Mau tempo: setor farmacêutico reforça resposta para garantir acesso a medicamentos
Com o país refém dos estragos provocados pelo mau tempo das últimas semanas, Associação de Farmácias de Portugal e Ordem dos Farmacêuticos explicam como está a ser a resposta face aos danos provocados pela tempestade Kristin e outros fenómenos atmosféricos extremos para garantir a continuidade dos cuidados e do acesso ao medicamento.

A tempestade Kristin colocou à prova a capacidade de resposta do setor farmacêutico nas regiões mais afetadas, com especial incidência no distrito de Leiria. Falhas de energia, inundações, populações isoladas, interrupções no abastecimento de água e constrangimentos nas comunicações exigiram uma atuação rápida para garantir a continuidade do acesso a medicamentos e produtos de saúde.
Face a esse cenário preocupante, a Associação de Farmácias de Portugal (AFP) avançou com um contacto direto às farmácias nas zonas críticas. Em entrevista exclusiva à Salus Magazine, Isabel Cortez, presidente da AFP, explicou que a associação “contactou diretamente com as farmácias associadas localizadas nas zonas mais afetadas pela tempestade, em particular no distrito de Leiria, por ser a área onde se concentraram os principais impactos reportados”. O objetivo foi “identificar eventuais constrangimentos no funcionamento das farmácias e avaliar necessidades imediatas, garantindo uma resposta articulada e um acompanhamento próximo da situação”. A informação recolhida “foi posteriormente consolidada e comunicada às entidades competentes”.
Ao nível da articulação institucional, Isabel Cortez sublinha que “a AFP procedeu à partilha da informação recolhida com as entidades relevantes do setor, nomeadamente o INFARMED e a Ordem dos Farmacêuticos, assegurando assim uma visão atualizada da situação no terreno”. Sempre que surgiram dificuldades tecnológicas, “a AFP articulou com os fornecedores de soluções tecnológicas utilizadas pelas farmácias, procurando apoiar o restabelecimento das condições necessárias ao seu normal funcionamento e, dessa forma, contribuir para a continuidade do abastecimento de medicamentos e produtos de saúde”. Foi ainda “emitida uma circular interna às farmácias associadas, com orientações e informação considerada relevante”.
Agir com os olhos no futuro
No terreno, os principais obstáculos foram claros: “falhas de energia elétrica, abastecimento de água e, sobretudo, interrupções no acesso à internet, essenciais ao funcionamento dos sistemas informáticos das farmácias”. Estas limitações, refere Isabel Cortez “condicionaram temporariamente operações como o registo de atos farmacêuticos, a receção de encomendas e a dispensa de medicamentos”. Para mitigar o impacto, “as farmácias procuraram manter o atendimento à população através de procedimentos alternativos, sempre que possível, enquanto decorriam os esforços para o restabelecimento das comunicações”, acrescenta.
Quanto ao futuro, a presidente da AFP sublinha que a associação “integra grupos de trabalho e estruturas de coordenação dedicadas à preparação para emergências e à resposta em saúde pública, que reúnem regularmente com o objetivo de identificar riscos, partilhar informação e contribuir para o desenvolvimento de planos de contingência”. Ainda assim, “a operacionalização no terreno e a ativação dos planos existentes dependem das entidades competentes, não cabendo às associações a sua execução direta”. Nesse sentido, a AFP garante que “continuará a contribuir para estes trabalhos, reforçando a importância de que os procedimentos definidos sejam efetivamente acionados em situações futuras de fenómenos meteorológicos extremos”.
Também a Ordem dos Farmacêuticos (OF) seguiu de perto a situação, tendo feito “o acompanhamento da situação nas regiões mais afetadas, mantendo contacto direto com farmacêuticos no terreno, estruturas locais e entidades institucionais relevantes”. Tal permitiu identificar “constrangimentos críticos que condicionam o funcionamento de farmácias, laboratórios de análises clínicas e serviços farmacêuticos hospitalares, nomeadamente, a nível do fornecimento de energia, comunicações e acesso a infraestruturas essenciais”.
Para apoio direto, foi criado um canal específico com a OF a “disponibilizar um endereço de correio eletrónico prioritário (prioritario@ordemfarmaceuticos.pt), através do qual podem ser reportadas situações urgentes ou dificuldades no acesso aos cuidados farmacêuticos”. A OF anunciou igualmente que “vai também adotar medidas excecionais ao nível de procedimentos administrativos, para evitar constrangimentos adicionais para os farmacêuticos afetados por esta situação”.
Garantir o acesso ao medicamento
Em articulação institucional, a OF tem estado em contacto com “o Ministério da Saúde e com o Coordenador da Estrutura de Missão Reconstrução da Região Centro do País, procurando contribuir, no âmbito das suas competências, para soluções que promovam a retoma gradual da normalidade e a continuidade da assistência farmacêutica às populações”. O objetivo é claro: “a continuidade dos cuidados de saúde à população, particularmente da mais vulnerável, é a nossa prioridade.”
Ainda com o país no epicentro de vários acontecimentos atmosféricos extremos, a experiência da tempestade Kristin veio reforçar um ponto essencial, de acordo com a OF, com esta situação continuada a “reforçar a necessidade de garantir a integração de todos os farmacêuticos, nos seus vários contextos profissionais, nos planos nacionais e locais de resposta a emergências, reconhecendo o seu papel essencial na proteção da saúde pública.” Nesse sentido, a OF revela que “encontra-se a desenvolver um plano de contingência nacional que permita antecipar e enquadrar a intervenção dos farmacêuticos em cenários de crise, prevendo igualmente a sua operacionalização e adaptação a nível local, em articulação com as autoridades de saúde e as estruturas de proteção civil.”
Face aos acontecimentos das últimas semanas, e num contexto de maior frequência de fenómenos extremos, a preparação, coordenação e valorização do papel das farmácias assumem-se como pilares fundamentais para proteger a saúde das populações e garantir que, mesmo perante adversidades, o acesso ao medicamento não é interrompido.


