Tamoxifeno em baixa dose mostra eficácia no cancro da mama inicial
Estudo coordenado pela Fundação Champalimaud confirma que o tamoxifeno em baixa dose reduz recidivas no cancro da mama inicial com menos efeitos secundários.

Uma investigação internacional coordenada pela Fundação Champalimaud e pelo Istituto Europeo di Oncologia (IEO) concluiu que a utilização de tamoxifeno em baixa dose após cirurgia pode reduzir significativamente o risco de recidiva e de novos tumores em mulheres com cancro da mama em fase inicial, mantendo a eficácia da terapêutica convencional e com menos efeitos adversos.
Os resultados, recentemente publicados no Journal of Clinical Oncology, foram apresentados no congresso anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO), tendo sido selecionados para a sessão Best of ASCO, dedicada aos estudos com maior potencial para alterar a prática clínica.
O estudo incidiu sobre mulheres com carcinoma ductal in situ (DCIS), uma forma não invasiva de cancro da mama que representa cerca de 25% dos tumores diagnosticados através do rastreio mamográfico, bem como sobre doentes com lesões mamárias consideradas de alto risco.
A análise reuniu dados individuais de três ensaios clínicos, envolvendo 1.545 doentes acompanhadas durante mais de nove anos, constituindo a maior série de dados alguma vez estudada nesta área.
De acordo com os investigadores, o tamoxifeno em baixa dose demonstrou uma redução significativa dos eventos oncológicos mamários. Nas mulheres em pós-menopausa observou-se uma diminuição de 59% do risco de recidiva ou de desenvolvimento de um novo tumor mamário. Já nas mulheres em pré-menopausa, verificou-se uma redução de 55% dos tumores que surgem na mama contralateral, ou seja, na mama oposta à que foi inicialmente tratada.
Segundo Andrea De Censi, diretor do Departamento da Mama da Fundação Champalimaud e autor sénior do estudo, os resultados reforçam a possibilidade de utilizar doses mais baixas do medicamento sem comprometer a sua eficácia preventiva. “Estes resultados demonstram de forma definitiva que, nos carcinomas ductais in situ e nas lesões mamárias de alto risco, a diminuição da dose da hormonoterapia com Tamoxifeno permite manter a eficácia preventiva da dose padrão, reduzindo, porém, de forma substancial os efeitos secundários”, afirma o especialista.
O benefício do tamoxifeno em dose convencional (20 miligramas por dia durante cinco anos) é conhecido há várias décadas. No entanto, a sua utilização tem sido limitada pela ocorrência de efeitos adversos, incluindo aumento do risco de cancro do endométrio, tromboembolismo venoso, afrontamentos, sintomas ginecológicos e alterações da função sexual.
A nova análise demonstra que uma dose de 5 miligramas por dia, ou 10 miligramas em dias alternados, permite manter um efeito protetor prolongado ao longo do tempo, sem aumento significativo de eventos adversos graves.
Para Sara Gandini, diretora da Unidade de Epidemiologia Farmacológica e Molecular do IEO e primeira autora do trabalho, os resultados ajudam a esclarecer algumas das principais dúvidas que persistiam sobre esta estratégia terapêutica. “O nosso estudo muda realmente a prática clínica porque elimina as principais incertezas quanto ao uso do Tamoxifeno em baixa dose. Hoje sabemos com maior precisão quais as doentes que dele obtêm o máximo benefício e podemos oferecer uma terapêutica preventiva mais tolerável e sustentável a longo prazo”, refere.
Os investigadores acreditam ainda que esta abordagem poderá abrir caminho à prevenção farmacológica em mulheres saudáveis com elevado risco de desenvolver cancro da mama, nomeadamente devido a antecedentes familiares ou predisposição genética.
Segundo a Fundação Champalimaud, o próximo passo passará pela implementação de programas personalizados de avaliação de risco e diagnóstico precoce, recorrendo também a ferramentas de inteligência artificial para identificar mulheres que possam beneficiar de estratégias preventivas mais eficazes e seguras.




