ESHRE 2026: investigação aponta novas estratégias para preservar e restaurar a fertilidade feminina

ESHRE 2026: investigação aponta novas estratégias para preservar e restaurar a fertilidade feminina

Estudos apresentados na ESHRE 2026 apontam novas estratégias para restaurar a função ovárica e melhorar a qualidade dos ovócitos.

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Novas abordagens para restaurar a função ovárica, recriar o microambiente do ovário e melhorar a qualidade dos ovócitos estiveram em destaque na 42.ª Reunião Anual da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE), que decorreu em Londres. Os estudos, desenvolvidos por equipas da Fundação IVI, do IVI Barcelona e do IVI Lisboa, refletem uma mudança de paradigma na medicina da reprodução, centrando-se não apenas no aumento do número de ovócitos disponíveis, mas também na preservação da sua qualidade e da função ovárica.

Um dos trabalhos apresentados, liderado por Sonia Herraiz, da Fundação IVI, avaliou uma estratégia experimental destinada a recuperar parcialmente a função de ovários afetados por insuficiência ovárica prematura, condição frequentemente designada por menopausa precoce. A investigação recorreu a uma combinação de fatores de crescimento derivados de células estaminais para modular alterações moleculares associadas à doença.

Em modelos experimentais, a abordagem permitiu reduzir alterações relacionadas com o stress celular, o metabolismo e a organização do tecido ovárico, traduzindo-se numa melhoria da função do ovário e num aumento significativo do número de ovócitos recuperados. Segundo a investigadora, estes resultados sugerem que o ambiente molecular do ovário pode ser modulado, abrindo perspetivas para futuras estratégias terapêuticas dirigidas a mulheres com insuficiência ovárica prematura.

Outra das investigações apresentadas incidiu precisamente sobre esse ambiente biológico. A equipa coordenada por Irene Cervelló desenvolveu um hidrogel tridimensional capaz de reproduzir, em laboratório, as características estruturais e bioquímicas do ovário humano. Produzido a partir de tecido ovárico tratado e combinado com alginato, o biomaterial preserva componentes essenciais, como o colagénio e a laminina, criando uma plataforma que poderá facilitar o estudo da função ovárica e o desenvolvimento de futuras estratégias para restaurar a fertilidade, nomeadamente em mulheres que perderam a função dos ovários na sequência de doença ou de tratamentos oncológicos.

A qualidade dos ovócitos foi igualmente alvo de investigação. Um estudo liderado por Marga Esbert, do IVI Barcelona, procurou compreender porque é que cerca de 20% dos ovócitos recolhidos durante os ciclos de fertilização in vitro não completam a maturação e acabam por ser descartados, uma realidade particularmente frequente em mulheres com baixa resposta ovárica, endometriose ou alterações da maturação ovocitária.

Recorrendo à sequenciação de ARN de célula única, os investigadores concluíram que estes ovócitos não apresentam alterações genéticas significativas, mas evidenciam alterações relacionadas com o stress oxidativo e a função mitocondrial. A suplementação do meio de cultura com antioxidantes permitiu aproximar o perfil biológico destes ovócitos ao dos que amadurecem naturalmente, apontando para uma potencial estratégia que poderá aumentar o número de embriões disponíveis e melhorar as probabilidades de gravidez.

Também a equipa do IVI Lisboa apresentou novos dados sobre os mecanismos biológicos envolvidos na maturação dos ovócitos. O estudo, coordenado por Sofia Nunes, diretora do Laboratório de Fertilização In Vitro, identificou um conjunto de proteínas potencialmente determinantes para a correta maturação ovocitária e para a distribuição dos cromossomas, contribuindo para compreender as alterações que comprometem a qualidade dos ovócitos.

No conjunto, os quatro estudos ilustram a evolução da investigação em medicina reprodutiva para abordagens cada vez mais centradas na preservação da função ovárica e da qualidade ovocitária. Para Samuel Ribeiro, diretor clínico do IVI Lisboa e especialista em medicina da reprodução, “o objetivo já não é apenas obter mais ovócitos, mas compreender melhor os mecanismos que determinam a qualidade dos ovócitos e a função do ovário, para desenvolver estratégias capazes de preservar ou recuperar essa qualidade e função”.

Apesar de promissores, todos os resultados apresentados permanecem em fase experimental e necessitam de validação em estudos adicionais antes de poderem ser transpostos para a prática clínica. Ainda assim, os investigadores consideram que estas diferentes linhas de investigação poderão contribuir para o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas dirigidas a algumas das formas mais complexas de infertilidade feminina.ntífica como pilares fundamentais do processo.

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