Estudo da FMUP sugere que início simultâneo de terapêutica na insuficiência cardíaca é seguro
Iniciar simultaneamente dois tratamentos recomendados para a insuficiência cardíaca é uma estratégia viável, segura e que pode permitir um acesso mais rápido à terapêutica completa, de acordo com um estudo liderado por João Pedro Ferreira, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, publicado no The Journal of the American College of Cardiology.

Como explica o autor principal, “as diretrizes internacionais recomendam que estes fármacos sejam iniciados o mais precocemente possível e as doses ajustadas, mas, antes deste ensaio, não se sabia se era seguro e eficaz iniciá-los em simultâneo ou se seria melhor começar um e só depois o outro (um a três meses depois)”.
Os resultados demonstram que “esta estratégia é segura, o que significa que não aumenta os efeitos adversos, quando se compara com a estratégia de começar o tratamento com apenas um medicamento e adicionar o outro após algumas semanas ou meses”.
A base para esta conclusão foi o estudo INITIATE-HfrEF que avaliou doentes com insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, acompanhados em vários centros do norte do país, incluindo a ULS São João, ULS Gaia/Espinho, ULS de Santo António e ULS de Matosinhos. Assim, ao longo de cerca de seis meses, foram monitorizados eventos clínicos relevantes e efeitos adversos, como hipotensão, alterações do potássio, disfunção renal, episódios de urgência, hospitalizações e mortalidade cardiovascular.
“Esta descoberta é relevante porque muitos médicos hesitam em iniciar vários medicamentos ao mesmo tempo por receio de efeitos adversos. Este estudo sugere que, com acompanhamento adequado, uma abordagem mais rápida é viável e segura.”
João Pedro Ferreira, investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto
A investigação analisou o início simultâneo ou sequencial de duas terapêuticas consideradas pilares no tratamento da doença – sacubitril/valsartan e inibidores do SGLT2. No total, participaram 62 doentes, com idade média de 68 anos, sendo que quase metade se encontrava internada no momento da inclusão.
Os dados mostram que “iniciar os dois medicamentos ao mesmo tempo foi não inferior à estratégia sequencial, ou seja, não foi mais perigoso. Não houve aumento de complicações graves no grupo que iniciou ambos os fármacos em simultâneo”.
Além disso, refere o investigador, “ao fim de 12 semanas, todos os doentes que continuavam no estudo já estavam a tomar ambos os medicamentos e a maioria conseguiu atingir doses-alvo até às 24 semanas. Não houve sinais de pior tolerância renal, baixa grave de pressão arterial ou de alterações graves de potássio no grupo simultâneo”.
Este trabalho insere-se numa linha de investigação desenvolvida na FMUP e na unidade RISE-Health, focada na melhoria do tratamento de doenças cardiovasculares, renais e metabólicas.
A insuficiência cardíaca, recorde-se, é uma doença crónica grave, associada a sintomas como falta de ar e retenção de líquidos, e representa uma das principais causas de mortalidade acima dos 65 anos. Em Portugal, estima-se que afete mais de meio milhão de pessoas.




