“Um cérebro descansado é, antes de tudo, um cérebro saudável”

“Um cérebro descansado é, antes de tudo, um cérebro saudável”

Bióloga e nutricionista, Ana Santos tem centrado o seu trabalho na relação entre estilo de vida, inflamação e desempenho cognitivo, tanto em contexto clínico como organizacional. No livro Um cérebro (des)cansado, recentemente editado pela Planeta de Livros e que serviu de ponto de partida para esta entrevista, a autora propõe uma reflexão sobre o impacto do stress e da sobrecarga na saúde mental e na tomada de decisão, desafiando a cultura da produtividade contínua. Com base em evidência científica e experiência prática, apresenta estratégias concretas para promover o equilíbrio cerebral e reforça a ideia de que o descanso é um elemento estruturante da performance e do bem-estar.

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Enquanto bióloga e nutricionista, de que forma a sua experiência profissional influenciou a abordagem ao tema do descanso cerebral na elaboração deste livro?
A biologia deu-me uma visão alargada de saúde, de vida. Em biologia estudamos a vida, o equilíbrio e nunca a doença e é justamente dessa forma que eu vejo a abordagem nutricional ao paciente e às organizações. A alimentação e estilo de vida são uma via para atingir um equilíbrio de saúde. A minha prática nutricional esteve sempre muito direcionada para pacientes com as mais diversas patologias inflamatórias e nesse sentido o meu papel como profissional de saúde passa por ajudar aquele organismo a retomar a um estado de equilíbrio e reganho de função. No âmbito das organizações trabalho essencialmente a melhoria da performance cognitiva de quadros médios e superiores através do estilo de vida, com vista ao aumento da produtividade e bem-estar.

Mais que nunca, vivemos num contexto de estímulos constante. Como é que essa sobrecarga afeta, na prática, o funcionamento do cérebro?
 Há uma multiplicidade de estudos que nos demonstram que exposição ao stress crónico contribui consideravelmente para o desenvolvimento de transtornos psiquiátricos como depressão, transtorno de ansiedade generalizada, comportamentos aditivos entre outros. O stress é o exacerbar de estímulos visuais, sonoros, químicos etc., e por isso vamos, com o prolongar dessa exposição agravar sem sombra de dúvida o estado de saúde cerebral com invariável comprometimento da função cognitiva e tomadas de decisão.

“É urgente desmistificar a ideia de que temos que estar sempre a fazer alguma coisa, porque não há nada na literatura científica que nos diga que produtividade é nunca parar, muito pelo contrário. É essencial parar, descansar para podermos aumentar a nossa performance cerebral.”

O descanso mental ainda é muitas vezes associado à inatividade. O que significa, na realidade, ter um “cérebro descansado”?
Ter um cérebro descansado significa acima de tudo ter um cérebro saudável, equilibrado capaz de cumprir com as suas funções de forma integral. As funções do cérebro vão além da coordenação motora, intelectual, olfativa etc. Isso significa que quando temos um cérebro pouco descansado alguma ou várias destas funções sofrem um comprometimento. Dito isto, é urgente desmistificar a ideia de que temos que estar sempre a fazer alguma coisa, porque não há nada na literatura científica que nos diga que produtividade é nunca parar, muito pelo contrário. É essencial parar, descansar para podermos aumentar a nossa performance cerebral.

Que sinais devem alertar para um cérebro em fadiga ou em sobrecarga prolongada e o que fazer nesse cenário?
No livro mostro uma lista dos principais sinais de inflamação cerebral e não sendo aqui exaustiva, sinais comuns são cansaço, exaustão, falta de concentração, esquecimento, falta de clareza mental, dificuldade em realizar uma tarefa de cada vez, dor de cabeça recorrente, insónia, falta de libido, dificuldade em controlar o peso corporal, obstipação ou diarreia frequente entre outros.
Perante estes ou outros sintomas é essencial manter um plano alimentar restrito em alimentos ultra processados, especialmente ricos em gordura saturada, sal refinado, edulcorantes, açúcares… privilegiar um padrão alimentar mediterrânico, praticar atividade física, fazer uma boa higiene de sono e ter boas conexões sociais, cultivando o sentimento de pertença.

De que forma o descanso influencia a tomada de decisão, a memória e a saúde emocional?

O descanso regular permite ao cérebro estar saudável pelo que a qualidade das decisões melhora, há uma maior flexibilidade da decisão e avaliação das consequências, determinantes em papeis de liderança. Também a memória é positivamente influenciada, porque o descanso favorece a consolidação da aprendizagem e relativamente à saúde emocional, é muito notório que se reduz a regulação afetiva após períodos de descanso.
Pouco tempo de descanso conduz a uma menor eficiência do córtex pré-frontal e simultaneamente há um aumento da vulnerabilidade a respostas mais automáticas e impulsivas. Revisões recentes convergem precisamente nesses eixos: prejuízo executivo pré-frontal, alteração do processamento emocional e enfraquecimento dos circuitos hipocampo–córtex relevantes para aprendizagem e memória.

No livro, estabelece ligação entre produtividade e pausa, sublinhado a importância de uma relação positiva entre esses dois “estados” no balanço entre atividade profissional e períodos de lazer. Porque é que continuamos a desvalorizar o descanso, mesmo sabendo que é essencial para um melhor desempenho?
Creio que isso vem de um conservadorismo laboral muito vigente em Portugal que tem comprometido o crescimento do país nas últimas décadas. Há uma falta de investimento em formação sobre alta performance cognitiva, em bem-estar e produtividade e muito pouca flexibilidade trabalho/família e as empresas que conseguem dar esse salto ficam na linha da frente do sucesso. De resto, falta também uma política de base voltada para a promoção de saúde. A prática de exercício, a adoção de uma alimentação equilibrada não são pilares vistos como basilares na maioria das organizações. Dados norte-americanos – porque na Europa são praticamente inexistentes – demonstram que programas de promoção da saúde no local de trabalho podem gerar $3 a $15 por cada $1 investido. Formação orientada para a performance, ambiente que facilite boas escolhas alimentares e flexibilidade horária tendem a ter um retorno visível nas empresas e é nisso que estou a trabalhar atualmente, em levar essas orientações às organizações para que de forma notória possam ver uma mudança no comportamento de todos os níveis da organização.

“Estar associado a grupos, comunidades, que aumentem o sentimento de pertença social que vai além das funções laborais e familiares é muito importante para a melhoria da nossa inflamação cerebral.”

Apresenta um plano de sete dias “à prova de inflamação” com base em cinco pilares para lutar por uma melhor performance cognitiva. Pode indicar uma estratégia prática associada a cada um desses pilares queajude apromover um cérebro mais descansado no dia a dia, especialmente em rotinas exigentes?Relativamente ao sono, desligar os ecrãs quando chegamos a casa já será uma mudança significativa na qualidade de vida dos profissionais. Quanto à alimentação, optar por pratos ricos em legumes e fruta e deixar de lado os ultraprocessados e massa, pão, arroz branco especialmente na véspera de reuniões importantes ou tomadas de decisão basilares, porque sem dúvida que a clareza mental vai ficar comprometida se não o fizerem. Por outro lado, ter uma vida ativa fisicamente, especialmente de manhã ao acordar e incluir 45minutos de exercício ao acordar é determinante para mais energia e uma melhor resposta ao stress. Também essencial é encontrar espaço na rotina semanal para momentos de descontração e convívio. Assim como estar associado a grupos, comunidades, que aumentem o sentimento de pertença social que vai além das funções laborais e familiares é muito importante para a melhoria da nossa inflamação cerebral.

Que mudança de mentalidade considera essencial para que o descanso deixe de ser visto como um luxo e passe a ser entendido como uma necessidade?
O ponto de viragem eu acredito que acontece quando o trabalhador entende que o descanso é um investimento na melhoria da sua performance e nunca “tempo perdido”. É nas pausas que conseguimos delinear a progressão de carreira, metas pessoais e profissionais e delinear com clareza os passos a dar no médio longo prazo nas mais diferentes áreas da vida. A pausa é essencial ao crescimento. O cérebro decide melhor, regula melhor as emoções, memoriza melhor e trabalha mais eficientemente quando descansa, quando dorme um sono de qualidade e reparador e quando trabalha com uma pressão saudável. O descanso é um requisito básico para a progressão dos profissionais e crescimento das organizações e não uma recompensa pelo trabalho realizado.