Maria Luís: depois do primeiro ano na Universidade do Algarve o regresso a Lisboa

Segunda parte da entrevista a Maria Luís Oliveira, antiga estudante de Ciências Farmacêuticas na Universidade do Algarve que se mudou para a Universidade de Lisboa e nos conta alguns episódios desses anos.
Frequentou o primeiro ano do curso de Ciências Farmacêuticas na Universidade do Algarve. Como correu esta experiência?
A experiência, a nível pessoal, não correu tão bem quanto eu esperava. Caí de paraquedas em Faro, completamente sozinha, sem conhecer nada nem ninguém, e isso tornou todo o processo bastante difícil. Sinto que nem sempre se fala sobre esta parte, muitas vezes romantiza-se a vida académica, quando, na verdade, para quem vem de um ambiente familiar acolhedor e sempre teve esse suporte por perto, a distância pode ser um choque emocional muito grande. Nem toda a gente sabe lidar com essa mudança, e eu, certamente, tive muita dificuldade. Foi uma luta até ao último dia em que estive naquela universidade. Contudo, deixando de lado essa parte mais pessoal, gostei muito da universidade em si. Fiz amigos incríveis, que ainda hoje fazem parte da minha vida, e apreciei o facto de a universidade ter vários cursos além de Ciências Farmacêuticas. Isso permitiu-me conhecer pessoas de áreas diferentes e ter contacto com outras perspetivas, o que considero bastante enriquecedor.

Quais os aspectos mais positivos que destaca desta Universidade?
Um dos aspetos mais positivos que destaco é o facto de a Universidade do Algarve integrar vários cursos na mesma faculdade, no meu caso, a Faculdade de Ciências e Tecnologias, o que me permitiu conviver com estudantes de áreas muito diferentes e ter contacto com outras perspetivas e formas de pensar, algo que considero extremamente enriquecedor tanto a nível académico como pessoal. Para além disso, o ambiente mais reduzido em termos de número de estudantes foi um grande ponto a favor. No meu ano éramos cerca de 50 alunos, ao contrário de Lisboa, onde chegam a ser quase 300 por ano. Essa dimensão mais pequena permitiu criar uma relação muito mais próxima com os colegas e com os professores, que foram verdadeiramente incríveis e sempre disponíveis para acompanhar o nosso percurso.
E a distância?
Estar tão longe de casa acabou por tornar todo o ano mais difícil, especialmente pela adaptação emocional e logística que isso implicou. Embora a experiência académica tenha sido muito positiva, a distância influenciou bastante a minha estadia ao longo do tempo que estive a estudar na Universidade do Algarve.


Em relação ao alojamento, achou mais complicado encontrar alojamento em Faro ou em Lisboa?
Em termos de oferta, Faro apresentava menos opções disponíveis do que Lisboa. No entanto, quando comparo o custo-benefício, tornou-se mais difícil encontrar em Lisboa um alojamento com condições aceitáveis a um preço razoável. Ou seja, apesar de haver mais opções, a questão económica tornou a procura mais difícil.
Havia residências universitárias com quartos disponíveis na Universidade do Algarve? E em Lisboa, foi possível concorrer às residências universitárias?
Tanto na Universidade do Algarve como em Lisboa existem residências universitárias. No entanto, no primeiro ano, quando ingressei na Universidade do Algarve, não me tinha informado antecipadamente e, por isso, não cheguei a concorrer a um lugar na residência. Em Lisboa, preparei-me com antecedência e candidatei-me à bolsa da DGES, mas não obtive acesso à mesma e, consequentemente, não consegui residir numa das residências universitárias da cidade.
Agora que já completou cinco semestres na FFUL, quais são as maiores diferenças que encontra nestas duas faculdades?
Uma das maiores diferenças é, sem dúvida, o número de alunos. Na FFUL, o curso de Ciências Farmacêuticas tem uma dimensão muito maior, e acabo por conhecer pessoas novas todos os dias. Provavelmente vou terminar o curso sem conseguir reconhecer todas as caras. Já na UAlg, como éramos poucos, cerca de 50 alunos, conhecia toda a gente, havia um ambiente muito mais próximo e a relação com os professores também era mais direta. Outra diferença significativa é o nível de exigência. O nível das unidades curriculares e a carga de trabalho ao longo do semestre são claramente superiores na FFUL. Os professores são mais exigentes e o ritmo é muito mais elevado, o que me obrigou a desenvolver ainda mais a capacidade de gerir o meu tempo e de estabelecer prioridades.

Numa altura em que há muitos licenciados a sair do país, tem pensado nesta hipótese após terminar o curso?
Sim, tenho pensado nessa possibilidade. À medida que avanço no curso e vou conhecendo melhor o mercado de trabalho, percebo que, na área das Ciências Farmacêuticas, nem sempre existem condições ideais em Portugal, seja em termos de oportunidades de progressão e valorização profissional. Isso leva inevitavelmente a refletir sobre alternativas fora do país. Ao mesmo tempo, acredito que, enquanto profissionais de saúde, devemos ser reconhecidos por aquilo que fazemos e pelo impacto que temos na sociedade. Se surgir uma oportunidade no estrangeiro que me permita crescer, aprender mais e ser valorizada pelo meu trabalho, então acho que faria sentido ponderar essa mudança. Claro que a decisão nunca seria fácil, deixar a família, os amigos e tudo o que me é familiar teria sempre um peso enorme. Mas também acredito que, às vezes, sair da zona de conforto é o que nos permite evoluir, tanto pessoal quanto profissionalmente.
No fundo, não encaro a ideia de emigrar como um objetivo fixo, mas sim como uma possibilidade real. Se o futuro trouxer uma proposta que compense o desafio emocional da distância, não excluo essa opção.
E durante o curso, pensa em fazer algum tipo de programa de mobilidade noutra faculdade?
Sim, estou a ponderar fazer Erasmus no meu último ano, quando estiver a realizar a tese. Ainda não sei para que país, porque temos de escolher a partir de uma lista específica e a colocação depende de vários fatores, como a média e o número de vagas. Apesar disso, acredito que será uma oportunidade única. Participar num programa de mobilidade permitir-me-á contactar com novas realidades académicas, conhecer diferentes formas de trabalhar e, acima de tudo, sair da minha zona de conforto, algo que considero essencial para o nosso crescimento pessoal e profissional.
Quais são as vagas que a faculdade oferece?
A faculdade oferece várias possibilidades de mobilidade. A principal é o programa Erasmus, ao qual nos podemos candidatar a partir do 3.º ano. Para além disso, através das unidades curriculares opcionais, temos a possibilidade de escolher disciplinas tanto dentro da própria faculdade como noutras faculdades da Universidade de Lisboa, o que permite explorar áreas diferentes ou complementar a formação.
A lista de opções é bastante vasta e inclui, por exemplo, cadeiras que não fazem parte do plano curricular obrigatório, como Farmácia Hospitalar. Embora considere muito interessante a possibilidade de realizar uma unidade curricular noutra faculdade, acabo por dar prioridade às unidades curriculares do meu próprio curso, porque sinto que são as que mais me vão permitir evoluir e aprofundar na área de Ciências Farmacêuticas.
A Farmácia Comunitária permite uma interacção diária e desafiante com os utentes. Os Farmacêuticos Comunitários deveriam fazer parte da resposta primária aos doentes? De que forma?
Sim, sem dúvida. Os Farmacêuticos Comunitários são frequentemente a primeira linha a que os doentes recorrem. Acredito que deveriam ter um papel ainda mais ativo, com maior autonomia para aconselhar e, quando adequado, dispensar determinados medicamentos, pois são os profissionais de saúde mais qualificados nesta área. O Farmacêutico é formado para avaliar o estado do doente e fornecer orientação segura e fundamentada. Desta forma, os Farmacêuticos Comunitários podem integrar efetivamente a resposta primária aos doentes, contribuindo para o acompanhamento de doentes crónicos, promovendo a adesão à terapêutica e prestando educação em saúde.
Aconselhava o curso de Ciências Farmacêuticas aos alunos do Ensino Secundário?
Sim, sem dúvida. Embora ainda não tenha terminado o curso, posso afirmar com muita certeza que é um curso extraordinário. Integra um conhecimento fascinante, e abre portas para áreas profissionais que muitas vezes nem imaginamos no início. É verdade que é um curso bastante teórico e que inclui uma componente forte de química, o que pode ser desafiante para alguns estudantes. Este curso é especialmente indicado para quem deseja contribuir para a saúde pública, mesmo que muitas vezes de forma indireta. E, na verdade, o facto de os Farmacêuticos conseguirem ajudar tão significativamente a população, mesmo sem estarem sempre na linha da frente, torna o curso ainda mais fascinante para mim.
Quais são os pontos mais fortes do curso da FFUL?
A formação que a FFUL oferece é, sem dúvida, um dos seus maiores pontos fortes. A preparação e o nível de exigência são muito elevados, o que garante que, quando terminamos o curso, estamos realmente preparados para enfrentar o mercado de trabalho. A forte componente laboratorial ajuda-nos a aplicar e consolidar a teoria de forma prática. Para além disso, o curso oferece oportunidades de experiências internacionais, como estágios SEP, Erasmus e outros intercâmbios, permitindo-nos ampliar horizontes e conhecer diferentes realidades na área da saúde.
E os que deveriam melhorar?
Podiam expandir e dar acesso aos alunos a mais estágios extracurriculares, principalmente na área da Indústria Farmacêutica e da Farmácia Hospitalar, que são ótimas oportunidades para contactar diferentes áreas e começar a perceber aquilo de que gostamos mais. Para além disso, seria muito enriquecedor dar aos alunos a oportunidade de acompanhar investigação científica, já que praticamente todos os professores da FFUL a praticam. Também seria útil incluir, no 3º ou 4º ano, uma aula sobre a tese, para desmistificar o processo, reduzir o medo e deixar os alunos mais informados e tranquilos. Por fim, seria importante informar de forma mais clara e acessível como funcionam os programas de estágios, Erasmus e SEP, para que todos possam aproveitar estas oportunidades.




