A verdadeira questão da obesidade não é o peso!

A verdadeira questão da obesidade não é o peso!

Artigo escrito por Mónica Gomes – Farmacêutica especialista em Farmácia Comunitária pela Ordem dos Farmacêuticos e membro dos corpos Sociais da Associação Portuguesa de Farmacêuticos para a Comunidade (APFPC)


A obesidade foi definida em 2004, em Portugal, como uma doença crónica. Deixou então de ser vista apenas como uma questão de estilo de vida e passou a ser reconhecida como um problema de saúde pública: uma doença real, complexa, com forte componente genética, centrada no cérebro, influenciada pelo ambiente, progressiva e recidivante.

O estigma de que “basta comer menos e mexer mais”, ou que se trata apenas de falta de motivação, está a desaparecer. A obesidade é hoje reconhecida como uma doença multifatorial e insuficientemente tratada.

O tratamento deve assentar na evidência científica e na biologia, assentando em três pilares fundamentais: intervenção psicológica e comportamental, terapêutica farmacológica e cirurgia bariátrica. Estes pilares devem articular-se com dois fundamentos essenciais e complementares: uma nutrição adequada e prática regular de atividade física.

O debate público tem-se intensificado. As chamadas “canetas para emagrecer”, a sua comparticipação, e quem deve ter acesso a estas são um exemplo. Discute-se o papel da microbiota intestinal, como um possível “órgão invisível”, que influencia a saúde e a longevidade. Destaca-se ainda o papel central do cérebro, através de sinais hormonais e mecanismos de autorregulação, que variam de pessoa para pessoa.

Passaram mais de 20 anos desde 2004 e, no entanto, fala-se pouco da abordagem multidisciplinar na obesidade. Temos o médico, o nutricionista e o profissional de saúde mental. Mas, numa doença cada vez mais tratada com fármacos, onde está o especialista do medicamento?

O tratamento da pessoa com obesidade implica, normalmente, uma terapêutica complexa. É necessário acompanhamento contínuo, apoio na correta utilização dos medicamentos, gestão de efeitos adversos, titulação de doses, identificação de carências nutricionais, e reconhecimento de sinais de alerta com encaminhamento atempado.

A terapêutica farmacológica para a obesidade é recente e está longe de ser uma solução milagrosa. Existem poucos dados de utilização a longo prazo e importa considerar os seus potenciais efeitos, como perda de massa muscular, que pode representar parte relevante do peso perdido, e défices nutricionais importantes, como de vitamina B12, vitamina D3 e ferro.

A ingestão adequada de proteína e a suplementação são fundamentais, mas exigem cuidados: horários de toma, interações com alimentos e outros medicamentos, bem como adequação às necessidades individuais.

É aqui que o farmacêutico deve assumir um papel na otimização dos resultados e na segurança da terapêutica, como profissional de saúde mais próximo, mais acessível e que mais contacta com as pessoas na sua jornada de saúde.

Muitas dúvidas não podem esperar semanas por resposta. A ausência de orientação pode comprometer a eficácia do tratamento e gerar custos elevados, especialmente com terapêuticas como os análogos de GLP-1.

A otimização da terapêutica permite melhores resultados em saúde, além de potencialmente gerar poupança significativa no sistema de saúde, ao prevenir ou controlar doenças associadas à obesidade. Entre elas estão a diabetes tipo 2, com menos necessidade de medicação e menos complicações; doenças cardiovasculares, como hipertensão, enfartes e AVCs; patologias osteoarticulares, como a osteoartrose, com menos cirurgias e menor necessidade de próteses; vários tipos de cancro e a apneia do sono.

Não será o investimento no tratamento da obesidade amplamente compensado pela prevenção destas complicações, sobretudo quando integrado numa abordagem multidisciplinar eficaz?

Atualmente, estes doentes continuam sem uma equipa verdadeiramente integrada e que comunique eficazmente. A fragmentação de cuidados compromete os seus resultados. O farmacêutico comunitário, pela sua acessibilidade e proximidade, deve assumir um papel central na articulação entre profissionais de saúde, na gestão da terapêutica e no acompanhamento contínuo, desde que existam condições estruturais e canais de comunicação adequados.

O farmacêutico contribui para o rastreio, aconselhamento em estilo de vida saudável, gestão da terapêutica e suplementação, monitorização da adesão e identificação de efeitos adversos. Encaminha para o profissional mais especializado e intervém no momento certo: um reporte atempado e com feedback faz toda a diferença. E participa na notificação de reações adversas, contribuindo para a geração de evidência do mundo real sobre segurança e eficácia dos medicamentos.

Perante este cenário, a questão já não é se devemos investir no tratamento da obesidade. Esse investimento compensa, e a evidência torna-o cada vez mais claro. A verdadeira questão é outra: vamos continuar a investir em terapêuticas inovadoras e ignorar o acompanhamento que determina o seu sucesso, ou estamos finalmente dispostos a integrar quem pode fazer a diferença?