar fora da caixa, propor soluções, liderar projetos.
O resultado é uma geração que não espera que a mudança venha de cima. Eles próprios tornam-se agentes de mudança.

A inovação em saúde exige cada vez mais colaboração entre diferentes sectores. Como vê o papel das mulheres na construção de soluções mais integradas e centradas nas pessoas?
As mulheres, historicamente, foram treinadas — pela vida, pela sociedade — a fazer a ponte. Entre casa e trabalho, entre filhos e pais, entre diferentes papéis.
Isto criou uma competência que hoje é fundamental: a capacidade de integrar. De ver o todo, de conectar pontos, de construir soluções que consideram o ser humano completo. Na saúde, isto é fundamental. Uma solução tecnológica que não considere o contexto de vida do paciente falha. Um protocolo que não considere a realidade da equipa falha.
As mulheres tendem a liderar de forma mais colaborativa, a ouvir mais, a construir consensos. Isto não é “soft” — é estratégico. É o que permite que soluções sejam adotadas e sustentáveis.

“Muitos profissionais de saúde foram ensinados a seguir protocolos, a evitar erros, a ser “técnicos perfeitos”. Isto é importante, mas não ensina a inovar. Inovação exige experimentar, falhar, ajustar, tentar de novo.”

Que conselhos deixaria a jovens profissionais de saúde, especialmente mulheres, que gostariam de desenvolver projetos próprios ou seguir um caminho empreendedor?
Acredito que, em primeiro lugar, devemos parar e refletir no que realmente queremos e não o que a sociedade nos incute. E principalmente, não levar a falha, o preconceito e a desilusão na nossa alma. Procurar o lugar onde nos valorizam é muito importante. E esse lugar existe. Afinal eu encontrei-o aos 33 anos.
Mas posso deixar aqui umas dicas como mulher e mentora:
>Não esperes pela altura certa. Não existe. O que existe é vontade suficiente para começar.
>Procura um projeto, não um emprego. Pergunta: onde posso construir algo? Onde posso aprender? Onde posso ter impacto?
>Rodeia-te de pessoas que te desafiam, mas não te destroem. Mentores, colegas, amigos que te digam a verdade com cuidado.
>Aceita que vais falhar. E que isso não te define. Cada falha é dado para ajustar o caminho.
>Não te compares com homens que parecem ter “tudo controlado”. Muitos deles também estão a lutar — só não falam disso. Constrói o teu caminho ao teu ritmo.
>Lembra-te: empreender não é só criar uma empresa. É criar soluções, liderar iniciativas, propor mudanças. Podes ser intraempreendedor numa organização, não te esqueças disso.

No âmbito do Dia Internacional da Mulher, que mensagem considera importante deixar sobre o papel das mulheres na transformação do presente e futuro da saúde?
As mulheres não são “adorno” no sistema de saúde. São coluna vertebral.
São a maioria dos profissionais de saúde em Portugal. São as que muitas vezes fazem a ponte entre o sistema e o paciente. São as que lideram equipas, que inovam em silêncio, que aguentam o peso de turnos impossíveis e ainda chegam a casa para cuidar de outros.
Mas não basta reconhecer isto. É preciso dar poder real. Lugares em conselhos, orçamentos para projetos, voz em decisões estratégicas.
O futuro da saúde precisa de mais empatia, mais integração, mais humanidade. E as mulheres — sem romantizar, sem colocar em pedestal — têm mostrado que sabem fazer isto. Não precisamos de permissão para liderar. Precisamos de espaço para o fazer.
Feliz dia Internacional da Mulher!