Manuela Resendes: entre a Farmácia Hospitalar e a Literatura

Manuela Resendes: entre a Farmácia Hospitalar e a Literatura

Nasceu na ilha de Santa Maria, fez os estudos secundários em São Miguel e licenciou-se em Ciências Farmacêuticas em 1989, na Universidade de Lisboa. É especialista em Farmácia Hospitalar desde 1999 e exerce funções nos Serviços Farmacêuticos do Hospital do Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada. Colabora com as rádios Atlântida e R80 com a rubrica de prosa poética: “Alquimia das Palavras”. E em 2022 lançou o seu primeiro livro: “Anatomia do Quotidiano”.

Durante o lançamento do livro “Anatomia do Quotidiano” na Biblioteca Municipal de Vila do Porto (Santa Maria)
Gabinete de Assessora do Conselho de Administração do Hospital do Divino Espírito Santo.

A par do intenso trabalho como Farmacêutica Hospitalar mantém uma actividade literária, escreve em blogs, tem programas em duas rádios açorianas, publicou um livro, participa em campeonatos de escrita criativa. Como é que concilia estas duas vertentes?

A conciliação entre todas as atividades que desenvolvo, mesmo se aparentemente contrastantes, é algo que emerge naturalmente da retribuição afetiva que elas me dão. Tenho, assim, uma relação biunívoca com essas atividades, em que verdadeiramente o prazer que me dão quando as desenvolvo alimenta a minha vontade de ir sempre mais além. Alguns dos programas podem ser ouvidos no sítio da Rádio Atlântida.

Ao contrário da classe médica (que criou uma Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos e até uma União de Médicos, Escritores e Artistas Lusófonos), a classe farmacêutica não tem uma relação com a literatura tão organizada ou evidente. Alguns colegas dizem a brincar que a nossa ligação com as letras têm apenas que ver com a “literatura” inclusa nas embalagens, conhecida por bula ou RCM. Como é que contrariou esta ideia e iniciou o seu percurso literário?

Sempre tive uma ligação profunda com a leitura e a escrita. Provenho de uma pequena freguesia, numa pequena ilha dos Açores (peço desculpa pelo pleonasmo) e, muito antes de sonhar ser farmacêutica, a antecipação da chegada da biblioteca itinerante era até inebriante. Por outro lado, a leitura trouxe acoplada a vontade de escrever, que julgo serem indissociáveis, e, portanto, o que designa como o meu percurso literário, mesmo que curto, tem raízes já antigas. Contudo, conheço outros colegas que também têm como hobby a leitura e a escrita, ou mesmo uma ligação a outras formas de arte, pelo que realmente o que falta é a dinamização e estruturação de alguma forma de encontro entre todos.

Podem encontrar novidades no blog

Página inicial do blog da autora: www.saudeaçores.com

Considera que a insularidade está presente na sua obra? De que forma?

Como referi anteriormente, nasci e vivi na ilha de Santa Maria, até vir estudar para uma ilha maior (São Miguel), e depois para Lisboa. Senti, desta forma, o efeito sucessivo da alteração da escala do território em que decorre a nossa vida quotidiana, mas subsistem em mim, e naturalmente transparecem na minha escrita, algumas características inerentes a quem viveu num meio mais isolado e, como eu gosto de dizer, batido pelas ondas do mar, como por exemplo a resiliência.

 Sessão de lançamento do livro “Anatomia do Quotidiano” na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada (São Miguel)

Há algum escritor açoriano que a inspire particularmente e que gostasse de sugerir aos nossos leitores?

Há escritores açorianos que me marcaram, e em resposta imediatamente me ocorrem nomes de gerações diversas, como Antero de Quental, Vitorino Nemésio ou João de Melo, entre outros. Contudo, sugeria a leitura de um livro muito recente, intitulado “Passagem Noturna”, de Leonor Sampaio da Silva, que inclusivamente foi finalista do prémio Leya em 2023. Aconselho esta obra pois nela ressoam algumas das problemáticas atuais da nossa sociedade, e dos Açores em particular, num contexto em que a insularidade vai também, de alguma forma, enquadrando toda a trama.

Quais são os autores da chamada “Literatura Universal” que mais admira?

Admiro muitos autores com alcance universal, mas em jeito de seleção apontaria Dostoiévski e Eça de Queiroz, cujas obras revisito periodicamente. Mais recentemente, embora não tenha ainda um reconhecimento universal, que só provavelmente a passagem do tempo trará, referiria a escritora franco-marroquina Leila Slimani.

Concluiu a Licenciatura em Ciências Farmacêuticas em 1989. A Faculdade de Farmácia de Lisboa ainda funcionava nos antigos edifícios com cobertura de amianto e com uma biblioteca muito pequena no famoso “Castelinho”. Como é que se estudava e se realizavam as apresentações sem as actuais facilidades no acesso aos livros e aos artigos científicos?

Eram definitivamente outros tempos, e estudar implicava o recurso às ferramentas da época: as fotocópias, os acetatos para as apresentações, as sebentas e muitas idas à biblioteca. Por outro lado, existiam menos distrações, pelo que o nosso foco era mais dirigido. Cada geração terá com toda a certeza os seus desafios na aprendizagem, e para os vencer é necessário capacidade de adaptação e o domínio das ferramentas contemporâneas. Sei que hoje os desafios são outros, como a inteligência artificial, mas o ensino farmacêutico, apesar de todos os avanços, assenta numa base de conhecimento que, lecionada de uma forma ou outra, será similar.

Como era a vida social na Faculdade?

Provavelmente não seria tão diversificada como será hoje. Contudo, como decorre de os estudantes serem jovens na flor da idade, naturalmente que existiam vários momentos de convívio entre todos, muitos do quais organizados pela então associação de estudantes.

Em que zona de Lisboa vivia? Era fácil encontrar casa naquela altura?

Vivia relativamente próximo da Faculdade, nomeadamente numa residência de estudantes localizada na Avenida Estados Unidos da América. Seguramente seria mais fácil arranjar casa em Lisboa naquela altura, mas optei pela residência por esta permitir uma maior estabilidade, e até segurança, a quem se encontrava deslocado.

Frequentava o teatro, leituras de poesia?

Sempre procurei alimentar o meu espírito e aproveitava todas as oportunidades que me surgiam para assistir a peças de teatro, embora a oferta em Lisboa não fosse tão diversa como é hoje.

Quais foram as experiências culturais que lhe deixaram melhores memórias?

As experiências culturais que me deixaram memórias mais profundas foram, para além da visitação de museus, atividade que ainda hoje me motiva, os espetáculos de dança e música a que assisti, por exemplo na Fundação Calouste Gulbenkian, em que era assídua. E adorava, ano a ano, a oportunidade da feira do Livro, de tal forma que lá cheguei a trabalhar algumas vezes.

E as recordações afectivas?

As maiores recordações afetivas que guardo do meu período de estudante universitária resultam das amizades cimentadas quer com colegas de curso, quer na residência onde habitava. Esta última, foi um verdadeiro viveiro de amizades, com pessoas provenientes de vários pontos do país, o que permitia abrir horizontes para realidades próximas geograficamente, mas seguramente diferentes.

A maioria dos diplomados em Ciências Farmacêuticas acabam por enveredar pela Farmácia Comunitária. Durante o seu percurso escolar, em Ponta Delgada, tinha especial interesse por esta área ou tinha mais inclinação para as áreas laboratoriais e de investigação?

Procurei a farmácia hospitalar, apesar do profundo respeito que tenho por todos os colegas de outras áreas, pelo contacto mais próximo com os doentes e pela participação mais ativa no circuito do medicamento. Por outro lado, trabalhar no hospital permite contactar com abordagens terapêuticas inovadoras, o que se revela muito enriquecedor, e trabalhar num contexto multidisciplinar.

Pensou, em algum momento, em seguir a carreira académica?

Na altura em que acabei o curso preferi prosseguir uma atividade em que o contacto com os doentes fosse mais ativo, e em que pudesse contribuir para a prestação de cuidados de saúde de uma forma mais incisiva.

O curso de Ciências Farmacêuticas foi a primeira escolha no acesso à Universidade? Quais foram os principais motivos para esta escolha?

O curso foi a minha primeira escolha quando me candidatei à Universidade, e esta escolha assentou numa série de pressupostos: desejava uma formação na área da saúde, que não fosse medicina, porque não queria pessoalmente contactar de uma forma direta com o sofrimento humano, e gostava muito de disciplinas da área da química.

Em 1989 iniciou funções no Hospital de Ponta Delgada. Chegou a ponderar ficar no Continente ou a ideia de regressar aos Açores sempre esteve na sua mente?

Na altura em que acabei o curso tive de regressar aos Açores pois tinha uma bolsa de estudos concedida pelo Governo Regional, que me obrigava a ingressar no serviço regional de saúde por um período mínimo de cinco anos. No entanto, tal revelou-se uma excelente oportunidade para participar ativamente na dinamização e modernização dos Serviços Farmacêuticos do Hospital de Ponta Delgada.

Quais foram, para si, as alterações mais importantes implementadas nos Serviços Farmacêuticos do Hospital do Divino Espirito Santo?

O principal desafio foi a afirmação do papel do farmacêutico no contexto hospitalar, pois quando ingressei nos serviços farmacêuticos do então Hospital de Ponta Delgada, conjuntamente com outras jovens colegas, a abrangência das nossas funções não era bem apreendida por outras classes profissionais, e mesmo pelos órgãos de gestão. Foi, assim, necessário ganhar o nosso espaço, num trabalho que, dia-a-dia, permitiu que toda a comunidade hospitalar compreendesse a importância do contributo do farmacêutico hospitalar para a prestação de cuidados de saúde. Na atualidade, os Serviços Farmacêuticos do Hospital do Divino Espírito Santo cresceram de tal forma que é difícil selecionar um aspeto concreto, mas quer a transformação ao nível das infraestruturas, quer o aumento dos recursos humanos especializados, sustentam um serviço moderno e dinâmico, ao nível de outras unidades de saúde congéneres.

Quais são as principais vantagens de trabalhar numa ilha? E as dificuldades?

Trabalhar numa ilha comporta sempre as dificuldades associadas à distância e ao isolamento. Por exemplo, o aprovisionamento de medicamentos está dependente de uma logística de transportes mais difícil, ou o acesso a oportunidades de formação é também mais árdua. No entanto, as possibilidades crescentes das novas tecnologias permitem atenuar a distância nalguns casos.

Sendo um grupo profissional imprescindível no tratamento dos doentes em meio hospitalar, quais os motivos desta falta de atenção crónica aos Farmacêuticos Hospitalares?

Os farmacêuticos têm vindo a afirmar o seu papel no contexto hospitalar, mas julgo que subsistem duas questões fundamentais, nomeadamente aumentar a capacidade reivindicativa da classe e, por outro lado, melhorar a visibilidade e o reconhecimento por parte dos utentes.

Quais são as formas de atrair farmacêuticos para a região?

A perceção que tenho é que os Açores têm sido capazes de atrair novos profissionais, quer para as unidades de saúde, quer para a farmácia comunitária.

O Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto, abriu uma cadeira de Introdução à Poesia para os alunos de Medicina. Esta cadeira é leccionada pelo médico e poeta João Luís Barreto Guimarães que considera que a poesia ajuda os estudantes a ligarem-se de forma holística aos doentes para que esta relação não se resuma a esquemas técnicos ou mecânicos. Este médico considera que, assim como os poemas, cada um dos seus pacientes é único. Os estudantes de Ciências Farmacêuticas também poderiam beneficiar de uma cadeira deste tipo como forma de treinar a empatia e a discursividade?

Considero que iniciativas como a que refere são da maior importância para a formação dos profissionais do futuro em qualquer área, e em particular naquelas em que a componente científico-técnica tende a apagar a importância de uma sólida formação humanística. A leitura crítica de obras clássicas, o visionamento de um filme, a visita a museus, entre outros aspetos, são atividades complementares que permitem treinar o espírito crítico e a capacidade argumentativa dos estudantes, e inclusivamente melhorar a sua perceção ética da profissão.

Aconselhava o curso de Ciências Farmacêuticas aos candidatos ao Ensino Superior?

Obviamente que sim, na medida que permite uma formação numa área científica de ponta e em que o objetivo final é tratar o próximo, contribuindo para uma sociedade plena e saudável.

Em termos literários, está a trabalhar em novos projectos?

Presentemente, encontro-me a trabalhar em duas obras diferentes, a primeira uma coletânea de histórias vivenciadas na ilha de Santa Maria, em tempos idos, e a segunda, ainda numa fase embrionária, que me tem obrigado à realização de muita pesquisa.

Capa do livro “Anatomia do Quotidiano”