“A abordagem Uma Só Saúde já não é uma opção. É uma necessidade”
A Europa vive num momento decisivo para transformar a filosofia One Health (Uma Só Saúde) em ação concreta. É essa a ideia defendida por Carlos das Neves, Chief Scientist da EFSA, um dos nomes que participou no 9.º Congresso Mundial One Health, em Lisboa. Em entrevista exclusiva à Salus Magazine, aponta os progressos alcançados, mas identifica também o principal obstáculo à mudança: uma cultura ainda demasiado marcada pelas fronteiras entre setores e disciplinas.

No 9.º Congresso Mundial One Health, refletiu sobre o conceito Copenhaga, Lyon e Lisboa: Carpe diem Europe. O que representa este percurso e por que razão considera que este é um momento de carpe diem para a One Health na Europa?
Estas três cidades representam uma progressão na jornada da Saúde Única (One Health) na Europa. Copenhaga marcou um importante marco político, reunindo decisores para discutir de que forma a Saúde Única deveria ser governada em toda a Europa. Lyon elevou a conversa ao mais alto nível político, com líderes a reconhecerem a necessidade de abordagens integradas para responder a desafios de saúde cada vez mais interligados. Lisboa é o local onde devemos demonstrar que estes compromissos podem ser traduzidos em ações concretas.
Descrevo este momento como um verdadeiro carpe diem, porque vários fatores se estão a alinhar em simultâneo. A evidência científica é mais sólida do que nunca, a consciencialização política aumentou significativamente e a colaboração entre instituições e disciplinas continua a expandir-se. Temos agora a oportunidade de ir além da simples discussão sobre a Saúde Única e começar a integrá-la na forma como concebemos políticas, organizamos serviços e gerimos riscos.
Um impulso desta natureza não dura para sempre. A Europa deve aproveitar esta oportunidade e demonstrar que abordagens integradas podem gerar benefícios tangíveis para as pessoas, os animais, as plantas e o ambiente.
A abordagem One Health tem vindo a ganhar espaço nas políticas europeias, mas o desafio parece estar cada vez mais em passar das recomendações à implementação. Em que ponto está hoje a União Europeia e quais são, na sua perspetiva, os principais avanços concretos alcançados?
A Europa tem feito progressos notáveis na transição da Saúde Única (One Health) de um conceito científico para um quadro operacional.
Uma das conquistas mais significativas tem sido o reconhecimento crescente de que desafios como a resistência aos antimicrobianos, as doenças zoonóticas, as ameaças à segurança alimentar e os riscos associados às alterações climáticas não podem ser geridas de forma eficaz de maneira isolada. Esta compreensão está cada vez mais refletida nas políticas europeias, nos programas de investigação e na cooperação institucional. Por exemplo, a União Europeia adotou o Regulamento relativo às Ameaças Transfronteiriças para a Saúde, com base nas lições retiradas da pandemia de COVID-19. Este enquadramento ajuda-nos a prevenir, preparar e responder a ameaças para a saúde de diversas origens, sejam elas biológicas, químicas, ambientais ou ainda desconhecidas.
Também assistimos a uma colaboração mais forte entre as agências europeias responsáveis por diferentes dimensões da saúde, incluindo a EFSA, o ECDC, a EMA, a EEA e a ECHA. O trabalho conjunto em áreas como a resistência aos antimicrobianos, a gripe aviária, os riscos emergentes e a vigilância integrada demonstram que uma abordagem de Saúde Única pode gerar melhor conhecimento científica e apoiar decisões mais fundamentadas.
Além disso, ainda no passado mês de novembro, a União adotou o primeiro plano de gestão de crises de saúde à escala da UE: o Plano da União para a Prevenção, Preparação e Resposta. Na perspetiva da Saúde Única, este plano assume um valor particularmente importante ao nível da governação.
O próximo desafio é a implementação em larga escala. Precisamos de garantir que a Saúde Única passe a fazer parte da prática quotidiana, apoiada por estruturas de governação adequadas, sistemas de vigilância eficazes, investimento sustentado e formação profissional. As bases estão lançadas; agora temos de construir sobre elas.
Descrevo este momento como um verdadeiro carpe diem, porque vários fatores se estão a alinhar em simultâneo. A evidência científica é mais sólida do que nunca, a consciencialização política aumentou significativamente e a colaboração entre instituições e disciplinas continua a expandir-se. Temos agora a oportunidade de ir além da simples discussão sobre a Saúde Única e começar a integrá-la na forma como concebemos políticas, organizamos serviços e gerimos riscos.
A segurança alimentar, a agricultura e a saúde vegetal são dimensões fundamentais da One Health, mas nem sempre estão presentes no debate sobre saúde. Que riscos estamos a correr quando estas áreas continuam a ser pensadas de forma demasiado separada e que mudanças são necessárias nos sistemas alimentares europeus?
A segurança alimentar, a agricultura e a saúde vegetal são pilares essenciais da abordagem Uma Só Saúde, porque se situam na interseção entre a saúde humana, a saúde animal e a sustentabilidade ambiental.
Quando estas áreas são consideradas de forma isolada, corremos o risco de não reconhecer como os problemas surgem e se propagam entre sistemas. As pragas das plantas podem comprometer a segurança alimentar, as doenças animais podem perturbar a produção e o comércio, e as alterações ambientais podem modificar a distribuição de perigos que, em última análise, afetam a saúde humana. Estas interligações tornam-se cada vez mais relevantes num mundo marcado pelas alterações climáticas, pela perda de biodiversidade e pela globalização.
Os sistemas alimentares europeus precisam de se tornar mais resilientes, mais sustentáveis e mais orientados para a prevenção. Isso implica reforçar a vigilância, investir na inovação, melhorar a partilha de dados e adotar abordagens que considerem os impactos a longo prazo ao longo de toda a cadeia alimentar.
Uma perspetiva Uma Só Saúde ajuda-nos a reconhecer que ecossistemas saudáveis, plantas e animais saudáveis e alimentos seguros não são objetivos concorrentes. Pelo contrário, são componentes mutuamente reforçadoras de um futuro sustentável.
A União Europeia dispõe de várias agências com responsabilidades relevantes para a saúde humana, animal, ambiental e alimentar. O que falta para estruturar uma cooperação One Health mais efetiva entre estas instituições e transformar a partilha de conhecimento numa ação verdadeiramente coordenada?
Penso que a Europa está a demonstrar um forte compromisso na construção das parcerias necessárias para tornar a abordagem Uma Só Saúde verdadeiramente operacional. Um bom exemplo é a colaboração entre as cinco agências da União Europeia com mandatos relacionados com Uma Só Saúde, a EFSA, o ECDC, a EMA, a EEA e a ECHA, que trabalham em conjunto para reforçar a cooperação científica e apoiar uma abordagem mais integrada aos desafios da saúde.
Também observamos uma colaboração crescente em áreas como a resistência aos antimicrobianos, as doenças zoonóticas, a gripe aviária e os riscos emergentes, nas quais os conhecimentos especializados das áreas da saúde humana, da saúde animal e da saúde ambiental estão cada vez mais integrados. Esta dinâmica é visível tanto ao nível das políticas como ao nível operacional, nos Estados-Membros.
Onde a Europa talvez ainda fique aquém das ambições é na capacidade de transformar estes progressos em prática corrente de forma consistente em todos os contextos. Precisamos de sistemas de vigilância mais integrados, de uma governação intersetorial mais robusta e de um investimento sustentado na prevenção. Precisamos igualmente de profissionais formados com uma nova forma de pensar e, atrevo-me a dizer, também de agir.
Necessitamos ainda de mecanismos mais eficazes para traduzir o conhecimento científico em aplicações regulatórias concretas e, em alguns domínios, continuaremos a precisar de mais financiamento para a investigação científica que possa apoiar a implementação das abordagens transformadoras e transdisciplinares preconizadas por Uma Só Saúde.
Além das estruturas europeias, operacionalizar a One Health implica mudanças no terreno. Quais são hoje as principais barreiras (científicas, institucionais, profissionais ou políticas…) que continuam a dificultar uma resposta verdadeiramente integrada?
Todas as barreiras referidas são importantes, mas, se tivesse de identificar um desafio abrangente que se sobrepõe a todos os outros, seria a cultura.
Durante décadas, as instituições, as profissões e os mecanismos de financiamento foram, em grande medida, organizados dentro de fronteiras setoriais específicas. Isso gera níveis extraordinários de especialização, mas também pode dificultar a colaboração.
Cientistas, profissionais de saúde, médicos veterinários, especialistas em ambiente e decisores políticos trabalham frequentemente com prioridades, terminologias e enquadramentos operacionais distintos. Reunir estas diferentes perspetivas exige tempo, confiança e vontade de aprender uns com os outros.
A boa notícia é que as atitudes estão a mudar. Cada vez mais profissionais reconhecem que desafios como a resistência aos antimicrobianos, as doenças emergentes e a degradação ambiental exigem soluções integradas.
O futuro da abordagem Uma Só Saúde dependerá não apenas de melhor ciência e de uma melhor governação, mas também da nossa capacidade de promover uma mentalidade que valorize a colaboração para além das fronteiras tradicionais. Até lá… esta continuará a ser, muito provavelmente, a nossa maior barreira.
A abordagem Uma Só Saúde não exige que todos se tornem especialistas em todas as áreas. Exige, sim, que os profissionais compreendam de que forma os seus conhecimentos se inserem num sistema mais amplo e que estejam dispostos a aprender com os outros e a trabalhar em conjunto. O objetivo não é apenas promover uma melhor colaboração, mas desenvolver uma forma mais integrada de pensar, que permita a diferentes áreas de conhecimento gerar soluções inovadoras em conjunto.
A abordagem One Health exige uma maior articulação entre diferentes profissões e setores. Que papel devem assumir os profissionais de saúde, incluindo os farmacêuticos, nesta mudança de paradigma e que competências considera mais importantes para que possam contribuir de forma efetiva?
Os profissionais de saúde estão entre os principais impulsionadores da transição para a abordagem Uma Só Saúde, porque estabelecem a ligação entre o conhecimento científico e a prática quotidiana.
Farmacêuticos, médicos, médicos veterinários, enfermeiros, especialistas em saúde pública e profissionais da área ambiental contribuem, cada um, com perspetivas únicas. O seu papel vai muito além das disciplinas tradicionais. Podem ajudar a identificar riscos emergentes, promover a prevenção, apoiar a utilização responsável dos medicamentos e envolver os cidadãos nas decisões relacionadas com a saúde.
Para contribuírem de forma eficaz, os profissionais necessitarão cada vez mais de competências que ultrapassam a especialização técnica. O pensamento sistémico, a colaboração interdisciplinar, a literacia digital, a comunicação do risco e a compreensão das ligações entre saúde e sustentabilidade tornar-se-ão competências cada vez mais importantes.
A abordagem Uma Só Saúde não exige que todos se tornem especialistas em todas as áreas. Exige, sim, que os profissionais compreendam de que forma os seus conhecimentos se inserem num sistema mais amplo e que estejam dispostos a aprender com os outros e a trabalhar em conjunto. O objetivo não é apenas promover uma melhor colaboração, mas desenvolver uma forma mais integrada de pensar, que permita a diferentes áreas de conhecimento gerar soluções inovadoras em conjunto.
Se tivéssemos de transformar a One Health numa realidade mais concreta nos próximos anos, quais seriam as três ações prioritárias que deveriam estar no topo da agenda europeia, e o que gostaria que saísse de Lisboa como compromisso efetivo?
Em primeiro lugar, precisamos de um investimento sustentado na prevenção. Prevenir ameaças à saúde antes de estas se transformarem em crises é mais eficaz, menos dispendioso e, em última análise, mais benéfico para a sociedade.
Em segundo lugar, precisamos de sistemas de vigilância integrados mais robustos, capazes de ligar dados sobre a saúde humana, animal, vegetal, alimentar e ambiental. A deteção precoce é uma das ferramentas mais valiosas de que dispomos para gerir riscos emergentes.
Em terceiro lugar, precisamos de investir nas pessoas através da educação, da formação e do reforço de capacidades. A abordagem Uma Só Saúde só terá sucesso se os futuros profissionais estiverem preparados para trabalhar para além das disciplinas e dos setores tradicionais.
Quanto a Lisboa, espero que reforce um compromisso claro e pragmático: passar da aspiração à implementação. Passámos anos a sensibilizar, a construir conhecimento e a gerar dados científicos. A próxima etapa consiste em transformar esse conhecimento em políticas concretas, instituições eficazes e práticas do dia a dia.
Se houver uma mensagem que gostaria que os decisores políticos levassem consigo, é esta: Uma Só Saúde já não é uma opção. É uma necessidade. E quanto mais cedo a adotarmos de forma coletiva, melhor preparados estaremos para enfrentar os desafios que se avizinham.
Juntos somos mais fortes. Este princípio está no centro da abordagem Uma Só Saúde e deve orientar os próximos passos da Europa.




