“O farmacêutico tem um papel transformador”

Renata Passos, farmacêutica, é Diretora técnica adjunta na Farmácia Torres, valorizando as pessoas, e transformando um local de saúde num espaço de crescimento humano, sendo que outra das vertentes que lhe despertam particular interesse profissionalmente é a realização de formações. Acredita que o farmacêutico tem um papel transformador e que a farmácia tem um papel cada vez mais central no sistema de saúde.

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13 de março, 2026


Quais são as maiores dificuldades e desafios da gestão de uma farmácia?
Diria que o maior desafio é equilibrar mundos que parecem distintos, mas que, na verdade, se cruzam todos os dias: o clínico, o humano e o empresarial. A farmácia é um espaço onde decisões técnicas convivem com emoções, expectativas e vulnerabilidades das pessoas. Gerir equipas, cumprir regulamentação, garantir sustentabilidade financeira e assegurar que tudo isso acontece em simultâneo. Mas, acima de tudo, o que mais exige de mim é manter o caminho sem nunca nos afastarmos da essência do nosso trabalho: cuidar genuinamente dos nossos utentes.

Como mantém a equipa motivada?
A minha motivação sempre veio de pessoas que acreditaram no meu potencial. Por isso, faço questão de criar esse mesmo ambiente para a minha equipa.
Trago muito do meu MBA em recursos humanos para o dia a dia: conversas de desenvolvimento, autonomia, responsabilidade e, sobretudo, reconhecimento. Acredito que cada pessoa tem um talento único — e o meu papel como gestora é ajudar a descobri-lo, potenciá-lo e fazê-lo florescer. Quando a equipa sente que cresce, a farmácia cresce com ela.

Recebem estagiários?
Sim, e adoro recebê-los. Faz-me recordar o meu próprio percurso onde encontrei pessoas genuinamente preocupadas em fazer-me crescer. Gosto de lhes mostrar que a ciência que aprenderam nas aulas ganha corpo, voz e impacto real quando se cruza com pessoas.

Que estratégias acha necessárias para atrair farmacêuticos?
As pessoas procuram muito mais do que um emprego, procuram um lugar onde se sintam vistas. Por isso, a nossa maior estratégia é oferecer um ambiente onde possam crescer e ser felizes profissionalmente. Valorizar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, a evolução contínua e a possibilidade de cada um seguir áreas clínicas que lhe interessem. Quando criamos um espaço onde o talento é nutrido, não precisamos de reter profissionais, eles ficam naturalmente.

Têm programas específicos de cuidados farmacêuticos?
Sim, e fazem parte das principais funções dos farmacêuticos. Acompanhamos doentes crónicos, criamos planos personalizados e apostamos em serviços que realmente mudam como as pessoas vivem a sua saúde. Acredito profundamente que o farmacêutico tem um papel transformador e ver essa transformação acontecer, pessoa a pessoa, é das maiores recompensas do meu dia.

“Acredito profundamente que o farmacêutico tem um papel transformador e ver essa transformação acontecer, pessoa a pessoa, é das maiores recompensas do meu dia.”

Como lidar com a competição das outras farmácias e parafarmácias?
A competição faz parte, mas não intimida. O que fazemos não é replicável por grandes superfícies: coisas simples como a escuta ativa, a empatia e um cuidado humanizado. A nossa diferenciação está no serviço, na competência clínica e na relação personalizada. Quando tratamos cada utente como alguém importante, e não apenas como um número, a confiança torna-se o nosso maior trunfo.

O que a levou a fazer este percurso académico e laboral até agora?
Sinceramente, sempre fui movida por curiosidade e por paixão. O doutoramento em ciência ensinou-me a pensar profundamente, a procurar respostas e a ter rigor. A experiência na indústria farmacêutica mostrou-me a importância da estratégia, da comunicação e da visão global do setor. E o MBA em recursos humanos abriu-me definitivamente para o que hoje é o meu propósito: desenvolver pessoas. Cada fase fez-me perceber que, onde quer que estivesse, o que mais me apaixonava era ver alguém crescer, ganhar confiança e descobrir o seu potencial.

Pode falar-nos um pouco do seu trabalho diário?
O meu dia é uma mistura bonita de ciência, pessoas e gestão. Aconselho utentes, resolvo problemas clínicos, organizo burocracias… mas, acima de tudo, trabalho com a minha equipa. O meu dia tem sempre espaço para ouvir alguém, orientar, ajustar rotinas, criar oportunidades de desenvolvimento. É isso que dá alma ao meu trabalho: transformar um local de saúde num espaço de crescimento humano.

Quais os projetos diários em que está envolvida? E quais os seus projectos futuros?
Neste momento, estou muito focada em melhorar a experiência dos utentes e em reforçar competências dentro da equipa. Também estamos a expandir alguns serviços clínicos, porque acredito que a farmácia tem um papel cada vez mais central no sistema de saúde. Quanto ao futuro, quero criar programas estruturados de desenvolvimento profissional para farmacêuticos, algo que una ciência, comunicação e crescimento humano. É onde me sinto mais realizada: na formação de pessoas. 

“Quero criar programas estruturados de desenvolvimento profissional para farmacêuticos, algo que una ciência, comunicação e crescimento humano. É onde me sinto mais realizada: na formação de pessoas.” 

Que sugestões apresenta para melhorar o sector farmacêutico em Portugal?
Temos profissionais extraordinários, mas ainda pouco reconhecidos. Precisamos de:
* Maior valorização do farmacêutico enquanto profissional de saúde;
* Remuneração adequada aos serviços e horários prestados;
* Caminhos claros de carreira e especialização;
* Menos burocracia e mais autonomia clínica.

Quando valorizamos quem cuida dos outros, estamos a valorizar a saúde de todo o país.

O que gosta de fazer nas horas livres?
Gosto de me reconectar, andar ao ar livre, estar com as pessoas que me são importantes e viajo sempre que possível para experimentar coisas novas. Estou sempre em busca de aprender. A curiosidade nunca me abandonou, é uma grande parte de quem sou.

Quer deixar algum conselho / recomendação para os novos farmacêuticos?
Abracem todas as oportunidades com humildade. A farmácia é um lugar onde se aprende todos os dias, seja com colegas, com médicos, e sobretudo com os utentes. Experimentem todas as áreas abertas pela nossa profissão. Estamos em uma das profissões mais bonitas e diversificada da saúde! Podemos estar do início ao fim de cada descoberta, processo, tratamento e resolução. 

Que medidas acha fundamentais para que os farmacêuticos se sintam mais valorizados?
Acredito que precisamos de reconhecimento que vá além das palavras:
* Carreiras definidas, com progressão real;
* Remuneração alinhada com a responsabilidade;
* Participação ativa nas equipas e nas decisões;
* Espaço para inovar e para se desenvolver ao longo da vida.