Bactérias intestinais e imunoterapia: descoberta vence Bial Award in Biomedicine 2025
Ligação entre bactérias intestinais e a resposta ao tratamento do cancro distinguida com um dos mais relevantes prémios internacionais na área da biomedicina. A investigação, liderada por Laurence Zitvogel e Guido Kroemer, venceu o Bial Award in Biomedicine 2025, ao demonstrar que o microbioma intestinal desempenha um papel determinante na eficácia da imunoterapia oncológica.

O prémio, promovido pela Fundação Bial e no valor de 350 mil euros, foi entregue numa sessão contou com a presença do Ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, em representação do Primeiro-Ministro, do reitor António Sousa Pereira, do presidente da Fundação Bial, Luís Portela, e do presidente do júri, Ralph Adolphs, além dos investigadores distinguidos.
O trabalho premiado, intitulado Gut microbiome influences efficacy of PD-1–based immunotherapy against epithelial tumors, foi publicado em janeiro de 2018 na revista Science e conta já com mais de 5800 citações científicas. A pesquisademonstra que uma flora intestinal saudável pode potenciar a eficácia da imunoterapia baseada em inibidores de PD-1, uma das abordagens mais inovadoras no tratamento do cancro. Em contrapartida, o uso de antibióticos pode comprometer o sucesso terapêutico, ao reduzir a diversidade da microbiota intestinal.
A imunoterapia revolucionou a oncologia ao permitir que o sistema imunitário volte a reconhecer e a destruir células tumorais, oferecendo novas opções a doentes que anteriormente tinham poucas alternativas. Contudo, mais de metade dos pacientes desenvolve resistência ao tratamento, com recorrência da doença por mecanismos até agora mal compreendidos.
A investigação agora distinguida estabelece uma ligação clara entre essa resistência e o microbioma intestinal – o conjunto de microrganismos que habitam o intestino humano. A análise de doentes com cancro revelou que uma maior diversidade bacteriana está associada a melhores resultados clínicos. Além disso, os investigadores identificaram espécies específicas de bactérias consistentemente associadas a uma resposta mais favorável à imunoterapia, confirmando relações causais através de modelos animais.
Segundo o júri do prémio, o estudo representa um verdadeiro tour de force científico, ao integrar investigação fundamental, experiências em modelos animais e dados clínicos de doentes oncológicos. Além do avanço conceptual, o trabalho aponta implicações práticas imediatas, como o uso criterioso de antibióticos em doentes submetidos a imunoterapia.
“Ao revelar o papel central do microbioma intestinal na resposta à imunoterapia, este estudo redefine a forma como pensamos os mecanismos de resistência ao tratamento do cancro. Trata-se de um avanço científico notável, que abre novas vias terapêuticas e ilustra de forma exemplar o poder transformador da investigação biomédica de excelência”.
Para Ralph Adolphs, presidente do júri
A equipa premiada é liderada por Laurence Zitvogel, do Gustave Roussy e da Université Paris-Saclay, e por Guido Kroemer, também ligado ao Gustave Roussy e à Université Paris Cité, envolvendo ainda 46 coautores de instituições de França, Suécia e Estados Unidos.
A edição de 2025 do Bial Award in Biomedicine recebeu 58 trabalhos nomeados, provenientes de 18 países, abrangendo áreas como o cancro, doenças infeciosas e patologias neurodegenerativas. As edições anteriores distinguiram investigações que seriam reconhecidas com alguns dos mais prestigiados prémios científicos internacionais.



