“O maior dilema da oncologia continua a ser a especificidade e a eficácia”

“O maior dilema da oncologia continua a ser a especificidade e a eficácia”

Uma tecnologia inovadora desenvolvida em Portugal poderá abrir novas perspetivas no diagnóstico e tratamento do cancro. O anticorpo L2A5, criado por uma equipa liderada por Paula Videira, professora catedrática da NOVA FCT e diretora da UCIBIO, consegue distinguir células tumorais de tecido saudável com elevada precisão ao reconhecer glicanos associados a tumores agressivos. Em entrevista à Salus Magazine, a investigadora fala sobre o potencial desta plataforma para impulsionar terapias mais personalizadas, reduzir efeitos secundários e aproximar a ciência portuguesa da inovação clínica internacional.

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O que torna o anticorpo L2A5 diferente das abordagens atualmente utilizadas no diagnóstico e tratamento do cancro?
Este anticorpo distingue‑se por reconhecer moléculas altamente específicas que surgem em vários cancros agressivos, mas não estão presentes em tecido saudável. Isto permite uma precisão muito superior às abordagens tradicionais, que muitas vezes dependem de marcadores pouco específicos ou presentes também em células normais. O L2A5 abre assim caminho a diagnósticos mais fiáveis e a terapias dirigidas, reduzindo danos colaterais.
A maior parte das terapias e diagnósticos oncológicos baseia-se em proteínas expressas pelas células tumorais. O L2A5, pelo contrário, reconhece glicanos tumorais anómalos, em particular o sialil-Tn e estruturas relacionadas, que aparecem à superfície de vários cancros agressivos (pancreático, colorretal, ovárico, bexiga, pulmão, mama). Estes glicanos também chamados de açúcares estão ausentes ou não acessíveis em tecidos saudáveis, o que cria uma janela de oportunidade muito difícil de obter com alvos proteicos clássicos. Historicamente, os anticorpos anti-glicano têm baixa afinidade e fraca especificidade, e são difíceis de estimular o sistema imunitário porque estes açúcares são pequenos e parecem-se com outras estruturas normais. O L2A5 resolve este problema porque tem sequências únicas nas suas regiões variáveis descobertas pela nossa equipa que nunca tinham sido descritas antes e que explicam a sua afinidade invulgarmente elevada combinada com especificidade muito alta.

Porque é tão difícil distinguir células cancerígenas de tecido saudável e de que forma esta descoberta consegue ultrapassar esse desafio?
É tão difícil porque as células tumorais não são corpos estranhos, são células do próprio doente, que partilham quase toda a sua maquinaria molecular com as células saudáveis, mas que se transformaram. As diferenças a nível molecular são subtis, e basta um pequeno erro na deteção para que um teste falhe um tumor, ou para que um tratamento ataque também tecido saudável.
Outras terapias desenvolvidas contra alvos tumorais semelhantes ao sialil Tn tinham baixa afinidade e fraca especificidade. E por essa razão eram pouco robustas e esta limitação travou durante muito tempo o potencial clínico de terapiasanti-glicanos. É também por isso que a precisão do L2A5 é vista como uma viragem.
As terapias “convencionais” como a quimioterapia clássica e a radioterapia continuam a ser pilares fundamentais do tratamento oncológico. Mas a sua credibilidade é frequentemente posta em causa precisamente porque atingem células tumorais e células saudáveis em divisão, gerando os conhecidos efeitos secundários como a queda de cabelo, mucosite, imunossupressão, fadiga. Não é falta de eficácia, mas sim a falta de seletividade molecular.
O que o L2A5 faz é precisamente aproveitar uma diferença molecular subtil, que são os tais açúcares anómalos ausentes ou inacessíveis no tecido saudável. E fá-lo com uma precisão muito superior à das abordagens anteriores.

As terapias “convencionais” como a quimioterapia clássica e a radioterapia continuam a ser pilares fundamentais do tratamento oncológico. Mas a sua credibilidade é frequentemente posta em causa precisamente porque atingem células tumorais e células saudáveis em divisão, gerando os conhecidos efeitos secundários como a queda de cabelo, mucosite, imunossupressão, fadiga

O estudo refere que o anticorpo reconhece glicanos associados a tumores. Pode explicar, de forma simples, o que são estes glicanos e qual o seu papel no cancro?
Os glicanos são, de forma simples, cadeias de açúcares que existem à superfície de todas as nossas células e na grande maioria das nossas proteínas. Funcionam como um revestimento, uma espécie de bilhete de identidade das células, e participam na comunicação e na interação com o sistema imunitário.
Podemos imaginá-los como pequenas árvores que crescem à superfície da célula: nas células saudáveis, essas árvores são bem formadas, com ramos completos e organizados. No cancro, é como se essas árvores ficassem mal desenvolvidas, com ramos incompletos e estranhos.
De facto, em células tumorais aparecem glicanos anómalos, e por vezes encurtados, que normalmente não estão expostos em tecido saudável. No nosso caso, falamos sobretudo do sialil-Tn, um glicano curto, sobre-expresso em cancros agressivos como o do pâncreas, colorretal, ovário, bexiga, pulmão e mama. Estes glicanos não são apenas um marcador passivo pois estão associados à progressão do tumor, às metástases e à capacidade do cancro de escapar ao sistema imunitário. O que o L2A5 faz é reconhecer estas estruturas com grande precisão, transformando-as numa porta de entrada tanto para diagnósticos mais fiáveis como para terapias mais dirigidas.

Quando observaram que o L2A5 se ligava apenas ao tecido tumoral, perceberam imediatamente o potencial da descoberta ou ainda existia algum ceticismo dentro da equipa?
Quando observámos que o nosso anticorpo se ligava ao tecido tumoral e poupava o tecido saudável, percebemos que poderia haver, de facto, potencial terapêutico. Lembro-me bem do entusiasmo nos primeiros ensaios, ainda num grupo pequeno de amostras de cancro da bexiga. Mas mantivemos algum ceticismo – em ciência, isso é fundamental.
A confiança verdadeira só chegou quando testámos o L2A5 num número maior de casos e em diferentes tipos de cancro. Com a equipa coordenada pelo Doutor Lúcio Lara Santos no IPO-Porto, validámos o anticorpo em amostras de cancro colorretal e da mama; e, mais recentemente, com novas parcerias clínicas, conseguimos estendê-lo também ao cancro da próstata e do pâncreas. E aqui surgiu uma observação muito importante: havia uma relação positiva entre a expressão destes glicanos e a agressividade do tumor – o que nos fez antever que o L2A5 pode ser especialmente útil precisamente nos cancros mais agressivos, onde mais faltam opções de tratamento. Por outro lado, com a equipa da Professora Angelina Palma verificamos a sua especificidade contra centenas de diferentes glicanos.
A confirmação final do seu potencial veio quando começámos a explorar o seu potencial terapêutico. Num dos nossos trabalhos, publicado no Blood Cancer Journal, mostrámos que é possível usar o L2A5 para desenvolver células CAR-T por engenharia genética. São células imunes, nomeadamente células T, que são modificadas para incorporar as sequências do nosso anticorpo, capazes de eliminar tumores em modelos experimentais. Foi nesse ponto que percebemos que tínhamos, de facto, uma plataforma com potencial real.

Que impacto poderá esta tecnologia ter, no futuro, para os doentes oncológicos? Estamos, por exemplo, mais próximos de tratamentos mais personalizados e com menos efeitos secundários?
O impacto potencial do L2A5 para os doentes é o de terem acesso a uma terapia com maior precisão, maior personalização e menos efeitos secundários. É exatamente nestas dimensões que esta tecnologia se posiciona como uma resposta concreta ao maior dilema da oncologia que é a especificidade e a eficácia.
Num contexto europeu em que o cancro continua a ser a segunda principal causa de morte, e a primeira para pessoas com menos de 65 anos, este anticorpo oferece uma via para identificar tumores mais cedo, acompanhar a sua progressão e detetar recorrências com maior fiabilidade, o que, em oncologia, é muitas vezes a diferença decisiva no prognóstico.
Com um bom anticorpo abre-se caminho a várias abordagens: como anticorpo terapêutico, capaz de estimular a resposta imunitária; conjugado (antibody-drug conjugates), em que um fármaco é entregue diretamente nas células tumorais; e como ponto de partida para imunoterapias do tipo CAR-T, como referimos antes em que o sistema imunitário do doente é reprogramado para atacar células que exibem este marcador. No seu conjunto, representam uma passagem para uma medicina pensada para cada caso, a dita medicina personalizada. Esta ideia ganha ainda mais força porque observámos uma relação positiva entre a expressão destes glicanos e a agressividade do tumor, o que faz antever um papel particularmente relevante onde hoje mais faltam opções dirigidas. Ao operar sobre um alvo presente nas células tumorais e ausente ou inacessível no tecido saudável, o L2A5 oferece a possibilidade técnica de reduzir toxicidade, com tratamentos potencialmente mais bem tolerados e com menor impacto na qualidade de vida.
Estamos a aproximar-nos de uma medicina mais personalizada, adaptada ao tumor de cada doente. Mas é importante ser rigorosa: o L2A5 é hoje uma plataforma muito promissora, com patente europeia e em desenvolvimento, e o caminho até estar disponível em hospital exige ainda etapas clínicas exigentes – etapas que estão agora a ser percorridas, à escala certa, depois do licenciamento a uma grande empresa terapêutica.

O desenvolvimento desta investigação exigiu vários anos de trabalho e colaboração entre diferentes instituições. Quais os maiores desafios científicos e humanos ao longo deste percurso?
Foram, na verdade, vários desafios, sempre entrelaçados. Do lado científico, o primeiro foi a própria área. A glicobiologia foi durante muito tempo subvalorizada e é tecnicamente muito difícil. Os açúcares tumorais são pequenos, parecem-se com estruturas saudáveis e isso fez com que esforços anteriores, nunca conseguissem a combinação de especificidade e afinidade necessária. O nosso desafio foi quebrar essa limitação histórica.
Do lado humano, o maior desafio foi sustentar uma equipa motivada durante muitos anos, em que a maior parte das experiências falha. A perseverança de colegas como o Carlos Novo, que envolveu muitos alunos, em particular a Liliana Loureiro, primeira autora da nossa publicação fundadora na revista Scientific Reports (Nature), que dedicou inúmeras horas extra, foi essencial para superar os momentos de incerteza.
A isso somou-se um desafio quase ‘fora do laboratório’ – aprender a pensar em patente, em transferência de tecnologia e em desenvolvimento empresarial. No início tivemos de aprender sobre propriedade intelectual e ainda hoje não percebamos tudo. Mas a submissão da patente trouxe “responsabilidade” e a obrigação de “pensar para além do laboratório – como a tecnologia pode ser transferida, escalada ou levada aos doentes. Para muitos cientistas, esta transição é um dos maiores desafios do percurso.

A sua experiência mostra que fazer ciência de excelência já não chega: é preciso transformar conhecimento em inovação clínica e empresarial. Portugal está preparado para apoiar essa transição da investigação para o mercado?
Todo este percurso só foi possível porque a investigação decorreu num ambiente científico sólido e continuado assegurado pela UCIBIO – Unidade de Investigação em Ciências Biomoleculares Aplicadas, a NOVA FCT e a NOVA que contribuem para garantir a continuidade da linha científica apoiaram todo o processo de transferência da tecnologia. É neste ambiente que se consolida o conhecimento fundamental sobre glicobiologia e se gera a massa crítica necessária para transformar descobertas em aplicações concretas.
Não posso deixar de referir o grande desafio que toda a investigação científica em Portugal enfrenta, que é o financiamento. Apesar de conseguirmos financiamento competitivo, com fundos nacionais e europeus (programas como Twinning, Marie Skłodowska-Curie Actions e o European Joint Programme on Rare Diseases), a verdade é que assegurar continuidade em projetos de longo prazo é uma luta permanente. Em Portugal, financiamento competitivo significa, na prática, escrever continuamente candidaturas, em paralelo com a investigação, com taxas de aprovação muito baixas e ciclos curtos. Conseguir construir, durante mais de uma década, uma linha de trabalho contínua foi uma conquista. Para nós, a criação da spin-off CellmAbs, que trouxe investimento, permitiu catapultar a tecnologia mais perto da clínica.
E há o desafio de levar a ideia do laboratório para o mercado. Esse passo, talvez o mais difícil para um cientista, não teria sido possível sem o papel de Nuno Prego Ramos, com quem fundei da CellmAbs. A sua visão foi decisiva na transformação para uma tecnologia com enquadramento empresarial real, capaz de atrair investimento, integrar pipelines clínicos e, capturar interesse por parte de grandes empresas terapêuticas.
Esta experiência na interface ciência‑empresa tem sido reforçada também pelo meu papel como fundadora junto com o Nuno de nova biofarmacêutica, que me permite acompanhar de perto estratégias de desenvolvimento terapêutico e modelos de inovação translacional no setor biofarmacêutico.
É graças a todo este tipo de pontes entre pessoas, esta multidisciplinaridade e espírito de equipa, que uma descoberta académica em Portugal pode aspirar a chegar verdadeiramente aos doentes.

Ser finalista do Prémio Inventor Europeu 2026 representa também um reconhecimento da ciência portuguesa. Acha que a investigação feita em Portugal continua subvalorizada?
Estar entre os três finalistas da categoria Research do European Inventor Award 2026, escolhidos por um júri independente e com critérios muito exigentes, mostra que a ciência feita em Portugal compete ao mais alto nível europeu. Não diria que a ciência é subvalorizada por falta de qualidade, diria que é subvalorizada em escala e em meios. Há problemas estruturais que continuam a pesar muito.
O primeiro é o subfinanciamento crónico, com investimento abaixo da média europeia e tetos limitados em concursos como os da FCT, com contantes incertezas sobre o futuro.
Estamos no ano de maior incerteza após a criação da AI2 (Agência para a Investigação e Inovação), resultante da fusão entre a FCT e a ANI. Encontro-me atualmente a coordenar a Unidade de Investigação UCIBIO e o Laboratório Associado i4HB e lidamos diariamente com dúvidas e apreensão sobre o financiamento e esta nova reforma estrutural. Precisamos de estabilidade e a preservação do financiamento da investigação.
Outro problema relacionado é da precariedade laboral, como bem aponta o manifesto apresentado este mês ‘A Insustentável Leveza da Ciência’, que impede o planeamento a médio e longo prazo e leva muitos investigadores a fazerem carreira fora do país ou leva a projetos a ficarem -se pelo caminho.
Outro problema é a falta de reconhecimento institucional e social. Em várias áreas, desde os ensaios clínicos às humanidades e ciências sociais, a investigação ainda é tratada como atividade acessória, sem carreiras com a devida dignidade.
No nosso caso, conseguimos sustentar mais de uma década de trabalho, com muito muito esforço. Poderíamos ter sido mais rápidos se houvesse mais apoio financeiro e de recursos humanos. A morosidade é contra prudente para a inovação a vários níveis.
Estas nomeações, são também uma oportunidade para mostrar que Portugal continua a ser um país de exploradores de sucesso, tal como o Padrão dos Descobrimentos nos lembra, mas é também uma chamada de atenção que temos de proteger melhor o nosso potencial.

Que próximos passos se seguem para o L2A5?
Passam pelo desenvolvimento pré‑clínico em ambiente industrial. Esta fase inclui a otimização do anticorpo, a realização de estudos regulamentares e a definição das indicações oncológicas onde o alvo é mais relevante. Embora ainda não exista uma data para entrada na clínica, o facto de o L2A5 estar já em desenvolvimento estruturado representa um passo decisivo para transformar esta descoberta numa aplicação real, com potencial para diagnósticos mais precisos e terapias mais dirigidas.
Por outro lado, a investigação fundamental que continua a decorrer na UCIBIO, na NOVA, mantém um papel relevante ao assegurar a base científica contínua que sustenta o avanço da tecnologia e ao apoiar novas linhas de investigação relacionadas com glicanos tumorais e imunoterapia. Esta capacidade de gerar conhecimento estruturante é agora reforçada pela participação da UCIBIO e da NOVA no NOVA_i4SF – o novo Centro de Excelência europeu dedicado à inovação sustentável no desenvolvimento de novas terapias, que nos posiciona num ecossistema europeu orientado para terapias avançadas e para a translação de descobertas científicas em soluções clínicas.