“É necessário integrar as farmácias nos planos de emergência”
Mais de duas centenas de farmácias foram afetadas pela tempestade Kristin e pelas cheias que atingiram várias regiões do país. Ainda assim, a rede manteve-se em funcionamento, assegurando a dispensa de medicamentos à população. Em entrevista exclusiva à Salus Magazine, Ema Paulino, presidente da Associação Nacional das Farmácias (ANF), faz o balanço da resposta no terreno e aponta os desafios para reforçar a resiliência do setor perante fenómenos climáticos extremos.

Que avaliação faz do impacto da tempestade Kristin no funcionamento das farmácias, em particular nas zonas mais afetadas?
O impacto da tempestade Kristin, à qual se juntaram outros fenómenos de mau tempo em Portugal que provocaram cheias em várias zonas do país, teve um efeito particularmente severo nas regiões mais afetadas. Mais de 200 farmácias foram atingidas. Ainda assim, e apesar dos impactos significativos registados, nomeadamente falhas prolongadas de energia, interrupções nas comunicações e danos físicos em várias instalações, as farmácias mantiveram-se em funcionamento, garantindo a dispensa de medicamentos à população.
E quais foram as principais dificuldades sentidas no terreno?
As principais dificuldades estiveram relacionadas com a ausência de comunicações e de fornecimento de energia. Numa fase inicial, foi particularmente difícil avaliar a dimensão real do impacto, uma vez que não existia forma de contactar diretamente as farmácias. Progressivamente, e com o apoio da nossa empresa tecnológica, foi possível identificar as unidades mais afetadas e priorizar a resposta. Nas localidades onde a situação se revelou mais crítica, foi fundamental garantir a existência de, pelo menos, uma farmácia em funcionamento, evitando ruturas no acesso da população aos cuidados farmacêuticos. Esse foi o principal foco da intervenção, a par, naturalmente, da salvaguarda da segurança e do bem-estar dos profissionais e das equipas das farmácias.
“Nas localidades onde a situação se revelou mais crítica, foi fundamental garantir a existência de, pelo menos, uma farmácia em funcionamento, evitando ruturas no acesso da população aos cuidados farmacêuticos.”
Ema Paulino, presidente da Associação Nacional das Farmácias
Que medidas concretas adotou a ANF, sob a sua liderança, para apoiar logisticamente as farmácias e assegurar a continuidade do acesso da população aos medicamentos e cuidados de saúde?
A ANF acionou o seu plano de emergência, acompanhando de forma próxima e contínua as consequências do mau tempo nas várias regiões afetadas, sempre em articulação com as orientações das autoridades competentes. Este acompanhamento não se limitou a aguardar pelo restabelecimento das comunicações. Implicou intervenções e deslocações ao terreno, permitindo avaliar diretamente as necessidades das farmácias e apoiar a implementação de soluções imediatas. Para isso, foram também determinantes o apoio técnico e as soluções de comunicação de emergência asseguradas pela Glintt, designadamente através da disponibilização de kits de emergência e de alternativas de comunicação. Estas medidas permitiram garantir a continuidade da atividade das farmácias, assegurar condições adequadas de conservação dos medicamentos e manter a integridade da rede de frio. Paralelamente, através de contactos permanentes com as farmácias, foi possível monitorizar a evolução da situação e contribuir para a reposição gradual da normalidade.
De que forma a articulação com distribuidores, autoridades de saúde e proteção civil foi determinante para garantir o abastecimento e a resposta das farmácias em contexto de emergência?
A ANF participou num grupo de acompanhamento que congregou diversas entidades dos setores da saúde e da proteção civil. Ainda assim, importa retirar uma lição para o futuro: torna-se necessário reforçar e formalizar a integração das farmácias nos planos de emergência e contingência. Tal permitirá mapear necessidades urgentes, estabelecer prioridades de forma mais coordenada e reconhecer, de forma inequívoca, o papel absolutamente essencial que as farmácias desempenham na resposta às populações, nomeadamente na garantia do acesso a medicamentos e a cuidados de saúde de proximidade.
Que lições podemos retirar deste episódio e que ajustamentos considera necessários para reforçar a resiliência da rede de farmácias face a eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes?
Este episódio voltou a demonstrar que, em contextos de crise, a união, a cooperação e o sentido de missão são determinantes para ultrapassar dificuldades. A resposta das farmácias não foi exceção: graças à resiliência e ao compromisso das suas equipas, muitas vezes a operar em condições particularmente exigentes, foi possível manter o serviço às populações. Eventos recentes, como o apagão de abril de 2025, já tinham levado muitas farmácias a investir em geradores e em soluções de comunicação por satélite, investimentos que se revelaram fundamentais neste contexto. No futuro, será essencial reforçar a aposta na prevenção, no planeamento e na capacidade de articulação entre o setor, as autoridades e os diferentes agentes do sistema de saúde, para aumentar a resiliência da rede de farmácias perante fenómenos climáticos extremos.




