Fuga de dentistas aumenta e OMD exige medidas no OE26

Fuga de dentistas aumenta e OMD exige medidas no OE26

Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) divulga o estudo Diagnóstico à Profissão 2025, que revela um retrato preocupante sobre o estado da medicina dentária em Portugal.

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O documento confirma aquilo que há anos vinha sendo denunciado: o país está a perder médicos dentistas para o estrangeiro a um ritmo crescente, movidos pela instabilidade profissional, remunerações insuficientes e ausência de políticas estruturais que valorizem a profissão.

Entre as principais fragilidades identificadas estão a falta de reconhecimento da medicina dentária como profissão de desgaste rápido, mencionada por mais de 60% dos inquiridos, a crescente interferência dos seguros e planos de saúde, a instabilidade salarial (46,2%), a insuficiente proteção social (42,2%) e a inexistência de contratos de trabalho e carreira no SNS, fatores que afetam diretamente a qualidade de vida e a retenção de talento.

Os dados mostram que 7% dos médicos dentistas portugueses já trabalham no estrangeiro, sobretudo em França, Reino Unido e Suíça. Só no último ano, 16,1% emigraram, e quase metade exerce fora do país há mais de cinco anos – período que reduz drasticamente a probabilidade de regresso. Apenas 18% dos inquiridos ponderam voltar a Portugal.

A situação é particularmente preocupante entre os mais jovens: 41,7% dos médicos dentistas com menos de 30 anos afirmam ter decidido emigrar ainda antes de concluir o curso, revelando uma perceção precoce de falta de oportunidades no país. Entre os motivos apontados, destaca-se a impossibilidade de obter rendimentos satisfatórios (55%), a falta de valorização (48,3%) e o desejo de melhor qualidade de vida (43,9%).

A precariedade e baixos rendimentos agravam abandono da profissão, sendo que a maioria dos profissionais (60,4%) depende de remuneração variável, assente em percentagens de atos clínicos e vínculos precários, frequentemente baseados em recibos verdes. A instabilidade é agravada pelo facto de 60,8% exercerem em clínicas de terceiros e quase 70% trabalharem simultaneamente em mais do que um local. Segundo o estudo, um médico dentista em Portugal trabalha mais dias por semana, atende menos utentes e ganha menos do que colegas no estrangeiro.

Os seguros e planos de saúde constituem outra fonte de pressão: 82,4% dos profissionais afirmam que estes influenciam negativamente a remuneração e limitam a autonomia clínica. Não surpreende, por isso, que 62,6% considerem que o rendimento está abaixo do expectável para as suas qualificações.

A par da emigração, cresce também o abandono da profissão. Quase 4% dos médicos dentistas já não exercem, e entre os inativos 94% praticaram medicina dentária no passado — um aumento significativo face a 2024. A insatisfação com o rendimento é, pela primeira vez, o principal motivo para sair da profissão.

“A fuga de profissionais qualificados não é apenas um problema da classe, mas um risco sistémico para a economia e para a saúde pública. Cada médico dentista que emigra representa um investimento perdido e uma redução da capacidade de resposta do sistema nacional.”
Miguel Pavão, bastonário da OMD

O bastonário alerta que “a perda de competitividade económica da profissão exige medidas imediatas para inverter esta tendência”, defendendo a OMD um conjunto de medidas prioritárias que encara como soluções estruturais no OE2026:

  • Criação da carreira especial de médico dentista no SNS, assegurando estabilidade e progressão, à semelhança do modelo já aplicado na Madeira.
  • Destinar 30% da receita do imposto sobre bebidas açucaradas à saúde oral, reforçando programas de prevenção, o “cheque-dentista” e a digitalização do boletim de saúde oral.
  • Reforço dos gabinetes de medicina dentária nos cuidados primários, permitindo abrir mais de 80 unidades equipadas com fundos do PRR, atualmente encerradas por falta de profissionais.
  • Reformulação do programa “Cheque-Dentista”, com cheques específicos para reabilitação protética e situações de trauma.

Em género de conclusão, a OMD considera que “apenas com medidas estruturantes será possível garantir a valorização da profissão, travar a fuga de talento e assegurar que os portugueses têm acesso equitativo a cuidados de saúde oral”.