“A tecnologia deve tornar as decisões mais informadas, nunca menos escrutináveis”

“A tecnologia deve tornar as decisões mais informadas, nunca menos escrutináveis”

Dados, tecnologia e análise podem ser decisivos para tornar a filosofia One Health mais eficaz, mas apenas e só quando funcionam em conjunto. Esta foi uma das ideias centrais da participação de Ricardo Mexia no 9.º Congresso Mundial One Health, que decorreu no passado fim de semana, onde integrou uma sessão dedicada a Dados, Tecnologia e Análises Inovadoras. À Salus Magazine, o médico especialista em Saúde Pública e epidemiologista do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge explica porque defende uma maior integração dos sistemas e alerta para a necessidade de transformar dados em informação útil para a decisão.

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A sua intervenção no 9.º Congresso Mundial One Health centrou-se em Dados, Tecnologia e Análises Inovadoras. Porque são estes três elementos tão importantes para tornar a abordagem One Health mais eficaz na prática?
Porque são, muito literalmente, um tecido que liga as três saúdes: a humana, a animal e a ambiental. O One Health é, antes de mais, um problema de integração: temos informação de todos estes domínios, mas dispersa por sistemas que não se falam. E é aí que estes três elementos entram, cada um com um papel próprio.
Os dados são a matéria-prima. Sem informação de qualidade, e das várias origens, não há One Health que funcione, fica-se no discurso. A tecnologia é o que permite que essa informação circule e se cruze em tempo útil, e não meses depois, num relatório. E as análises inovadoras são o que transforma esse volume enorme de dados em algo utilizável: distinguir o ruído do sinal, e, por sua vez, distinguir o sinal de um alerta que exige ação.
Nenhum destes elementos, isolado, resolve o problema. Podemos ter os melhores dados e a melhor tecnologia e, ainda assim, falhar se a análise não chegar a quem decide. A eficácia do One Health não está na sofisticação de cada peça, está em fazê-las funcionar juntas, e ao serviço da decisão.

A vigilância epidemiológica depende cada vez mais da capacidade de recolher, cruzar e interpretar grandes volumes de informação. Onde estão hoje as principais lacunas nos sistemas de dados em Saúde e o que é necessário mudar para conseguirmos detetar mais cedo e responder melhor às ameaças?
A primeira (e principal) lacuna é a fragmentação. Temos muitos sistemas, muitas bases de dados, mas construídos em silos, cada um com a sua lógica, sem falarem uns com os outros. O paradoxo é que nunca tivemos tanta informação e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade em juntá-la. A segunda é a interoperabilidade ou, melhor, a falta dela. Os sistemas não foram desenhados para comunicar, e garantir essa comunicação depois é sempre mais difícil e mais caro do que tê-la previsto de origem.
A terceira, muitas vezes esquecida, é a capacidade analítica humana. Ter ferramentas, mas não ter gente que as saiba usar de forma continuada não produzem vigilância, só produz projetos que terminam quando acaba o financiamento. O que é preciso mudar segue estas lacunas. Interoperabilidade desde a conceção, com padrões comuns. Um enquadramento que resolva de forma séria a partilha de dados (proteção de dados, propriedade da informação, confiança institucional), porque hoje é isso, mais do que a técnica, que trava a integração. E equipas dedicadas e estáveis. Acima de tudo, é preciso deixar de tratar estes sistemas como despesa de ocasião e passar a tratá-los como aquilo que são: infraestrutura crítica do país.

Os dados são a matéria-prima. Sem informação de qualidade, e das várias origens, não há One Health que funcione, fica-se no discurso. A tecnologia é o que permite que essa informação circule e se cruze em tempo útil, e não meses depois, num relatório. E as análises inovadoras são o que transforma esse volume enorme de dados em algo utilizável: distinguir o ruído do sinal, e, por sua vez, distinguir o sinal de um alerta que exige ação.

A experiência da pandemia mostrou a importância de dispor de informação rápida e fiável para apoiar a decisão. Que lições ficaram desse período e até que ponto Portugal está hoje mais preparado para utilizar os dados em tempo real perante um novo surto ou outra emergência de Saúde Pública?
A lição maior foi perceber, na prática e sob pressão, o valor de ter informação atempada e fiável para decidir. No início, lidámos com muita incerteza e com dados que chegavam tarde ou desorganizados; à medida que a resposta evoluiu, criámos capacidades que não existiam antes.
Ficaram ganhos concretos. Uma capacidade de sequenciação genómica muito reforçada. A vigilância de águas residuais, que se provou como fonte de informação valiosa e complementar à clínica. Painéis de apoio à decisão e o hábito, novo entre nós, de trabalhar com dados quase em tempo real. E, talvez o mais importante, a consciência coletiva (pública e política) de que estas ameaças são reais.
Estamos, por isso, mais preparados do que em 2019. Contudo, a minha preocupação é conhecida: o risco de desmobilizar quando a urgência passa. A preparação verdadeira mede-se nos anos calmos. As fragilidades que persistem são a interoperabilidade entre sistemas, a escassez de recursos humanos qualificados e a sustentabilidade do investimento. E há um fator de contexto: estamos em plena reorganização da nossa arquitetura de saúde pública, o que torna decisivo fixar estas capacidades em instituições sólidas, e não as deixar depender do momento.

Tem estado envolvido no desenvolvimento de soluções tecnológicas aplicadas à vigilância epidemiológica. Que potencial têm estas ferramentas para antecipar riscos e apoiar decisões de Saúde Pública e , que ainda falta para que sejam utilizadas de forma mais generalizada?
O potencial é real e, em alguns domínios, já demonstrado. Estas ferramentas permitem automatizar a vigilância de rotina, libertando os epidemiologistas do trabalho mais “mecânico”, detetar anomalias em grandes volumes de dados mais depressa do que qualquer análise manual, e apoiar a antecipação através de modelos que sinalizam tendências antes de elas se tornarem evidentes. Bem usadas, dão-nos tempo, e, em saúde pública, o tempo é quase tudo.
Mas há uma distância grande entre ter uma ferramenta que funciona num piloto e tê-la a funcionar no dia a dia. E é aí que costuma falhar. Falta validação robusta e em saúde não podemos confiar em algo que não foi testado com rigor. Falta integração nos fluxos de trabalho reais e nos circuitos de decisão; uma ferramenta que vive à margem do processo, não é usada. Falta interoperabilidade com os sistemas existentes. E falta o mais básico: financiamento estável e formação, para que a ferramenta sobreviva ao projeto que a criou.
A tentação da “tecnologia pela tecnologia” é um risco. O critério tem de ser sempre o mesmo: isto ajuda quem decide a decidir melhor e mais cedo? Se não ajudar, por muito sofisticada que seja, não serve.

A abordagem One Health implica cruzar informação sobre saúde humana, saúde animal e ambiente. Na prática, quão preparados estamos para fazer esta integração de dados e quais são os principais obstáculos, sejam tecnológicos, institucionais ou relacionados com a partilha de informação, que ainda persistem?
Estamos bem melhor preparados para recolher dados do que para os cruzar. Cada setor gera boa informação dentro das suas fronteiras; o problema aparece quando essa informação tem de atravessar as fronteiras entre a saúde, a veterinária e o ambiente.
Os obstáculos são de três tipos. Os tecnológicos existem (sistemas concebidos separadamente, sem padrões comuns) mas são, de longe, os mais fáceis de resolver. Os institucionais são mais duros: saúde humana, saúde animal e ambiente vivem em ministérios e culturas diferentes, com orçamentos e prioridades próprios, e falta um mecanismo formal, com mandato, que os obrigue a trabalhar juntos de forma permanente e não apenas em crise. E os de partilha de informação são talvez os mais subtis: questões legítimas de proteção de dados, de propriedade da informação e, sobretudo, de confiança entre instituições, que travam a partilha muito mais do que qualquer limitação técnica.
A boa notícia é que há caminhos já testados. Na minha própria sessão do congresso há um exemplo notável — a troca automatizada de informação entre os sistemas de saúde animal e humana na Guiné — que mostra que a integração é possível mesmo com infraestruturas frágeis. O que falta, entre nós, não é tecnologia. É mais decisão e governação.

O que devemos começar a fazer já é o trabalho menos vistoso e mais determinante. Adotar padrões de interoperabilidade que obriguem os sistemas futuros a comunicar entre si. Criar um mecanismo formal e permanente de coordenação One Health entre a saúde, a veterinária e o ambiente, com mandato e responsáveis. Investir em capacidade analítica — pessoas, não só ferramentas — de forma estável. E garantir financiamento previsível, que trate isto como infraestrutura e não como despesa dispensável.

A utilização de novas tecnologias e de análises cada vez mais sofisticadas pode melhorar a capacidade de antecipação, mas também levanta questões sobre qualidade dos dados, privacidade e interpretação dos resultados. Como garantir que a inovação tecnológica reforça, em vez de fragilizar, a confiança nas decisões de Saúde Pública?
Este é um ponto verdadeiramente crítico, porque a saúde pública funciona com um crédito de confiança. Sem confiança, a melhor decisão baseada nos melhores dados não é seguida. E assim, de nada valeu a inovação.
Há três frentes a cuidar. A qualidade dos dados, desde logo: um modelo é tão bom quanto a informação que o alimenta, e dados enviesados ou incompletos não só produzem más conclusões como as amplificam, com aparência de rigor. A privacidade, que tem de ser garantida por conceção, e não como remendo: trabalhar com dados de saúde exige respeito absoluto por a quem eles pertencem. E a interpretação: precisamos de perceber porquê um sistema sinaliza algo, e não apenas aceitar que o sinaliza. A opacidade é a principal inimiga da confiança.
A forma de garantir que a inovação reforça a confiança é, no fundo, não abdicar de dois princípios. Primeiro, manter sempre o juízo humano no circuito. O algoritmo aponta para onde olhar, mas a responsabilidade da decisão é de quem tem o exercício de saúde pública. Segundo, comunicar com transparência, incluindo a incerteza. Explicar o que sabemos, o que não sabemos e como decidimos protege a confiança muito mais do que a falsa segurança. A tecnologia deve tornar as decisões mais informadas, nunca menos escrutináveis.

Olhando para os próximos anos, que tecnologias ou abordagens de análise de dados considera que poderão fazer a maior diferença na operacionalização da One Health e o que deveria Portugal começar a fazer já para não perder essa oportunidade?
Diria que a maior diferença virá de três frentes que a minha sessão do congresso ilustra bem. A vigilância de largo espetro e não invasiva, como a metagenómica aplicada às águas residuais, capaz de rastrear múltiplos agentes sem testar indivíduo a indivíduo, é particularmente valiosa em contextos de menos recursos. As plataformas interoperáveis de alerta precoce e apoio à decisão, que ligam setores e países, como a plataforma PREZODE ou ecossistemas do tipo TREADS. E a análise avançada, incluindo inteligência artificial, para detetar sinais em grandes volumes de dados heterogéneos. Na verdade, a questão da vigilância sindrómica é uma oportunidade para Portugal. Temos muitos dados, mas pouca informação.
Mas a tecnologia é a parte fácil. O que devemos começar a fazer já é o trabalho menos vistoso e mais determinante. Adotar padrões de interoperabilidade que obriguem os sistemas futuros a comunicar entre si. Criar um mecanismo formal e permanente de coordenação One Health entre a saúde, a veterinária e o ambiente, com mandato e responsáveis. Investir em capacidade analítica — pessoas, não só ferramentas — de forma estável. E garantir financiamento previsível, que trate isto como infraestrutura e não como despesa dispensável.
O momento é oportuno, e por uma razão de fundo: estamos a reorganizar a nossa arquitetura de saúde pública. Ou aproveitamos esta janela para desenhar estes sistemas de raiz, integrados e interoperáveis, ou vamos gastar a próxima década a tentar ligar, à força, sistemas que voltámos a construir separados. É uma oportunidade que não se repete com frequência, e seria imperdoável desperdiçá-la.