“Sinto‑me privilegiada por contribuir para o avanço desta nova geração de terapias celulares”

Sara Canovas Nunes é cientista molecular com experiência em hematologia, oncologia e imunologia, especializada no desenvolvimento de pequenas moléculas, terapias celulares e estudos de mecanismo de ação. Atualmente, trabalha nos EUA, na Regatta Bio, indústria biotecnológica associada à Harvard Medical School, onde lidera o desenvolvimento de terapias celulares com células T regulatórias (Treg), muito promissoras atualmente na área de oncologia.

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9 de Maio, 2026

Pode começar por nos falar sobre a sua experiência?
Nasci na Madeira e sempre tive uma curiosidade profunda pela biologia e pela forma como a ciência pode transformar vidas. O meu percurso académico levou‑me de Portugal para a Finlândia, o Reino Unido, a Itália e, finalmente, para os Estados Unidos. Sou uma cientista molecular com experiência em hematologia, oncologia e imunologia, especializada no desenvolvimento de pequenas moléculas, terapias celulares e estudos de mecanismo de ação.

Como foi o seu percurso até chegar aos EUA?
No último ano do curso de Bioquímica fiz um semestre de Erasmus na Finlândia. O sistema de ensino finlandês é muito diferente do nosso: muito baseado na aprendizagem através da experiência. Tive muito tempo de independência no laboratório, poucas aulas teóricas, poucos exames teóricos e aprendi imenso. Nunca fui uma aluna de 18s em Portugal, mas na Finlândia isso não era importante. O importante era o raciocínio científico, não a capacidade de memorização ou de responder como o professor quer. Isso aumentou imenso a minha autoestima. Foi mesmo aquele momento de “ah, mas afinal eu sou boa nisto”, e aquele 14 em Portugal já não me definia. Tenho a certeza de que aqueles meses mudaram completamente o trajeto da minha vida.
Devido àquele “bichinho” de querer conhecer outras culturas e outros modos de viver a ciência, mudei‑me para Londres e fiz o mestrado em Biotecnologia. Depois decidi fazer o doutoramento em Itália para aprofundar a investigação em oncologia. Após o doutoramento, surgiu a oportunidade de integrar uma equipa de investigação no Boston Children’s Hospital/Harvard Medical School em Boston, onde trabalhei durante sete anos em investigação translacional de pequenas moléculas para tratamento de leucemias resistentes a terapias convencionais. Em 2025, transitei para a indústria biotecnológica como Scientist na Regatta Bio, onde lidero o desenvolvimento de terapias celulares CAR‑Treg.

Que razões potenciaram a saída de Portugal?
Saí de Portugal tão cedo que acho que a maior motivação foi mesmo a curiosidade. Um professor do curso de Bioquímica sugeriu o Erasmus na Finlândia e o resto já sabem!

“Profissionalmente, sou movida pelo desafio de transformar ciência fundamental em aplicações clínicas”.

Como surgiu a oportunidade de fazer o doutoramento em Itália?
Surgiu de forma natural após o mestrado. Eu queria continuar na investigação e tinha muita curiosidade na área da oncologia. Fiz um estágio num laboratório em Itália com uma bolsa para estágios na Europa. Tenho de admitir que a escolha de Itália também teve um lado pessoal: depois de anos de relação à distância, queria finalmente viver no mesmo país que o meu (agora) marido, italiano que conheci durante o Erasmus.
Depois desse estágio, o professor com quem trabalhei sugeriu o programa de doutoramento em oncologia molecular e imunologia da Universidade de Padova, que é uma das melhores em Itália. Concorri a uma bolsa de estudo para imigrantes e ganhei a única bolsa para esse programa.
Contudo, percebi rapidamente que o ambiente científico em Itália era muito semelhante ao português — excelente talento humano, mas falta de financiamento e processos muito lentos. Por exemplo, enviar células para sequenciação podia demorar duas semanas ou mais. Quando cheguei a Boston e os resultados passaram a estar prontos em menos de 24 horas, percebi o impacto real que o acesso a estas tecnologias tem na ciência.

Boston foi a sua primeira escolha no mercado de trabalho?
Boston foi sempre uma das minhas primeiras escolhas, por ser o maior hub de biotecnologia do mundo. Tive contactos com outros grupos na Europa também, mas nenhum oferecia o mesmo nível de inovação, velocidade e oportunidades de crescimento dos Estados Unidos.
Quando fiz a entrevista em Boston também fiz outras em Nova Iorque e em New Haven. Isto permitiu conhecer as cidades e Boston foi imediatamente aquela que decidimos que era a melhor opção para nós. O projeto que me foi proposto em Boston também foi o que mais me cativou, o que tornou a escolha ainda mais fácil.

“O meu percurso académico levou‑me de Portugal para a Finlândia, o Reino Unido, a Itália e, finalmente, para os Estados Unidos. Sou uma cientista molecular com experiência em hematologia, oncologia e imunologia, especializada no desenvolvimento de pequenas moléculas, terapias celulares e estudos de mecanismo de ação.”

Pode falar-nos mais do seu projeto no Boston Children’s Hospital?
O projeto no Boston Children’s Hospital/Harvard Medical School era um projeto colaborativo com a empresa global de drug discovery Evotec, focado em desenvolver novas terapias para leucemias agressivas com mutações em RAS, um dos genes mais frequentemente alterados em cancros humanos. Estas mutações estão associadas a resistência à quimioterapia e recaídas, mas continuam muito difíceis de tratar diretamente.
O nosso trabalho, publicado no Nature Blood Cancer Journal, caracterizou várias moléculas/inibidores e identificou um composto inovador, ao qual demos o nome DW0254, que não atua diretamente sobre RAS, mas sim sobre PDE6D, uma proteína essencial para transportar RAS até à membrana celular, local onde ativa vias de sobrevivência tumoral. Demonstrámos que DW0254 se liga ao bolso hidrofóbico de PDE6D, impede o transporte de RAS, causa a sua deslocalização da membrana e, como consequência, inibe vias críticas como MAPK/ERK e PI3K/AKT, levando à morte das células leucémicas. Conseguimos deste mode validar PDE6D como um novo alvo terapêutico para leucemias dependentes de RAS.

Quais os principais desafios ao mudar‑se para Itália e depois para os EUA?
Em Itália, foram a língua (porque muito pouca gente falava inglês, mesmo no laboratório), a burocracia (principalmente a transcrição de todos os documentos em italiano) e o ritmo lento da investigação; nos Estados Unidos, a adaptação ao sistema de saúde e imigração, a distância da Europa e da família, e mesmo a adaptação cultural.

O que a levou a fazer este percurso académico e laboral?
A curiosidade científica, a vontade de resolver problemas complexos e o desejo de contribuir para terapias que realmente mudam vidas. Profissionalmente, sou movida pelo desafio de transformar ciência fundamental em aplicações clínicas. Pessoalmente, sempre procurei ambientes que permitissem equilibrar uma carreira exigente com uma vida pessoal e familiar.

A que trabalhos está dedicada atualmente?
Sou cientista na Regatta Bio, onde trabalho diariamente no laboratório a desenvolver terapias celulares com células T regulatórias (Treg).
Para contextualizar o meu trabalho, é importante explicar o que são estas terapias celulares. A terapia CAR‑T é uma imunoterapia em que os linfócitos T do próprio doente são modificados geneticamente para reconhecer e destruir células tumorais. Esta abordagem tem revolucionado o tratamento de vários cancros do sangue, como linfomas e leucemias. Em Portugal, o IPO Porto tem sido pioneiro na sua implementação desde 2019. No entanto, segundo um artigo na NOVA FCT do ano passado, o país ainda depende totalmente de laboratórios no estrangeiro para produzir estas células, o que aumenta custos e tempo de espera.
O meu trabalho, no entanto, foca‑se numa vertente diferente desta tecnologia: as CAR‑Treg. Enquanto as CAR‑T tradicionais são desenhadas para matar células cancerígenas, as CAR‑Treg são desenhadas para suprimir respostas imunitárias excessivas. Ou seja, as CAR‑T ativam o sistema imunitário para destruir tumores e as CAR‑Treg acalmam o sistema imunitário para prevenir inflamação, rejeição e autoimunidade.
As CAR‑Treg têm aplicações potenciais na doença do enxerto contra hospedeiro, também conhecida como GVHD (do inglês graft-versus-host disease) após transplante de medula, nos transplantes de orgão para prevenir a rejeição e em doenças autoimunes. É uma área emergente e extremamente promissora, e sinto‑me privilegiada por contribuir para o avanço desta nova geração de terapias celulares.
No ano passado, a Regatta Bio ganhou o President’s Innovation Challenge.

“Neste momento, não planeio regressar. Adoro Portugal e vamos lá frequentemente, mas a vida que construímos em Boston funciona muito bem para a nossa família. Sentimo‑nos em casa aqui, e as oportunidades profissionais e a qualidade de vida são difíceis de igualar.”

O que gosta de fazer nas horas livres?
Gosto de passar tempo com as minhas filhas, que são a minha maior alegria. Adoro viajar, explorar novos lugares e aproveitar momentos tranquilos em família. O equilíbrio entre carreira e vida pessoal é essencial para mim, e sinto‑me privilegiada por trabalhar num ambiente que respeita esse equilíbrio.

Já ponderou regressar a Portugal?
Neste momento, não planeio regressar. Adoro Portugal e vamos lá frequentemente, mas a vida que construímos em Boston funciona muito bem para a nossa família. Sentimo‑nos em casa aqui, e as oportunidades profissionais e a qualidade de vida são difíceis de igualar.

Que conselho daria aos farmacêuticos que estão a concluir o curso?
Sejam curiosos, ambiciosos e não tenham medo de sair da zona de conforto. O mundo é grande e cheio de oportunidades. Invistam em formação contínua, procurem ambientes que vos desafiem e, acima de tudo, encontrem um equilíbrio saudável entre carreira e vida pessoal.