Dispositivo contactless identifica momentos críticos de perturbações do sono em doentes com cancro da mama

Dispositivo contactless identifica momentos críticos de perturbações do sono em doentes com cancro da mama

Estudo revela quando ocorrem distúrbios do sono em doentes com cancro da mama — estudo português abre caminho a estratégias não farmacológicas para melhorar a qualidade de vida.

Segundo informações divulgadas pela Fundação Champalimaud, num artigo assinado por Ana Gerschenfeld, um estudo liderado por investigadores da fundação, em Lisboa, revelou padrões temporais específicos nos distúrbios do sono de mulheres com cancro da mama submetidas a quimioterapia. Utilizando um dispositivo inovador, não invasivo e contactless, os cientistas conseguiram monitorizar durante 100 dias consecutivos vários parâmetros do sono, abrindo novas perspetivas para intervenções não farmacológicas, como o exercício físico, para mitigar estes efeitos adversos.

O trabalho, publicado recentemente na revista Scientific Reports, foi conduzido por Carla Malveiro, fisiologista do exercício e coordenadora do Programa de Exercício Oncológico da Fundação Champalimaud, e por Pedro Saint-Maurice, responsável pelo laboratório de Atividade Física e Qualidade de Vida da mesma instituição. A investigação foi realizada em colaboração com a Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa.

Sono perturbado, saúde comprometida

A quimioterapia neoadjuvante, usada para reduzir tumores antes da cirurgia, está frequentemente associada a alterações do sono, que podem agravar outros efeitos secundários, interferir com o bem-estar geral e até impactar o prognóstico da doença.

Neste novo estudo, foi usado o Emfit QS, um dispositivo colocado debaixo do colchão que recolhe, de forma passiva, dados sobre a duração, regularidade e qualidade do sono, sem interferir com as rotinas dos doentes. O estudo envolveu 24 mulheres com cancro da mama, acompanhadas ao longo de 15 semanas durante o tratamento.

Os resultados mostram que o tempo passado na cama reduziu nas primeiras sete semanas de tratamento (de 9,3 horas/dia na semana 1 para 8,5 horas/dia na semana 8), voltando a aumentar até atingir níveis semelhantes aos iniciais (9 horas/dia na semana 15). A regularidade do sono manteve-se constante, mas os dados subjetivos, recolhidos através do índice Pittsburgh (PSQI), confirmaram um agravamento dos sintomas de insónia, com 73% das participantes a reportarem dificuldades de sono na semana 15.

Exercício físico como possível solução

“Este é um primeiro passo para estudar intervenções que possam atenuar os distúrbios do sono em doentes com cancro da mama, sem recorrer a medicação”, refere Carla Malveiro. “O exercício físico tem-se revelado uma estratégia promissora, mas faltavam métodos objetivos e acessíveis para monitorizar os efeitos reais nas rotinas de sono destes doentes.”

A equipa sublinha a importância de continuar a investigar abordagens não farmacológicas, personalizadas e com base em dados reais, para melhorar a qualidade de vida durante o tratamento oncológico.

O artigo científico pode ser consultado na íntegra em:
https://www.nature.com/articles/s41598-025-99208-0