“O futuro da profissão farmacêutica passa por uma maior diferenciação e especialização nas diversas áreas de atuação”

“O futuro da profissão farmacêutica passa por uma maior diferenciação e especialização nas diversas áreas de atuação”

Ana Sofia Azevedo, farmacêutica desde 2008, que exerceu atividade profissional em Farmácia Comunitária, primeiro em Lisboa, tendo-se mudado posteriormente para o Litoral Alentejano, iniciou em janeiro deste ano a residência farmacêutica, integrando-se no ambulatório dos Serviços Farmacêuticos. Participou no mês passado na 4.ª reunião AL-FARMÁCIA de oncologia dos farmacêuticos hospitalares da região sul, onde apresentou um poster com o caso clínico que tem acompanhado.

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O que a levou a fazer este percurso académico e laboral até agora?
O que me levou a fazer esta mudança foi, sobretudo, um sentimento de estagnação e de desatualização profissional. A distância de cerca de 170 km de Lisboa fazia-se sentir no acesso a oportunidades de formação, como cursos, workshops e apresentações de novas terapêuticas. Além disso, era muito difícil acompanhar webinars realizados, maioritariamente, entre as 20h e as 22h, um horário pouco compatível com a gestão familiar.
Outro fator determinante foi o horário de trabalho. Exercendo funções em Farmácia Comunitária, saía frequentemente tarde, trabalhava fins de semana e feriados. Também era muito difícil planear a vida pessoal com antecedência. A integração na Residência trouxe um equilíbrio muito importante na minha vida pessoal.
Consegui estabelecer uma rotina mais estável, estar mais presente no apoio às minhas crianças e gerir de forma mais harmoniosa o tempo familiar. Naturalmente, isso não
significa ter mais tempo livre; muitas vezes, após elas adormecerem, continuo a estudar, a preparar trabalhos e a aprofundar conteúdos. Ainda assim, é uma realidade mais sustentável e que me permite conciliar, com maior serenidade, o compromisso profissional e o papel de mãe.
A Residência Farmacêutica representa também uma oportunidade única de aprendizagem, permitindo desenvolver competências técnicas, clínicas e científicas essenciais para o exercício da Farmácia Hospitalar. Esta aprendizagem contínua, aliada ao facto de ser regularmente desafiada por novas situações, tem sido determinante para o meu crescimento profissional. A participação ativa em diferentes atividades permite-me assumir um papel mais interventivo enquanto farmacêutica, algo profundamente gratificante e alinhado com a responsabilidade que a profissão exige.
Este envolvimento diário reforça a minha capacidade de análise, decisão e comunicação clínica, permitindo-me contribuir de forma cada vez mais ativa para a segurança do doente, para a qualidade dos cuidados e para a utilização eficaz e responsável do medicamento. É um percurso exigente, mas extremamente enriquecedor, que me motiva a evoluir e a assumir um papel cada vez mais diferenciado dentro da equipa multidisciplinar.
Não posso deixar de destacar o papel fundamental das pessoas com quem trabalho. Tenho contado com uma orientadora muito dedicada e com uma equipa sempre disponível para ensinar, apoiar e partilhar conhecimento. Este ambiente de entreajuda tem sido determinante para a minha integração e para tornar esta experiência tão enriquecedora.

Como está a ser o novo desafio profissional na especialidade de farmácia hospitalar?
A Residência Farmacêutica corresponde a um programa de formação especializada, estruturado por diferentes módulos, que permite aos farmacêuticos adquirir competências nas várias áreas da Farmácia Hospitalar sob orientação de especialistas. Atualmente, encontro-me a realizar o módulo de distribuição e dispensa de medicamentos, mais concretamente na área do Ambulatório dos Serviços Farmacêuticos, onde desempenho um conjunto de atividades bastante diversificadas.
No atendimento aos utentes, asseguro a dispensa de medicação em regime de ambulatório, garantindo a utilização segura e eficaz dos medicamentos. Paralelamente, colaboro na satisfação dos pedidos de medicação dos diferentes serviços clínicos, contribuindo para a continuidade terapêutica e para a resposta às necessidades assistenciais da Unidade Local de Saúde. Integro também a consulta farmacêutica, uma experiência muito enriquecedora que permite acompanhar os doentes de forma mais próxima, esclarecer dúvidas, promover a adesão à terapêutica e contribuir para uma utilização mais segura e eficaz dos medicamentos através da reconciliação terapêutica.
Esta organização da Residência permite um contacto progressivo com as diferentes áreas da especialidade, proporcionando uma formação abrangente e preparando -nos para uma intervenção cada vez mais diferenciada enquanto farmacêuticos hospitalares.
Paralelamente à atividade assistencial, tenho oportunidade de colaborar em vários projetos institucionais. Participo na elaboração de normas e protocolos internos, colaboro na preparação de trabalhos científicos, como posters para apresentação em conferências. Envolvo-me também em iniciativas e projetos onde possa contribuir e acrescentar valor ao trabalho desenvolvido pelos Serviços Farmacêuticos e pela Unidade de Saúde Hospital.
Este percurso tem sido um desafio altamente estimulante: permite-me aprender continuamente, desenvolver novas competências e assumir uma intervenção cada vez mais ativa na promoção da utilização segura e eficaz do medicamento, contribuindo de forma direta para a melhoria dos cuidados prestados aos doentes.

Este percurso tem sido um desafio altamente estimulante: permite-me aprender continuamente, desenvolver novas competências e assumir uma intervenção cada vez mais ativa na promoção da utilização segura e eficaz do medicamento, contribuindo de forma direta para a melhoria dos cuidados prestados aos doentes.

Quais são os seus projetos futuros?
Neste momento, o meu maior projeto futuro assenta no presente: concluir a Residência e alcançar a Especialidade em Farmácia Hospitalar. Esta etapa representa muito mais do que uma formação — é uma oportunidade estruturante para aprofundar competências, consolidar conhecimento técnico-científico e evoluir de forma consistente enquanto profissional. Estou totalmente dedicada a aproveitar esta fase para reforçar a minha capacidade de intervenção clínica, integrar-me de forma ativa nas equipas multidisciplinares e contribuir para processos que promovam segurança, eficiência e qualidade nos cuidados prestados.

Participou na Conferência de Oncologia dos Farmacêuticos Hospitalares da Região Sul, onde apresentou um poster com o seu trabalho. Pode revelar-nos mais sobre o caso clínico apresentado?
Foi com grande satisfação que participei no AL-Farmácia, a reunião anual de Oncologia dos Farmacêuticos Hospitalares da Região Sul. O poster apresentado descreve o acompanhamento farmacêutico de um doente com adenocarcinoma do pâncreas portador de uma alteração molecular rara no gene NTRK, tratado com larotrectinib, uma terapêutica dirigida especificamente a esta alteração genética.
Este caso ilustra bem o potencial da medicina de precisão em Oncologia. Após o início do tratamento, observou-se uma resposta clínica muito promissora, com benefício significativo para o doente. Contudo, verificou-se posteriormente progressão da doença, evidenciando um dos principais desafios associados ao tratamento de tumores com alterações moleculares raras — o desenvolvimento de mecanismos de resistência e a necessidade de opções terapêuticas adicionais.
Enquanto farmacêutica, acompanhar este caso permitiu-me compreender de forma mais aprofundada a complexidade da terapêutica oncológica personalizada e a importância de uma monitorização clínica e farmacoterapêutica contínua, em estreita articulação com a equipa multidisciplinar. Tratando-se de um doente sem mutação KRAS, algumas estratégias terapêuticas e ensaios clínicos direcionados para essa alteração molecular não constituem opções viáveis. Neste contexto, perspetivas futuras poderão incluir a utilização de inibidores de NTRK de nova geração, como o repotrectinib, atualmente estudado como alternativa em situações de resistência ou progressão após tratamento inicial. Mais do que apresentar um caso clínico, o objetivo deste trabalho foi demonstrar como a caracterização molecular dos tumores está a transformar a abordagem terapêutica em Oncologia, permitindo tratamentos cada vez mais personalizados e reforçando o papel dos farmacêuticos hospitalares na otimização da terapêutica e dos resultados em saúde.

Que estratégias poderiam ser utilizadas neste caso clínico e, de uma forma geral, noutros casos de cancro em Portugal?
A Oncologia é uma área em constante evolução e os ensaios clínicos têm permitido o desenvolvimento de terapêuticas cada vez mais dirigidas e eficazes. No entanto, a sua implementação na prática clínica continua a enfrentar desafios importantes, nomeadamente os tempos necessários para aprovação e financiamento de novos medicamentos e o acesso limitado a terapêuticas inovadoras.
Em situações clínicas particularmente desafiantes — como esta — torna-se imperativo acelerar mecanismos de acesso a terapêuticas inovadoras, reforçar a participação dos centros hospitalares em ensaios clínicos e promover uma articulação mais eficaz entre equipas multidisciplinares, unidades de investigação e estruturas regulatórias.
Neste caso específico, será crucial acompanhar de perto a evolução da evidência científica e das opções terapêuticas dirigidas ao perfil molecular do doente. Apesar dos avanços muito significativos da Oncologia de precisão, continuam a existir situações clínicas particularmente complexas, em que as opções terapêuticas disponíveis são limitadas e a evidência científica ainda é escassa. Nestes casos, a partilha de experiências entre centros, a discussão em redes colaborativas e o acesso a programas de utilização precoce ou a ensaios clínicos podem revelar-se determinantes para identificar oportunidades terapêuticas adicionais.
Este caso ilustra bem essa realidade: trata-se de um doente muito jovem, com uma doença agressiva e resistente às terapêuticas convencionais. Manter uma vigilância ativa sobre novas estratégias terapêuticas e potenciais abordagens inovadoras é fundamental para garantir que o doente possa beneficiar das melhores opções disponíveis.
Aproveitamos também esta oportunidade para reforçar a importância da colaboração científica entre instituições. A partilha de experiências e de conhecimento em casos clínicos raros ou particularmente desafiantes constitui um importante motor de aprendizagem coletiva e pode, em determinadas situações, contribuir para alargar as oportunidades terapêuticas disponíveis para os doentes. Este caso evidencia também a importância de reforçar mecanismos de colaboração entre centros. Seria interessante, no futuro, existirem plataformas nacionais que permitissem a discussão estruturada de casos clínicos raros ou particularmente complexos, facilitando a partilha de experiências entre equipas multidisciplinares e a identificação de oportunidades terapêuticas ou de investigação. Num contexto em que a medicina de precisão evolui rapidamente, a colaboração e a circulação do conhecimento podem ser determinantes para otimizar os cuidados prestados aos doentes.

Que sugestões daria para melhorar o setor farmacêutico em Portugal?
Acredito que cada farmacêutico deve procurar uma área de exercício onde se sinta realizado e onde possa desenvolver todo o seu potencial, mesmo que isso implique enfrentar novos desafios e sair da zona de conforto. Quando trabalhamos com gosto, o empenho e a dedicação acabam por refletir-se na qualidade dos cuidados prestados.
Penso que o futuro da profissão farmacêutica passa por uma maior diferenciação e especialização nas diversas áreas de atuação. A complexidade crescente dos cuidados de saúde exige farmacêuticos cada vez mais qualificados, com competências específicas em áreas como a Oncologia, Cuidados Intensivos, Doenças Infeciosas, Nutrição Clínica, Ensaios Clínicos, Farmacotecnia, entre muitas outras.
É igualmente fundamental reforçar a intervenção clínica do farmacêutico, através da consulta farmacêutica, da integração efetiva nas equipas multidisciplinares e de uma maior proximidade ao doente ao longo de todo o seu percurso terapêutico. O farmacêutico desempenha um papel essencial na otimização da terapêutica, na promoção da utilização segura e eficaz dos medicamentos, na prevenção de eventos adversos e na melhoria dos resultados em saúde. A sua intervenção não se limita a garantir que o medicamento chega ao doente; o verdadeiro impacto está em assegurar que chega o medicamento certo, ao doente certo, no momento certo, de forma segura e com utilização responsável dos recursos. Esta responsabilidade exige competências diferenciadas e uma intervenção clínica cada vez mais estruturada.
A valorização da diferenciação profissional, da formação contínua e da especialização permitirá afirmar cada vez mais o contributo do farmacêutico como um elemento indispensável na prestação de cuidados de saúde de qualidade, sempre centrados no doente.
É igualmente crucial continuar a investir na investigação clínica, na inovação e na produção de evidência científica que permita demonstrar o impacto da intervenção farmacêutica nos resultados em saúde. O farmacêutico tem hoje um papel cada vez mais estratégico nos sistemas de saúde. Além da proximidade ao doente e da integração nas equipas multidisciplinares, contribui diariamente para a utilização segura e eficaz dos medicamentos, para a produção de melhores resultados em saúde e para a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde. Investir na formação, na diferenciação e na valorização destes profissionais é, em última análise, investir na qualidade dos cuidados prestados aos cidadãos.

O que gosta de fazer nos tempos livres?
Acima de tudo, de estar com a minha família. Procuro aproveitar o tempo ao ar livre, fazer atividades com as minhas crianças e desfrutar do excelente clima que temos. Esses momentos ajudam-me a manter o equilíbrio e acabam por me dar a energia necessária para enfrentar os desafios profissionais.