Raquel Silva, farmacêutica a trabalhar na Comissão de Ética para a Investigação Clínica (CEIC), tem desempenhado funções de gestão de processos na área da ética em investigação clínica e desde 2016 na coordenação do gabinete de apoio da CEIC, pelo que tem acompanhado de perto a evolução do sector em Portugal.

26 de Janeiro, 2026
Pode revelar um pouco da sua autobiografia e do seu percurso profissional?
Tenho 43 anos, sou mãe de dois rapazes e licenciada em Ciências Farmacêuticas e, desde cedo, encontrei na investigação clínica um espaço onde a ciência, a ética e o serviço público se cruzam de forma particularmente desafiante. Ao longo do meu percurso, tenho desempenhado funções de gestão de processos na área da ética em investigação clínica e desde 2016 coordenação do gabinete de apoio da CEIC o que me permitiu acompanhar de perto a evolução do sector em Portugal. Paralelamente, a frequência da Licenciatura em Direito surgiu como um complemento natural, aprofundando a minha compreensão das dimensões jurídicas que enquadram a investigação em saúde.
Em que consiste trabalhar na CEIC?
A CEIC é a comissão de ética nacional responsável pela avaliação dos ensaios clínicos e de outros estudos de investigação clínica em Portugal. A sua missão é assegurar que a investigação em saúde respeita, acima de tudo, os direitos, a segurança e o bem-estar dos participantes, garantindo simultaneamente rigor científico e integridade ética.
Trabalha em articulação com o INFARMED – Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, I.P., que faz a avaliação regulamentar e autorização dos ensaios clínicos. Enquanto o INFARMED conduz a vertente científica e regulamentar, a CEIC assegura a apreciação ética — duas dimensões complementares, mas independentes. Os membros da CEIC são nomeados pelo Ministério da Saúde, garantindo legitimidade e independência nas deliberações. A CEIC não dispõe de personalidade jurídica própria, pelo que o apoio técnico, logístico e administrativo é assegurado por um Gabinete de Apoio composto por recursos humanos com contrato com o INFARMED, cedidos para esse efeito. Este modelo permite preservar a autonomia da avaliação ética, assegurando ao mesmo tempo, as condições operacionais necessárias ao seu funcionamento.
A CEIC avalia anualmente cerca de 200 ensaios de cariz internacional que têm que obrigatoriamente serem aprovados pela CEIC. Está sediada nas instalações do INFARMED, em Lisboa. Engloba cerca de 60 profissionais de todo o País, com competências variadas, i.e., médicos de várias especialidades, farmacêuticos, enfermeiros, teólogos, psicólogos, juristas, especialistas em bioética, etc. O Gabinete de apoio da CEIC é formado por 11 elementos. Os ensaios dizem respeito à doença oncológica (cancro do pulmão, mama), neurológicas (demências, esclerose lateral amiotrófica), cardíacas, entre outras.
“Desde cedo, encontrei na investigação clínica um espaço onde a ciência, a ética e o serviço público se cruzam de forma particularmente desafiante.”
Como é trabalhar em ensaios clínicos?
Trabalhar em ensaios clínicos é viver no ponto de encontro entre inovação científica e responsabilidade ética. É um contexto exigente, onde cada decisão tem impacto direto na segurança e nos direitos dos participantes, mas também no avanço do conhecimento biomédico. Exige rigor técnico, capacidade de análise crítica e um profundo sentido de responsabilidade. É um trabalho discreto, muitas vezes nos bastidores, mas absolutamente essencial para que novas terapêuticas cheguem aos doentes com segurança e credibilidade.
O que a levou a fazer este percurso académico e laboral até agora?
Sempre me motivou a ideia de contribuir para algo maior do que a prática individual da profissão. A investigação clínica oferece essa dimensão coletiva: trabalha-se para o presente, mas sobretudo para o futuro. A formação em Ciências Farmacêuticas deu-me a base científica; o contacto com a ética e a regulamentação despertou-me para a importância das decisões estruturantes; e o Direito trouxe-me ferramentas adicionais para compreender e melhorar os enquadramentos normativos. O meu percurso tem sido guiado por uma curiosidade constante e por um forte sentido de responsabilidade social.
Pode falar-nos um pouco do seu trabalho diário? E quais os projectos em que está envolvida e seus projectos futuros?
O meu trabalho diário é marcado por uma combinação muito rica entre coordenação técnica, estratégia institucional e articulação científica. Na vertente mais operacional, asseguro a coordenação da equipa, o que implica acompanhar de perto os processos em avaliação, articular diretamente com peritos de diferentes áreas e supervisionar o trabalho desenvolvido pelos gestores de processo. Existe uma preocupação constante em garantir a qualidade, a consistência e a coerência técnica das decisões, bem como em monitorizar a execução processual, assegurando que os prazos e os requisitos regulamentares são cumpridos com rigor.
Paralelamente, mantenho uma ligação operacional a grupos de trabalho europeus, o que permite alinhar práticas, acompanhar a evolução regulamentar e contribuir para um posicionamento ativo de Portugal no contexto internacional da investigação clínica.
Mas o meu dia a dia não se esgota na dimensão técnica. Envolve também uma forte componente estratégica, nomeadamente na definição do posicionamento institucional da CEIC e no desenvolvimento de iniciativas que contribuam para a atração de ensaios clínicos para Portugal. Trabalho igualmente na harmonização de requisitos de submissão e avaliação dos diversos processos de investigação clínica, promovendo maior eficiência e previsibilidade para todos os intervenientes.
Por fim, dedico uma parte significativa do meu tempo à promoção da literacia em investigação clínica e à divulgação institucional, reforçando a visibilidade externa da CEIC. Acredito que aproximar a ética e a investigação da sociedade é essencial para construir confiança e valorizar o papel da investigação no progresso da saúde. No fundo, é um trabalho exigente, mas profundamente motivador, onde a componente técnica e a missão pública caminham sempre lado a lado.
“Dedico uma parte significativa do meu tempo à promoção da literacia em investigação clínica e à divulgação institucional, reforçando a visibilidade externa da CEIC. Acredito que aproximar a ética e a investigação da sociedade é essencial para construir confiança e valorizar o papel da investigação no progresso da saúde.”
A CEIC foi convidada para a entrega de prémios da BIAL. O que significa o BIAL Award?
O BIAL Award representa um reconhecimento internacional da excelência científica e da investigação de qualidade. Prémios desta natureza têm um papel simbólico e estratégico muito relevante: valorizam o mérito, estimulam a inovação e reforçam a visibilidade da investigação desenvolvida. São também um sinal claro de que o investimento em ciência e conhecimento produz impacto real e duradouro.
Quer apresentar sugestões para melhorar o sector farmacêutico em Portugal?
Creio que o sector beneficiaria de uma maior articulação entre academia, indústria, entidades reguladoras e comissões de ética. A simplificação de processos, sem comprometer o rigor, é igualmente essencial para aumentar a competitividade do país na captação de ensaios clínicos. Paralelamente, é fundamental investir na formação contínua e na valorização dos profissionais, criando condições para reter talento e fomentar uma cultura de inovação responsável.
O que gosta de fazer nas horas livres?
Valorizo momentos de leitura, particularmente em áreas como a bioética e o direito da saúde, mas também na literatura contemporânea. Gosto de manter uma ligação ativa à aprendizagem contínua, embora procure, de forma consciente, tempo para atividades que promovam equilíbrio e bem-estar.
A fotografia é uma das minhas formas preferidas de expressão e de pausa — permite-me observar o detalhe e capturar perspetivas que, no ritmo do dia a dia, muitas vezes nos escapam. Valorizo muito os programas em família, sobretudo com os meus filhos, seja em momentos simples ou em experiências culturais partilhadas.
Sempre que possível, gosto também de assistir a concertos e a peças de teatro, pela energia e inspiração que a cultura traz. Acredito que a verdadeira realização profissional só é sustentável quando existe equilíbrio entre as dimensões humana, profissional e social. Essa visão não é apenas pessoal — está também alinhada com o compromisso institucional do INFARMED, que integra no seu Sistema de Gestão da Conciliação medidas concretas de promoção do equilíbrio entre vida profissional, familiar e pessoal. Esse enquadramento reforça a ideia de que cuidar das pessoas dentro das organizações é essencial para que estas possam cuidar melhor da missão pública que desempenham.
“É importante reforçar a participação dos farmacêuticos nos processos de decisão estratégica em saúde e promover uma cultura que reconheça o seu contributo científico, clínico e social.”
Quer deixar algum conselho / recomendação para os farmacêuticos que estão agora a concluir o curso de ciências farmacêuticas em Portugal?
Aos jovens farmacêuticos diria que mantenham a curiosidade intelectual e não se limitem aos percursos tradicionais. A profissão é vasta e dinâmica, com oportunidades na investigação, regulamentação, indústria, saúde pública e muito mais. Investir em competências transversais — comunicação, pensamento crítico, ética — pode ser tão determinante quanto o conhecimento técnico.
Que medidas considera fundamentais para os farmacêuticos se sentirem mais valorizados?
A valorização passa por reconhecimento institucional, melhores condições de progressão profissional e maior visibilidade do impacto do trabalho farmacêutico na sociedade. É importante reforçar a participação dos farmacêuticos nos processos de decisão estratégica em saúde e promover uma cultura que reconheça o seu contributo científico, clínico e social.




