“A medicina não pode olhar para a obesidade como uma simples consequência de más escolhas”

“A medicina não pode olhar para a obesidade como uma simples consequência de más escolhas”

Ainda com os ecos do dia Dia Nacional de Luta Contra a Obesidade, assinalado a 23 de maio, Gil Faria, investigador, médico-cirurgião, professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e coordenador dos Centros de Tratamento da Obesidade do Hospital Pedro Hispano e do Grupo Trofa Saúde, regressa ao tema do excesso de peso, sublinhado que este problema continua a ser um dos maiores desafios de saúde pública, ressalvando que os sinais de estabilização registados em alguns países europeus, incluindo Portugal, abrem espaço a uma nova discussão sobre prevenção, tratamento e mudança cultural. Em entrevista, lamenta que “o estigma continua a afastar muitos doentes das consultas, defendendo que “estabilizar a obesidade não significa que o problema esteja resolvido”.

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Um estudo recente publicado na Nature sugere que as taxas de obesidade poderão estar a estabilizar em alguns países, incluindo Portugal. Como interpreta estes dados? Estamos perante uma mudança real ou ainda é cedo para tirar conclusões?
Interpreto estes dados com esperança, mas sem triunfalismo. O estudo mostra que, em vários países de elevado rendimento, a subida da obesidade parece estar a abrandar, estabilizar ou até a inverter-se ligeiramente, incluindo Portugal. Mas isto não significa que vencemos a obesidade. Significa apenas que talvez tenhamos começado a travar a sua progressão.
É uma mensagem importante: a obesidade não é inevitável. Pode ser influenciada por políticas públicas, ambiente alimentar, literacia, cuidados de saúde e condições sociais. Mas estabilizar em valores ainda elevados não é uma vitória completa. É como conseguir travar um incêndio antes de apagarem as chamas.
Portugal pode estar no bom caminho, mas ainda temos demasiadas pessoas com excesso de peso, obesidade e complicações metabólicas. A conclusão não deve ser “já está resolvido”. Deve ser exatamente a postura contrária: “vale a pena investir, porque os resultados começam a aparecer”. Mas este investimento leva muitos anos a demonstrar resultados. Daí a necessidade de persistirmos na promoção dos comportamentos saudáveis, da dieta mediterrânica e de continuarmos a discutir sobre esta doença.

A obesidade continua muitas vezes a ser vista apenas como consequência de hábitos individuais. A medicina já olha hoje para a obesidade como uma doença crónica complexa?
A medicina contemporânea já não pode olhar para a obesidade como uma simples consequência de más escolhas. Essa visão está ultrapassada, é injusta, inconsequente e, cientificamente, errada. A obesidade é uma doença crónica, complexa e multifatorial. Envolve genética, hormonas, cérebro, intestino, microbiota, sono, stress, ambiente alimentar, medicamentos, desigualdade social e história de vida. Claro que a alimentação e a atividade física importam, mas reduzir tudo a “coma menos e mexa-se mais” é tão absurdo como tratar a depressão dizendo “anime-se” ou a hipertensão dizendo “acalme-se”.
O problema é que a sociedade continua muitas vezes presa à culpa. E essa culpa mata. Afasta os doentes das consultas, atrasa tratamentos, aumenta a vergonha, ansiedade e isolamento. Muitas pessoas só procuram ajuda quando já têm diabetes, apneia do sono, hipertensão, infertilidade, artrose ou doença hepática grave. A grande mudança cultural que precisamos é esta: deixar de perguntar “porque é que não teve força de vontade?” e começar a perguntar “como podemos ajudar?”. A obesidade não é defeito de carácter. É uma doença crónica que exige tratamento, respeito e continuidade.

Muitas pessoas só procuram ajuda quando já têm diabetes, apneia do sono, hipertensão, infertilidade, artrose ou doença hepática grave. A grande mudança cultural que precisamos é esta: deixar de perguntar “porque é que não teve força de vontade?” e começar a perguntar “como podemos ajudar?”. A obesidade não é defeito de carácter. É uma doença crónica que exige tratamento, respeito e continuidade.

Enquanto coordenador de centros de tratamento da obesidade, quais são os principais perfis de doentes que atualmente procuram ajuda médica? Há diferenças em relação ao que acontecia há dez anos?
Há diferenças muito claras. Hoje chegam-nos doentes mais informados (muitos já com conhecimento sobre o tratamento cirúrgico), mas também mais cansados. Pessoas que já fizeram múltiplas dietas, perderam e recuperaram peso várias vezes, passaram anos a ouvir que o problema era falta de disciplina e chegam à consulta com uma mistura de esperança e de vergonha.
Vejo sobretudo três perfis. Primeiro, essencialmente mulheres entre os 30 e os 50 anos, muitas vezes depois de gravidezes, alterações hormonais, anos de sobrecarga familiar e profissional, que sentem que perderam o controlo do corpo. Segundo, doentes com obesidade grave e doenças graves associadas (diabetes tipo 2, hipertensão, apneia do sono ou doença osteoarticular). Terceiro, pessoas mais jovens, algumas ainda sem complicações graves, mas já conscientes de que precisam de ajuda antes que a doença avance.
Há dez anos, a maioria dos doentes chegavam à cirurgia como último recurso e apenas chegavam os casos mais graves. Hoje começa a haver uma mudança. Mais pessoas percebem que procurar tratamento não é falhar. É agir. Ainda assim, o estigma continua fortíssimo. Muitos doentes não dizem “quero tratar a obesidade”. Dizem “quero emagrecer e já tentei de tudo…”. Essa frase resume anos de sofrimento. Mas quem procura ajuda para a obesidade não está a desistir. Está, finalmente, a lutar com as ferramentas certas.

A cirurgia deixou de ser o “castigo” para quem não conseguiu emagrecer e passou a ser vista como uma terapêutica eficaz, segura e cientificamente validada para uma doença crónica grave. Nos doentes certos, é o tratamento mais duradouro para a obesidade grave e para muitas das suas complicações.

A cirurgia metabólica evoluiu muito nos últimos anos. Que mudanças mais significativas destaca na forma como hoje se trata a obesidade mórbida?
A maior mudança foi deixarmos de ver a cirurgia apenas como uma operação para emagrecer. Hoje falamos de cirurgia metabólica porque sabemos que ela modifica profundamente a fisiologia: hormonas intestinais, saciedade, resistência à insulina, metabolismo da glicose e inflamação.
A cirurgia deixou de ser o “castigo” para quem não conseguiu emagrecer e passou a ser vista como uma terapêutica eficaz, segura e cientificamente validada para uma doença crónica grave. Nos doentes certos, é o tratamento mais duradouro para a obesidade grave e para muitas das suas complicações.
Também evoluímos tecnicamente. A cirurgia é, hoje, menos invasiva, mais segura, com internamentos mais curtos e estratégias mais personalizadas. Já não é apenas escolher entre sleeve ou bypass. É perceber que doença tem aquele doente, que risco metabólico apresenta, se tem refluxo ou diabetes, qual o comportamento alimentar específico, idade, expetativas e risco cirúrgico. A cirurgia moderna não é uma solução igual para todos. É medicina de precisão aplicada à obesidade.

Foi pioneiro na realização de cirurgias bariátricas em ambulatório na Península Ibérica. Que vantagens esta abordagem pode trazer para os doentes e para o sistema de saúde?
A cirurgia metabólica em ambulatório é um exemplo de como podemos fazer melhor para o doente e para o sistema. Quando bem selecionada, bem protocolada e realizada por equipas experientes, permite uma recuperação mais rápida, menos tempo no hospital, menor exposição a infeções hospitalares, maior conforto familiar e melhor utilização dos recursos.
Mas é importante ser claro: ambulatório não significa facilitar. Significa organizar melhor. Implica critérios de seleção, preparação pré-operatória, anestesia adequada, cirurgia tecnicamente segura, controlo da dor e náuseas, contacto permanente com a equipa e capacidade de resposta, se surgir algum problema. Para o SNS, esta abordagem pode libertar camas, aumentar a eficiência e permitir tratar mais doentes sem comprometer a segurança. Para o doente, pode significar menos medo, menos rutura na vida familiar e uma experiência mais humana.
A inovação não está apenas em operar e dar alta no mesmo dia. Está antes em criar um percurso tão seguro que o hospital deixa de ser o centro da recuperação. O centro passa a ser o doente. A cirurgia de ambulatório não é fazer menos. É fazer melhor, com mais organização e foco no doente.

A técnica Koala Sleeve, desenvolvida pela sua equipa, procura responder a um dos principais problemas associados ao sleeve gástrico: o refluxo gastroesofágico. O que diferencia esta técnica das abordagens tradicionais?
O sleeve gástrico é uma excelente cirurgia, mas tem uma limitação bem conhecida: pode provocar ou agravar refluxo gastroesofágico. E o refluxo não é um detalhe. Pode afetar o sono, a alimentação, a qualidade de vida, obrigar a medicação crónica e, em alguns casos, levar a cirurgia de revisão.
A Koala Sleeve nasceu de uma pergunta simples: podemos manter os benefícios do sleeve e proteger melhor a qualidade de vida? A técnica combina o sleeve tradicional com uma espécie de válvula junto à junção gastroesofágica, procurando reduzir o refluxo, sem sacrificar a perda de peso. É uma modificação promissora, simples e segura em doentes selecionados com refluxo submetidos a sleeve
A diferença está precisamente nessa tentativa de preservar as vantagens do sleeve, mas corrigir uma das suas principais fragilidades. Não é uma solução milagrosa nem deve ser apresentada como substituta universal do bypass, que continua a ser uma opção muito importante em doentes com refluxo significativo, mas pode abrir uma nova possibilidade para doentes em que o sleeve é desejável e o refluxo é uma preocupação.
Agora precisamos de mais dados, mais seguimento e estudos multicêntricos. A inovação cirúrgica não vive de entusiasmo, mas de resultados, a longo prazo. Neste momento, a resposta é que ainda não temos esses resultados, mas continuamos a trabalhar para os obter.

Os novos medicamentos para perda de peso estão a transformar o tratamento da obesidade. Acredita que poderão reduzir a necessidade de cirurgia bariátrica no futuro ou as duas abordagens continuarão complementares?
Os novos medicamentos, como os análogos do GLP-1, são uma revolução. Não tenho qualquer dúvida disso. Pela primeira vez, temos fármacos capazes de produzir perdas de peso clinicamente relevantes e melhorar o risco cardiometabólico em muitos doentes. Mas não vejo estes medicamentos como inimigos da cirurgia. Vejo-os como aliados. A pergunta certa não é “medicação ou cirurgia?”. A pergunta certa é: qual é o melhor tratamento para este doente, nesta fase da doença?
Em pessoas com obesidade ligeira a moderada, os fármacos podem evitar progressão e adiar ou evitar a cirurgia. Em doentes com obesidade mais grave, sobretudo com diabetes, apneia do sono, hipertensão ou doença hepática metabólica, a cirurgia continua a ter uma eficácia e durabilidade difíceis de igualar.
Noutras pessoas, os fármacos ou a cirurgia poderão ser alternativas, dependendo da escolha do doente e da avaliação de custo-eficácia. E há situações em que os dois tratamentos podem ser complementares: fármacos antes da cirurgia, para reduzir risco, ou depois da cirurgia, para perda insuficiente ou recuperação de peso. O futuro será menos dogmático. Teremos mais ferramentas, mais combinações e tratamentos mais personalizados. E isso é bom para os doentes.
Mas há uma mensagem social ainda mais importante: se um medicamento consegue tratar a obesidade, então a obesidade nunca foi apenas falta de vontade. Sempre foi biologia. E, portanto, não podemos deixar de tratar a obesidade; temos de sobrepor a ciência ao preconceito.

Portugal está preparado para enfrentar a obesidade como um verdadeiro problema de saúde pública, sobretudo ao nível da prevenção e do acesso ao tratamento? O que ainda falta fazer?
Portugal está mais preparado do que estava, mas ainda não está preparado como devia, como não está nenhum país em todo o mundo. Temos conhecimento, bons profissionais, centros diferenciados, estratégias publicadas e maior consciência pública. Temos um excelente trabalho nas escolas e cuidados de saúde primários com educação alimentar e promoção de atividade física, mas falta transformar intenção em acesso real.
Falta prevenção consistente desde a infância. Falta proteger melhor as escolas, regular ambientes alimentares, combater publicidade dirigida a crianças, facilitar a prática de atividade física, transformar as nossas cidades facilitando o uso de espaços recreativos e tornar a alimentação saudável acessível a todos, não apenas recomendável. Falta também acesso ao tratamento. Muitos doentes não conseguem consultas multidisciplinares em tempo útil. Muitos não têm acesso a medicação, por razões económicas. Muitos esperam demasiado por cirurgia metabólica. E, enquanto esperam, a doença progride.
O erro é pensar que tratar a obesidade é caro. Caro é não tratar. Caro é pagar depois a diabetes, os enfartes, os AVC, a doença renal, as próteses, os cancros, as baixas médicas e a perda de qualidade de vida.
Portugal precisa de uma estratégia nacional operacional, mas, acima de tudo, de uma consciência social de que o doente com obesidade tem uma doença tratável. Acima de tudo, falta deixar de tratar o doente com obesidade como alguém que pode esperar. Falta substituir o julgamento por vontade de agir.