Nesta segunda parte da entrevista a Jorge Silveira, atual Director de Procurement do Sport Lisboa e Benfica, continuamos a lembrar o seu percurso com passagens, por exemplo, pela Associação Nacional das Farmácias, em projetos de âmbito de Farmácia Comunitária ou até mesmo uma experiência por terras de Angola.

O curso de Ciências Farmacêuticas foi a primeira escolha no acesso à Universidade?
Ciências Farmacêuticas era a minha última opção. Antes, tinha as quatro Medicinas: Campo Santana, Santa Maria, Coimbra e Porto. Depois, ainda tinha Veterinária e, no final, Ciências Farmacêuticas em Lisboa. Já nem me recordo bem porque é que assinalei Ciências Farmacêuticas como opção. Mas estava muito focado em Medicina e tinha uma média muito boa do 12.º ano. Mas, as provas específicas não correram bem e a minha média baixou. Não entrei em Medicina por um largo intervalo.
Já existiam as famosas Farmos?
Eu participei nas Farmos desde o meu primeiro ano. A primeira a que fui ocorreu em São Pedro do Sul, em 1993. Era um momento alto da faculdade porque, no
fundo, juntava-se muita gente da faculdade num sítio diferente do habitual. Existia a Farmo de verão e a de inverno, ou seja, duas vezes por ano. E também havia a Tuna da Faculdade de Farmácia, a TAFUL, da qual fez parte e que ficará para a próxima entrevista.


E a vida como recém-licenciado?
Entrei na Associação Nacional das Farmácias a seguir ao estágio, em 1999, e nessa altura, o desafio era implementar o novo software que se chamava “Sifarma 2000” e que precisava de um grupo de pessoas para dar formação às farmácias. Era uma espécie de task force. A ideia era preparar a migração do Sifarma Clássico para o Sifarma 2000. Inicialmente, éramos quatro: o Celso Vieira (também era da Tuna), a Sandra Madaleno, a Sónia Afonso e eu. Como ainda existiam funcionalidades a desenvolver, passámos a ser uma equipa de desenvolvimento e formação. Ou seja, a nossa equipa fazia as especificações do sistema, das funcionalidades, definíamos como era o ecrã, onde se posicionavam os botões para que as Farmácias pudessem gerir as suas atividades (Atendimento, Encomendas, Gestão de Lotes), etc.
Finalmente é revelada a paternidade do Sifarma 2000!
É verdade. Pelo menos, parte dela. Recentemente, entrei numa farmácia que usava o Sifarma 2000 e reconheci perfeitamente um dos ecrãs que ajudei a construir. Foi esta equipa que, no fundo, definiu a base do que depois se tornou o SIFARMA 2000. Na altura, existia já muito o foco no Serviço e Aconselhamento Farmacêutico. E, numa primeira fase, a ideia era que o próprio sistema pudesse ter o registo dos dados dos utentes. Depois houve algumas questões com a Comissão Nacional de Proteção de Dados devido aos dados históricos dos utentes o que limitou algumas das ideias existentes. Mas, de qualquer forma, tentámos criar a funcionalidade para responder a esse desafio.
Durante o seu percurso havia pessoas que achavam que era filho do Bastonário João Silveira?
Na faculdade nem por isso, porque eu era mais ou menos contemporâneo dos dois filhos do Bastonário. O João Silveira era o mais velho, do ano da minha mulher. E o Zé Maria era uns três ou quatro anos mais novo. Portanto, na faculdade não havia essa confusão, mas a partir do momento em que eu entro no mundo laboral, instalava-se, por vezes, a dúvida. Com muita frequência, tinha reuniões com laboratórios ou com empresas do ramo farmacêutico e a primeira pergunta que me faziam era: “Desculpe, por acaso não é filho do Dr. João Silveira?”
Em resposta, dizia, com muito orgulho, que o meu pai era pintor de azulejos. Depois até acabei por ter algumas reuniões com o antigo bastonário. Era um homem extraordinário, sempre muito disponível para nós, acabados de sair da faculdade. Havia um projeto na ANF que consistia em desenvolver os circuitos de atendimento dentro de uma farmácia. O Dr. João Silveira disponibilizou alguns momentos para a nossa equipa, onde, à volta de uma mesa com um mapa de possibilidades, se discutia de forma construtiva essa visão alinhada.
Como foram esses primeiros tempos na Associação Nacional das Farmácias (ANF)?
Na altura, diria que existiam três grandes figuras do mundo farmacêutico: o Dr. José Aranda da Silva no Infarmed, o Dr. João Silveira como bastonário e o Dr. João Cordeiro como presidente da ANF. Eram estas as figuras que tínhamos como referência, sempre com o foco no desenvolvimento, na inovação e na qualidade dos serviços prestados pelas farmácias e pelos farmacêuticos. Sempre ouvi dizer que o primeiro sítio onde as pessoas viram computadores em Portugal foi numa Farmácia. Tudo o que existe hoje numa Farmácia, a nível tecnológico, farmácias, demonstra bem essa capacidade de criar diferença e de inovação do sector farmacêutico. Efetivamente, posso dizer que fiz parte dessa história a determinado momento, nesses primeiros tempos na ANF e depois na Consiste.
Como foi a experiência em Farmácia Comunitária?
Eu só trabalhei em farmácia comunitária durante o estágio, numa farmácia quase ao pé de casa: a Farmácia Líbia na Avenida da Igreja, em Lisboa. Era excelente, em termos de dinâmica e de atendimento. A Diretora Técnica era a Dra. Gabriela, mas recordo-me bastante bem da D. Isilda, do Sr. Eduardo, do Sr. Manuel e do Sr. João. Ainda sou do tempo em que se cortavam as vinhetas nas caixas e colavam-se no verso das receitas. O software na altura já ajudava em alguma coisa, mas era quase tudo feito à mão. E depois tínhamos de fazer a entrega das receitas das entidades complementares: do Sindicato dos Bancários, da Câmara de Lisboa, das Forças Armadas. Notável a evolução que existiu até aos dias de hoje!
E o contacto com a Farmácia Hospitalar?
Estagiei na Farmácia do Hospital Pulido Valente, que também era relativamente perto da minha casa. A minha vida era toda ali por Alvalade. Até os 34 anos, vivi sempre no mesmo sítio, ao pé da Avenida da Igreja. A minha escola primária e o meu infantário eram naquele bairro. O preparatório foi na Eugénio dos Santos e a secundária foi no Rainha D. Leonor, por trás da Avenida de Roma. A Faculdade de Farmácia que, na altura, era na Avenida das Forças Armadas, também era próxima. Ia quase sempre a pé, só quando o autocarro aparecia é que aproveitava para não ter de fazer aquela subida.
Do Pulido Valente, lembro-me da Farmacêutica Stela. Foi talvez a pessoa que mais me marcou nesses dois meses de estágio, porque tinha o cuidado de chamar os estagiários para fazer a validação da medicação que seguia para os serviços. E, enquanto fazia a conferência, ia perguntando: “Então, isto é o Captopril. Diz-me lá qual é o mecanismo de ação?” Esses dois meses com a Stela serviram para sedimentar aqueles conceitos todos que aprendíamos na faculdade.
Houve oportunidades para trabalhar fora do país? Como foi a experiência?
Comecei em Angola e vivi lá três anos, entre 2008 e 2011. O Grupo Quilaban implementou-se em alguns países e eu fiz a coordenação das Empresas Internacionais do Grupo até 2022. Estávamos também em Moçambique, na Guiné-Bissau, na Índia. Em Angola e Moçambique, as maiores dificuldades que encontrei foram logísticas e de infraestruturas. No período em lá vivi, existia muita esperança de crescimento económico. Angola é um país com um grande potencial, com pessoas fantásticas, em termos de vontade de viver e de capacidade de ultrapassar desafios, mas com muitas dificuldades em termos de infraestruturas. Durante aqueles três anos, o fornecimento de luz elétrica era muito complicado: tínhamos de recorrer ao gerador mais de 80% do tempo, quer fosse no escritório, quer fosse em casa.
Mas durante aqueles anos, Angola cresceu, o preço do barril de petróleo subiu e as empresas portuguesas aproveitaram para entrar no mercado angolano. Em 2016/2017, houve uma crise financeira brutal que deitou abaixo muita da esperança que existia de que o crescimento se efetivasse para o futuro. Foram anos muito desafiantes. Apesar de tudo, considero que conseguimos fazer coisas extraordinárias, ajudando a formar pessoas e criando um projeto sustentável para servir as necessidades da população angolana. Isso era das coisas que me dava mais gozo, muito pela dedicação das pessoas, quer fossem portuguesas, quer fossem angolanas. O próprio Dr. João Cordeiro, acionista principal do Grupo Quilaban, nunca pensou em Angola como um negócio temporário, mas sempre num projeto de longo prazo. E ainda hoje a empresa continua, decorridos 19 anos. Posso dizer que este projeto em Angola foi a experiência mais enriquecedora que tive, em termos pessoais e em termos profissionais. Foi nesses momentos que consegui desenvolver uma das minhas melhores características: ser um “todo-o-terreno”, construir equipas, criar estruturas.



