“A saúde auditiva deveria ser integrada nas políticas de educação”

“A saúde auditiva deveria ser integrada nas políticas de educação”

Sob o pretexto da realização da Semana do Som, iniciativa patrocinada pela UNESCO que traz os desafios da audição ao debate público, a Salus Magazine entrevistou Patrick D’Haese, Diretor de Assuntos Públicos da MED-EL, que defende que a perda auditiva deve assumir-se como uma prioridade de saúde pública.

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Por que razão a perda auditiva continua a não ser encarada como uma prioridade de saúde pública em muitos países, incluindo Portugal?
A perda auditiva continua subestimada porque é, muitas vezes, uma condição invisível e progressiva, que não gera a mesma perceção de urgência que outras patologias. Apesar de sabermos que, segundo a OMS, mais de 1,5 mil milhões de pessoas vivem com algum grau de perda auditiva, permanece fora da agenda política. Em Portugal, como noutros países, ainda existe a ideia errada de que a perda auditiva é inevitável ou associada exclusivamente ao envelhecimento, quando sabemos que pode e deve ser diagnosticada e intervencionada precocemente, inclusive na infância e quando as pessoas já estão no mercado de trabalho. Falta uma mudança de mentalidade que a reconheça não apenas como uma questão clínica, mas como uma prioridade de saúde pública e de integração social, com impacto direto na educação, na empregabilidade e na saúde mental.

Em Portugal, a perda auditiva permanece frequentemente subdiagnosticada. Que mudanças são necessárias para reforçar o rastreio precoce ao longo da vida, além do período neonatal?
Portugal tem feito um trabalho meritório no rastreio neonatal, mas é necessária uma abordagem contínua ao longo da vida. A implementação de programas nacionais de rastreio auditivo em momentos-chave – na entrada para o pré-escolar, no primeiro ciclo, na adolescência, especialmente tendo em conta a exposição ao ruído recreativo, e também em idade ativa, em contextos de saúde ocupacional – seria um passo decisivo. É igualmente essencial capacitar os cuidados de saúde primários para integrarem a avaliação auditiva básica nas consultas de rotina. Quanto mais cedo for identificada a perda auditiva, mais eficaz será a intervenção, seja com próteses auditivas, implantes cocleares ou terapia auditivo-verbal, reduzindo impactos no desenvolvimento da linguagem, no desempenho escolar e na integração social.

Apesar dos avanços nas próteses auditivas e nos implantes cocleares, a taxa de adesão continua baixa. Quais as razões?
Os fatores são múltiplos e estão interligados. O estigma social continua a pesar: muitos associam o uso de dispositivos auditivos a fragilidade ou envelhecimento, adiando a procura de ajuda. A isto somam-se barreiras económicas, processos burocráticos complexos e percursos clínicos pouco estruturados, que atrasam a referenciação. Paradoxalmente, vivemos uma era em que as tecnologias são altamente personalizadas e cada vez mais próximas da audição natural, mas a literacia em saúde auditiva permanece baixa. Para ultrapassar estas barreiras, precisamos de campanhas de sensibilização consistentes, de simplificação administrativa e de percursos clínicos integrados que assegurem diagnóstico rápido, decisão terapêutica informada e acompanhamento contínuo.

Focando-nos nas barreiras económicas e burocráticas, que modelos de financiamento ou reorganização do percurso clínico poderiam acelerar o acesso dos doentes às soluções disponíveis?
É fundamental evoluir para modelos de financiamento mais universais e previsíveis, com comparticipação social efetivamente acessível e menos dependente de processos morosos. A redução das listas de espera para implante coclear e a agilização da substituição de processadores ou componentes devem ser consideradas medidas prioritárias. A criação de vias rápidas de referenciação entre cuidados primários, consultas especializadas de otorrinolaringologia e centros de reabilitação auditiva é igualmente essencial para evitar atrasos desnecessários. Já uma abordagem centrada no doente, com equipas multidisciplinares e acompanhamento estruturado, pode reduzir custos indiretos e melhorar significativamente os resultados clínicos e sociais.

A MED-EL tem sido pioneira na área dos implantes auditivos. Que inovações recentes estão a aproximar estas soluções de uma experiência auditiva mais natural e personalizada?
Temos investido fortemente em investigação para aproximar a estimulação elétrica do funcionamento natural da cóclea. As inovações passam por elétrodos mais flexíveis e atraumáticos, menos invasivos e que preservam estruturas cocleares, por estratégias de codificação sonora mais sofisticadas e por uma conectividade avançada que permite maior integração com dispositivos digitais. A personalização tornou-se central: hoje conseguimos adaptar a programação do implante ao perfil auditivo específico de cada utilizador, potenciando uma experiência mais rica e natural. Mas reforço que a tecnologia só atinge o seu pleno potencial quando é combinada com diagnóstico precoce e reabilitação auditivo-verbal adequada.

Do ponto de vista das políticas públicas, que medidas acha que deveriam integrar uma estratégia nacional robusta para a saúde auditiva?
Uma estratégia nacional robusta deveria assentar em três pilares: rastreio precoce ao longo do ciclo de vida; acesso equitativo e atempado a dispositivos e reabilitação; e investimento sustentado em investigação e literacia. Isso implica programas nacionais estruturados, financiamento adequado, formação contínua de profissionais e legislação que promova acessibilidade, como legendagem universal e sistemas de indução magnética em espaços públicos. A saúde auditiva deveria ser integrada nas políticas de educação, trabalho e envelhecimento ativo, reconhecendo o seu impacto transversal.

Que papel podem desempenhar os profissionais de saúde, incluindo cuidados primários, na deteção precoce e na redução do estigma associado à utilização de dispositivos auditivos?
Os profissionais de saúde são agentes-chave na mudança de paradigma. Nos cuidados primários, podem integrar perguntas simples sobre audição nas consultas de rotina, identificar sinais precoces e referenciar ou encaminhar atempadamente as pessoas. Têm ainda um papel determinante na normalização do uso de dispositivos auditivos, explicando os benefícios da intervenção precoce e desmontando mitos. Quando um médico de família aborda a audição com a mesma naturalidade com que fala da visão ou da tensão arterial, está a contribuir para reduzir o estigma e promover uma cultura de prevenção.

Olhando para o futuro, e com o foco na próxima década, como imagina uma “sociedade auditivamente inclusiva”?
Será aquela em que nenhuma criança vê o seu desenvolvimento comprometido por falta de diagnóstico precoce, em que nenhum jovem adia tratamento por estigma e em que nenhum adulto fica excluído do mercado de trabalho por barreiras evitáveis. Na próxima década, deveríamos conseguir ter uma cobertura nacional de rastreios em várias fases da vida, redução significativa das listas de espera para implantes, comparticipação efetivamente universal de dispositivos e reabilitação, bem como acessibilidade plena nos meios audiovisuais e espaços públicos. O objetivo é claro: garantir que ouvir e comunicar não seja um privilégio, mas um direito efetivo. Essa é a visão que defendemos e que continuaremos a promover em fóruns como a Semana do Som, trabalhando com decisores, profissionais e a sociedade civil para construir uma inclusão verdadeiramente auditiva.