2050 é já ali… e os antibióticos podem não chegar lá

2050 é já ali… e os antibióticos podem não chegar lá

Artigo escrito por Teresa Guimarães farmacêutica comunitária e membro dos corpos sociais da Associação Portuguesa de Farmacêuticos para a Comunidade (APFPC)


Existe uma “pandemia silenciosa” à espreita para a qual não estamos devidamente preparados, nem suficientemente alertados. Um problema de saúde global crítico que um estudo, realizado no Reino Unido, aponta como a provável principal causa de morte em 2050 (ultrapassando o cancro e as doenças cardiovasculares), podendo vir a causar 10 milhões de mortes anuais. Não se trata de um novo vírus desconhecido, do qual nada se sabe e para o qual não temos como nos preparar, mas um problema já amplamente reportado e discutido, e para o qual se desdobram esforços pelo mundo fora, mas que só terá sucesso se cada um de nós fizer a sua parte: a resistência aos antimicrobianos.

Como resultado de um uso inadequado e excessivo de antibióticos, têm surgido cada vez mais microrganismos resistentes aos fármacos que anteriormente apresentavam eficácia para os eliminar, passando a ser necessário recorrer a fármacos de segunda ou terceira linha, o que se traduz em tratamentos mais caros, mais tóxicos e mais longos que, por vezes, requerem hospitalização prolongada.

Em Portugal, o problema não é teórico. Entre 2019 e 2024, o consumo de antibióticos aumentou 8%, quatro vezes acima da média europeia. Só em 2024, foram dispensadas mais de 9 milhões de embalagens destes medicamentos. Tudo isto num contexto em que a própria União Europeia definiu como meta reduzir o consumo em 20% até 2030 — ou seja, estamos a caminhar na direção oposta.

A descoberta da penicilina por Alexander Fleming em 1928 revolucionou o destino da humanidade. Contudo, se o arsenal terapêutico de que dispomos não for eficaz contra as bactérias, podemos voltar a uma era em que um ferimento menor, ou um simples corte, pode representar uma sentença de morte.

É preciso refletir e absorver o impacto do que fazemos. Ao utilizarmos indiscriminadamente estas armas essenciais, com argumentos como “só com aquele comprimido dos 3 dias é que isto passa” ou “a minha vizinha tomou umas saquetas e ficou logo boa da bexiga”, contribuímos para um quase cenário do apocalipse. Um cenário em que infeções simples passam a requerer tratamentos que hoje estão reservados a meio hospitalar, administrados por via intravenosa, e que se traduzirão em internamentos prolongados e onerosos.

É por isso fundamental que os antibióticos sejam utilizados de forma criteriosa, que o regime posológico instituído pelo médico seja cumprido escrupulosamente, e que não se pare o antibiótico antes do período estabelecido “porque já estava melhor”.

É ainda fundamental entender que o problema da utilização excessiva de antibióticos não se encerra na esfera do uso humano. A utilização para uso veterinário, na agropecuária ou na agricultura acarreta enormes riscos ambientais e de saúde pública, com o surgimento de microrganismos cada vez mais resistentes e mais perigosos para a nossa saúde.

Por todo o mundo estão a ser criados grupos de trabalho para estudar esta temática e diversas cooperações internacionais estão a ser estabelecidas, com vista à partilha de informação e conhecimento. Aprender com quem faz melhor que nós e apoiar quem ainda está a dar os primeiros passos é decisivo num mundo cada vez mais global, onde a movimentação das pessoas é um caminho para a rápida disseminação de doenças, o que aliás aprendemos (ou deveríamos ter aprendido) com a pandemia de COVID-19.

É preciso implementar vigilância dos sistemas de saúde, pois alguns dos microrganismos mais preocupantes surgem em contexto hospitalar, promover programas de revisão do uso dos antibióticos, bem como investir na pesquisa e desenvolvimento de novas moléculas.

O sucesso do esforço global para preservar a eficácia dos antimicrobianos reside principalmente na educação e no conhecimento público das implicações e complicações decorrentes do seu uso, ou melhor, do seu mau uso.

Se o seu farmacêutico nega a venda do “comprimido dos 3 dias”, apesar de ter uma dor de garganta e de não estar melhor com o anti-inflamatório “desde ontem”, é porque ele está alerta e preocupado com as implicações que o uso indevido deste tipo de fármacos tem para todos nós.

O aumento de microrganismos multirresistentes, aliado à escassez de novos antibióticos, cria aquilo que só pode ser descrito como uma tempestade perfeita. A diferença é que, desta vez, sabemos que ela está a formar-se. Urge fazer a nossa parte. Cada um de nós. Porque 2050 é já ali.