Aura Vaz: Uma Farmacêutica no Entroncamento

Aura Vaz: Uma Farmacêutica no Entroncamento

Licenciou-se na Universidade da Beira Interior, trabalha como Farmacêutica Substituta na Farmácia António Lucas, no Entroncamento, e tem desenvolvido uma atividade artística muito interessante em aguarela, com vários projectos e alguns prémios. Além destas componentes e do tempo dedicado à família, ainda consegue correr pelo clube Thomar Athletics e participar em provas de Trail Running.

Trabalha a tempo inteiro numa farmácia comunitária e mantém uma actividade artística como pintora e ilustradora. Como é que concilia estas duas vertentes? Com uma combinação de horários por turnos e apoio familiar consigo conciliar estas duas vertentes. Mas mesmo assim o tempo é apertado e não se conseguem concretizar todos os projetos artísticos que se anseiam!

Quando é que começou a dedicar-se à pintura? O gosto pelo desenho e pintura remonta à infância. Já em criança aprendi a pintar a óleo num atelier em Tomar, com a professora Ana Maria Antunes. Mais tarde, já depois do nascimento da minha filha, surgiu o gosto pela aguarela, técnica que comecei a explorar em 2016.

Mesmo sendo autodidacta, chegou a fazer cursos ou participar em oficinas de aguarela? Participei num workshop de aguarelas no Encontro Internacional de Aguarelistas de Montemor o Novo em 2024, com a mestre Júlia Barminova. No entanto, todo o percurso tem sido autodidata, e o desenvolvimento da técnica tem sido feito através da observação de diversos vídeos de pintura (sobretudo reels ou vídeos de time-lapse) provenientes de diversos artistas, pois as técnicas usadas na aguarela são inúmeras e proporcionam estilos e efeitos muito distintos. É uma técnica muito desafiante e versátil.

Qual é a importância da pintura na sua vida?

Encaro a pintura como uma forma de expressão, como se estivesse a escrever através de traços e cores. É uma atividade libertadora e está intimamente ligada ao meu bem-estar emocional. Ao mesmo tempo desafia-me a superar-me cada dia. O feedback que recebo das minhas pinturas é muito importante para mim, pois essa forma de expressão é igualmente um meio de comunicação para com os demais que as observam.

Há uma pintura sua com claras ligações à obra de Paula Rego. Foi um tributo à pintora ou apenas um exercício?

A pintura do meu portefólio dedicada a Paula Rego, intitulada “Imaginário Perpétuo, 2023” foi a resposta a um desafio que me foi proposto como forma de tributo à pintora que tanto admiro. A imagem foi publicada na data de aniversário da artista, na página de fãs do Facebook, onde são divulgadas as diversas exposições e eventos que ainda hoje se realizam sobre a vida e obra da pintora, a nivel nacional e internacional.

Quais são os pintores portugueses que mais admira? Para além de Paula Rego, são inúmeros os artistas portugueses que admiro, destacando Maria de Lourdes de Mello e Castro (antiga pintora Tomarense), José Malhoa (mestre desta última), Manuel Cargaleiro, Nadir Afonso, Amadeo de Souza Cardoso.

E as suas maiores referências? Wassily Kandinsky, como grande influência do abstrato e Van Gogh como a referência para o imaginário sonhador aplicado na paisagem e na arquitetura. Como referências a nível da aguarela, destaco os mestres aguarelistas Thierry Duval, João Cabral, Carlos Marques, António Bártolo, Manuel Lopes e Júlia Barminova.

Que formas de divulgação prefere para as suas obras? A divulgação é feita sobretudo a nível das redes sociais Facebook e Instagram, no entanto, é através das exposições que alcanço mais público.

Já participou em concursos? Por duas vezes participei no concurso de pintura ao ar livre em Constância, em 2022 e 2023, tendo alcançado um 2º lugar e Menção Honrosa, respetivamente.

As ilustrações do guia turístico de Santa Comba Dão são da sua autoria. Como surgiu esta oportunidade?

Graças à divulgação dos meus trabalhos ao nível das redes sociais, os mesmos chegaram à mão de um dos autores dos guias turísticos da Editora FogeComigo!. Foi dos mais gratificantes desafios a nível de ilustração que já tive, e foi uma honra poder ver as minhas pinturas presentes neste guia de exímia qualidade.

Tem outros projectos em preparação? Por agora estou a terminar alguns projetos pendentes, tendo já em vista a ilustração de alguns contos a serem publicados em livros, a pintura de uma colecção de Castelos da região Centro, entre outros!

Onde podemos encontrar os seus trabalhos e fazer encomendas? O meu portefólio encontra no Instagram em @auravazart

Concluiu a licenciatura em Ciências Farmacêuticas na Universidade da Beira Interior. Esta foi a sua primeira opção no concurso de acesso?

Não foi a minha primeira opção, pois na altura havia, e continua a haver, uma grande pressão social e fascínio pelo curso de medicina, que foi a minha primeira opção. No entanto, hoje sou grata pela escolha que tomei em embarcar no mundo farmacêutico.

Durante a licenciatura pensou em fazer investigação, teve contacto com a Indústria ou com outras áreas afins?

Durante a licenciatura cheguei a auxiliar uma colega de investigação na área da bioquímica, mas foi a área da química farmacêutica e docking computacional que mais gosto me trouxe e me levou a escolher o tema central da tese, que foi a descoberta e desenvolvimento de análogos da estrona com potencial tratamento no cancro da mama. Tal fez com que passasse vários meses em ambiente laboratorial e de investigação. Ainda ponderei seriamente ingressar a indústria na área da investigação, nomeadamente na síntese molecular.

Como foram os seus estágios curriculares? Para além do estágio em investigação laboratorial, apenas estagiei em Farmácia Comunitária, na Farmácia Sant’Ana na Covilhã.

Ponderou Farmácia Hospitalar? O curto contacto de dois dias que tive em Farmácia Hospitalar, durante o meu terceiro ano de estudos, fez-me tomar consciência de que essa não seria a área na qual me sentiria realizada profissionalmente, embora seja uma área profissional que atrai bastantes colegas.

Durante a licenciatura passou um semestre em Santiago de Compostela ao abrigo do Programa Erasmus. Quais foram as diferenças que encontrou na Universidade de Santiago em relação à UBI? Fiquei com a impressão de que o método de ensino em Portugal era mais exigente do que em Espanha. O nosso domínio de línguas em geral (por exemplo inglês) é amplamente superior, e o método de Bolonha, que estava a começar a ser implementado no nosso país nessa altura, exigia um método que estimulava mais o estudo e a resolução de problemas em grupo e em equipa.

E pode dizer-nos o que gostou mais na própria cidade? E ao nível artístico, trouxe referências consigo daquela estadia? Do que mais gostei de Santiago foi a História implícita, o espírito de peregrinação. É uma cidade muito rica culturalmente, muito animada e que atrai muito turismo. A nível artístico não trouxe referências, pois nessa altura a minha prioridade máxima era o estudo.

Pensou em emigrar? Ponderei emigrar, até porque na altura as ofertas de emprego e condições salariais eram precárias. Sair para o mercado de trabalho em plena crise económica e encontrar emprego na área era um desafio. No entanto, por motivos familiares, mantive-me em Portugal.

Como foi o seu percurso profissional até chegar à Farmácia António Lucas no Entroncamento?

A minha experiência profissional começou em Viana do Castelo, na Farmácia Central, onde trabalhei durante 5 anos e consolidei as minhas bases em Farmácia Comunitária. Sou muito grata pelo acolhimento e ensinamentos que tive por parte da equipa que muito me apoiou durante estes anos de trabalho em plena crise económica que teve profundo impacto na solidez financeira de diversas Farmácias. Esta foi uma delas, onde o esforço, dedicação e sacrifício de todos foi fundamental para a manutenção e reforço da solidez da empresa. Continuei o meu percurso profissional já na área de residência familiar, na Farmácia António Lucas, onde trabalho desde 2018 e onde fui muito bem acolhida por toda a equipa e pelo meu Gestor, Artur Rodrigues. O ambiente de trabalho e uma boa liderança são muito importantes para o nosso bem estar laboral, e são essas qualidades que tenho encontrado diariamente na minha farmácia.

Quais os pontos mais positivos no trabalho em Farmácia Comunitária?

A proximidade do contacto com o público, o poder ajudar o utente com um aconselhamento ou uma palavra. Sentir que posso fazer a diferença e trazer um dia mais feliz a quem passa na farmácia, é a maior satisfação que posso levar do meu trabalho.

E as maiores dificuldades?

Ao mesmo tempo que o contacto com o público pode ser a fatia mais contribuidora para um emprego feliz, também estamos sujeitos a uma grande pressão. A vida corre mais rápido, as dificuldades e desigualdades são cada vez mais visíveis, há uma ansiedade generalizada palpável nossa sociedade e isso reflete-se no comportamento da população em geral. A gestão de conflitos ao balcão é cada vez mais notória. Para além disso há uma sobrecarga de responsabilidades e burocracias cada vez mais evidente no nosso dia-a-dia, a juntar à escassez de profissionais qualificados, o que espelha muito do que se está a verificar a nível do SNS. Ao mesmo tempo que podemos fazer parte no alívio da pressão a que o nosso SNS está sujeito, devem ser garantidas todas as condições de trabalho, nomeadamente o bem-estar e saúde psicológica dos profissionais de farmácia.

A presença de farmacêuticos ao balcão é uma das mudanças mais importantes da nossa profissão, mas as várias horas em pé têm consequências para a saúde. Como é que esta questão é encarada nas farmácias por onde passou?

A falta de profissionais nas farmácias por onde passei, seja por escassez de pessoal qualificado, seja por dificuldades económicas, levam a que os atendimentos sejam efetuados com a melhor relação qualidade de atendimento /tempo de atendimento. As consequências para a saúde a médio/largo prazo são notórias, e todos nós deveremos conhecer um ou vários colegas já submetidos a cirurgias venosas. Tento prevenir tais dificuldades praticando desporto (caminhada/corrida) e usando calçado confortável, recorrendo ocasionalmente às meias de descanso.

Estão a ser estudadas formas de acesso dos Farmacêuticos a alguns dados clínicos dos utentes, de modo a poder intervir junto de utentes sem Médico de Família e sem prescrição válida para a medicação crónica. Também estão no horizonte alguns protocolos de dispensa de MSRM em situações previstas, como Infecções Urinárias agudas. Estas são formas de diminuir a pressão sobre o SNS e de integrar exemplos bem sucedidos noutros países, como em Inglaterra. De que forma estas medidas poderão contribuir para a autonomia e responsabilização dos Farmacêuticos por este serviço?

Estas medidas são de saudar e sou defensora das mesmas há largos anos. Creio que algumas destas medidas poderão aliviar largamente a pressão sobre o SNS sem colocar em causa um acréscimo de horas de trabalho para os profissionais de farmácia comunitária. No exemplo da renovação da prescrição crónica, se tivermos em conta que atendemos um utente que necessita urgentemente de uma medicação crónica para a qual terá de pedir receita, num atendimento esta questão poderá ficar concluída, evitando a deslocação ao centro de saúde, envolvimento burocrático de vários profissionais para a emissão da receita em falta (como os profissionais administrativos, médico) e, por fim, evitando uma nova vinda à farmácia para regularização da venda. Tendo acesso ao histórico clínico do doente, e avaliando no momento a estabilidade terapêutica, até à ida agendada ao médico, poderemos marcar a diferença pela positiva.

Relativamente à dispensa de MSRM, que poderá cair no aconselhamento farmacêutico em situações clínicas ligeiras, os farmacêuticos, com a devida formação técnica e científica, atuando sob base de protocolos bem articulados com a comunidade médica, terão todas as condições para abraçar com segurança estes desafios. Para isso, nada melhor que aprender com os exemplos bem sucedidos nos outros países, tentando extrapolar paulatinamente os mesmos métodos para as farmácias portuguesas.

Além de Farmacêutica, pintora/ilustradora com obra publicada, ainda tem tempo para o atletismo, no clube de atletismo Thomar Athletics. Pode revelar-nos o seu segredo para a gestão de tempo?

O atletismo e o desporto tornaram-se a minha prioridade máxima em termos de hobbie, dado os benefícios inequívocos que trouxeram à minha saúde, nomeadamente a normalização da frequência cardíaca em repouso, gestão de problemas de ansiedade/burnout e depressão e problemas circulatórios (as desagradáveis dores de pernas). Nos dias em que não treino, dedico-os à pintura e desenho. Como mencionei acima, tal é possível com os horários por turnos e apoio familiar. A gestão de tempo é apertada e feita muitas vezes ao minuto, estando tudo organizado e encaixado por blocos de horas/minutos. Quando há um imprevisto inadiável ou um atraso no trabalho, por vezes significa cancelar um treino agendado. Outras vezes, especialmente no verão, opto por iniciar um treino de corrida às 6h da manhã (levanto às 5h30), tendo depois todo o dia livre ou para ir trabalhar. As tarefas domésticas não prioritárias são deixadas de parte e realizadas quando há mais tempo disponível. Troquei as antigas duas horas diárias no sofá, onde via filmes e séries por uma rotina ao ar livre e mais produtiva, mas vale a pena pela saúde e bem-estar físico e psicológico! Com força de vontade conseguimo-nos surpreender!

Quais são as vantagens da vida fora dos grandes centros urbanos?

Sem dúvida o contacto com a natureza, pouca poluição atmosférica e a rapidez de deslocação entre os diversos locais do dia-a-dia.

Como é que passa as suas horas livres?

Com a minha filha, família e amigos! Em casa, gosto muito de cozinhar, testar receitas novas (muitas delas vegetarianas) e partilhá-las com a família. A participação na vida religiosa também é parte importante da minha vida, pelo que semanalmente participo na Eucaristia e faço parte da Associação da Medalha Milagrosa de Tomar.

Aconselhava o curso de Ciências Farmacêuticas aos candidatos ao Ensino Superior? Se há um gosto marcado pela saúde, química orgânica, cosmética, assuntos regulamentares, vontade de inovar… sim! Ciências Farmacêuticas é um curso tão versátil! Tudo depende da área de especialização!

A nível profissional, quais são os seus planos a médio prazo? Desejo manter-me em Farmácia Comunitária e aumentar os meus conhecimentos formativos a nível comportamental, nutrição, cosmética e situações clínicas.

Entrevista: Tiago Patrício

Rubrica – Farmacêuticos Fora da Cápsula