Durante décadas, a testosterona foi reduzida à sexualidade masculina ou associada a estereótipos relacionados com a força e o desempenho físico. Hoje, entre a banalização nas redes sociais e o crescente interesse pelas terapêuticas anti-aging, importa recuperar uma visão baseada na evidência científica. No livro Testosterona – A Hormona que nos Devolve a Saúde, Sexualidade e Vitalidade, editado pela Contraponto, o médico especialista em Medicina Geral e Familiar e Medicina Desportiva, e com licenciatura em Ciências Farmacêuticas, Bernardo Pessoa propõe uma reflexão sobre o papel desta hormona na saúde, no envelhecimento e na qualidade de vida. Em entrevista à Salus Magazine, explica porque defende uma abordagem personalizada, assente na evidência, e alerta para os riscos da desinformação e das soluções milagrosas.

Um dos pontos de partida deste livro centra-se no alerta para os perigos da banalização da testosterona. Porque é que esta hormona continua a ser tão mal compreendida, tanto pela sociedade como, por vezes, pelos próprios profissionais de saúde?
A testosterona sofreu dois fenómenos ao mesmo tempo. Durante muitos anos foi negligenciada pela medicina e reduzida quase exclusivamente à esfera da sexualidade masculina. Hoje, em sentido oposto, assistimos demasiadas vezes à sua banalização, sendo apresentada como uma solução quase universal para o cansaço, o envelhecimento ou a perda de rendimento. Nenhum destes extremos é onde a Testosterona deveria residir.
A testosterona não é um inimigo nem uma solução milagrosa. É uma hormona com funções fundamentais no organismo, que deve ser avaliada exatamente da mesma forma que qualquer outra: perante sintomas consistentes, contexto clínico e confirmação laboratorial. Foi precisamente para recuperar este equilíbrio que escrevi este livro.
Durante muito tempo, a testosterona foi associada quase exclusivamente à força física, à agressividade ou à sexualidade masculina. Que mitos considera mais importantes desconstruir quando falamos desta hormona?
De muitos destaco três. O primeiro é pensar que a testosterona é apenas uma hormona masculina. Não é. É uma hormona humana, igualmente importante para a mulher, embora em concentrações diferentes. O segundo mito é acreditar que serve apenas para a sexualidade. Hoje sabemos que influencia a composição corporal, a saúde óssea, o metabolismo, a função cognitiva, a energia, a motivação e a qualidade de vida. E o terceiro é imaginar que mais testosterona significa necessariamente mais saúde.
Isso simplesmente não é verdade. Na medicina, o objetivo nunca é ter mais hormonas; é ter o equilíbrio hormonal adequado para cada pessoa.
A testosterona atua praticamente em todos os grandes sistemas do organismo. No cérebro influencia a motivação, o humor, a iniciativa, a resiliência, a funcionalidade cognitiva e a libido. No músculo contribui para preservar massa e força muscular. No osso ajuda a manter a densidade mineral. No metabolismo participa na regulação da composição corporal e da sensibilidade à insulina. exige tratamento, respeito e continuidade.
Que papel desempenha a testosterona no equilíbrio global do organismo e de que forma influencia dimensões como a saúde cardiovascular, a saúde mental, o metabolismo ou a qualidade de vida?
A testosterona atua praticamente em todos os grandes sistemas do organismo. No cérebro influencia a motivação, o humor, a iniciativa, a resiliência, a funcionalidade cognitiva e a libido. No músculo contribui para preservar massa e força muscular. No osso ajuda a manter a densidade mineral. No metabolismo participa na regulação da composição corporal e da sensibilidade à insulina.
Sabemos também que homens com hipogonadismo estão mais susceptíveis a desenvolver síndrome metabólica, diabetes tipo 2, obesidade visceral o que, consequentemente, acarreta um risco cardiovascular aumentado. Isto não significa que a testosterona seja um tratamento para todas estas doenças. Significa apenas que faz parte de um sistema biológico muito mais complexo do que durante muitos anos imaginámos.
Tem-se assistido a um aumento da procura de terapêuticas relacionadas com a testosterona, impulsionado pelas redes sociais e pelas abordagens anti-aging. Estamos perante uma maior consciencialização ou existe o risco de “medicalizar” situações que fazem parte do envelhecimento natural?
Os dois fenómenos estão a acontecer ao mesmo tempo. É positivo que hoje se fale mais de saúde hormonal. Mas também existe o risco de socialmente transformarmos alterações fisiológicas do envelhecimento numa doença que exige tratamento. O papel do médico é precisamente distinguir essas situações. Nem toda a testosterona baixa precisa de tratamento. E nem toda a pessoa cansada tem testosterona baixa. O diagnóstico continua a depender da conjugação entre sintomas, exame clínico e confirmação laboratorial. A medicina deve individualizar, não generalizar.
A diminuição dos níveis de testosterona associada à idade é inevitável? Em que situações deve um homem procurar avaliação médica e quais são os sinais de alerta que não devem ser ignorados?
Existe um declínio fisiológico ao longo da vida, isso está bem demonstrado e é expectável. O problema é assumir que qualquer sintoma associado à idade faz parte desse processo e deve simplesmente ser aceite.
Quando um homem apresenta perda persistente da libido, disfunção erétil, diminuição da força muscular, aumento da gordura abdominal, fadiga inexplicável, pior recuperação física, menor motivação ou alterações cognitivas, faz sentido investigar. Pode não ser testosterona. Pode ser uma doença da tiroide, uma apneia do sono, obesidade, depressão, diabetes, défices nutricionais entre os outros dos incontáveis diagnósticos médicos. Mas precisamente por isso merece uma avaliação médica competente.
Quando um homem apresenta perda persistente da libido, disfunção erétil, diminuição da força muscular, aumento da gordura abdominal, fadiga inexplicável, pior recuperação física, menor motivação ou alterações cognitivas, faz sentido investigar. Pode não ser testosterona. Pode ser uma doença da tiroide, uma apneia do sono, obesidade, depressão, diabetes, défices nutricionais entre os outros dos incontáveis diagnósticos médicos. Mas precisamente por isso merece uma avaliação médica competente.
No livro aborda a influência do estilo de vida na saúde hormonal. Que evidência científica existe atualmente sobre o impacto do sono, da alimentação, da atividade física, do stress ou da obesidade nos níveis de testosterona?
Hoje existe evidência muito consistente de que o estilo de vida influencia profundamente a função hormonal. Dormir pouco reduz a produção de testosterona. A obesidade aumenta a aromatização e reduz testosterona livre. O exercício de força melhora a composição corporal e ajuda a preservar a função hormonal. A perda de gordura visceral pode aumentar significativamente os níveis de testosterona em muitos homens. Uma alimentação adequada, a redução do consumo excessivo de álcool e o controlo das doenças metabólicas também desempenham um papel importante. É precisamente por isso que, na minha prática clínica, a primeira intervenção raramente é uma receita. É sempre uma intervenção sobre os estilos de vida. A terapêutica hormonal surge apenas quando essa otimização já foi feita e continua a existir indicação clínica.
Numa perspetiva prática, que estratégias baseadas na evidência recomenda para promover níveis saudáveis de testosterona e, simultaneamente, contribuir para um melhor equilíbrio global do organismo e para um envelhecimento mais saudável?
A primeira estratégia é dormir melhor. Provavelmente continuamos a subestimar o impacto do sono na saúde hormonal. A segunda é preservar ou aumentar massa muscular através de treino de força regular. A terceira é reduzir gordura visceral. Depois, mas não menos importante, vem uma alimentação equilibrada, ingestão adequada de proteína, correção de défices nutricionais quando existem, suplementação individualizada e gestão do stress. Parece pouco inovador. Mas continua a ser aquilo que produz maior benefício sustentado. A longevidade não se constrói com atalhos. Constrói-se com hábitos consistentes.
Tal como refere no livro, a investigação sobre a testosterona continua a evoluir. Que descobertas ou áreas de investigação considera mais promissoras para compreendermos melhor o papel desta hormona na saúde humana nos próximos anos?
Estamos numa fase muito interessante da investigação. Nos últimos anos, surgiram estudos muito robustos que vieram esclarecer dúvidas importantes relativamente à segurança cardiovascular da terapêutica quando corretamente indicada. Acredito que os próximos anos vão aprofundar sobretudo quatro áreas. Primeiro, perceber como podemos personalizar ainda mais a terapêutica hormonal, identificando quais os doentes que têm maior probabilidade de beneficiar e quais as estratégias de tratamento mais adequadas para cada perfil clínico. Segundo, o papel da testosterona na mulher, uma área ainda claramente subinvestigada. Terceiro, a interação entre testosterona, inflamação crónica, obesidade e doenças metabólicas. E, finalmente, perceber de que forma a otimização hormonal pode contribuir não apenas para aumentar anos de vida, mas sobretudo anos de vida com qualidade. Porque esse é, no fundo, o verdadeiro objetivo da medicina.





