Enxaqueca nas mulheres continua subdiagnosticada na Europa

Enxaqueca nas mulheres continua subdiagnosticada na Europa

Estudo europeu apresentado no Parlamento Europeu pela Aliança Europeia para a Enxaqueca e Cefaleias revela forte impacto da enxaqueca hormonal e apela à sua inclusão nas políticas de saúde feminina.

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A enxaqueca continua a ser uma condição subdiagnosticada e frequentemente desvalorizada nas mulheres, apesar do seu impacto significativo na qualidade de vida. O alerta surge de um estudo apresentado no Parlamento Europeu pela Aliança Europeia para a Enxaqueca e Cefaleias (EMHA), que analisou o impacto da enxaqueca hormonal em vários países europeus.

Os resultados foram divulgados no âmbito do evento Mais do que ‘apenas uma dor de cabeça’: Quebrar o silêncio sobre condições pouco reconhecidas, integrado nas iniciativas do Dia Internacional da Mulher. O inquérito, intitulado Enxaqueca nas Mulheres – O Padrão Hormonal Invisível, reuniu 5410 participantes de 13 países europeus, incluindo mais de quatro centenas de participações nacionais.

Os dados mostram que três em cada quatro pessoas com enxaqueca são mulheres, a maioria em idade reprodutiva, e que os fatores hormonais desempenham um papel relevante nas crises. De acordo com o estudo, dois terços das participantes identificam uma relação entre as crises de enxaqueca e o ciclo menstrual, enquanto 90% referem que as dores durante a menstruação são mais intensas, duradouras e difíceis de tratar.

Apesar desta evidência, 68% das mulheres afirmam nunca ter recebido tratamento individualizado para crises associadas a fatores hormonais. Além disso, 66% relacionam as crises com a menstruação, mas apenas 59% já discutiram esses fatores com um profissional de saúde.

Em Portugal, os dados revelam também desafios no acesso ao diagnóstico e ao tratamento. Cerca de 33,6% das mulheres com enxaqueca nunca consultaram um médico, enquanto 72,4% recorrem à automedicação, evidenciando lacunas no acesso a cuidados especializados.

“A desvalorização e o impacto da enxaqueca na mulher continuam a ser uma realidade a nível europeu e nacional. Não é aceitável que a enxaqueca continue a ser negligenciada.”
Madalena Plácido, presidente da MiGRA Portugal

O impacto da doença na vida quotidiana é igualmente significativo. Entre as participantes portuguesas, 92% indicaram que as dores de cabeça limitaram a sua capacidade de trabalhar, estudar ou realizar atividades diárias durante pelo menos um dia. A intensidade das crises também é elevada: 79,8% classificam a dor acima de 6 numa escala de 0 a 10.

Para Elena Ruiz de la Torre, diretora-executiva da EMHA, os resultados confirmam uma realidade há muito subestimada. “A enxaqueca, sobretudo a enxaqueca menstrual, continua a ser trivializada, o que agrava a sua invisibilidade e dificulta o seu reconhecimento clínico e institucional”, afirma.

Perante este cenário, a organização apela ao reconhecimento formal da enxaqueca como um problema de saúde que afeta desproporcionalmente as mulheres, defendendo a sua inclusão na futura Estratégia Europeia de Saúde Neurológica 2025 e nas políticas europeias de saúde feminina.

Neste contexto, a EMHA apresentou um apelo à ação assente em três pilares: Reconhecer. Diagnosticar. Tratar. O objetivo passa por reforçar o reconhecimento da enxaqueca menstrual como uma questão de saúde da mulher, melhorar o diagnóstico precoce e promover abordagens terapêuticas mais personalizadas ao longo das diferentes fases hormonais da vida.

A organização defende ainda que a inclusão da enxaqueca nas estratégias europeias de saúde poderá contribuir para reduzir desigualdades no acesso ao tratamento, melhorar os percursos de cuidados e aumentar a consciencialização sobre a doença, ajudando a combater o estigma e a acelerar o diagnóstico.