“A substituição de carne bovina por mimetizadores de carne de origem vegetal pode ajudar na prevenção cardiovascular”

“A substituição de carne bovina por mimetizadores de carne de origem vegetal pode ajudar na prevenção cardiovascular”

É esta uma das principais conclusões que emerge da investigação Finding Optimal Oral Diet-1 (FOOD-1), conduzida no Canadá e publicada na revista Scientific Reports, do grupo Nature, que comparou o efeito do consumo de hambúrgueres à base de plantas com hambúrgueres de carne bovina nos níveis de TMAO e noutros marcadores de risco cardiovascular. O trabalho foi coordenado por João Pedro Ferreira, professor e investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), que, em entrevista,explica o significado destes resultados e o possível papel da microbiota intestinal, mas deixa também um alerta sobre uma questão que considera decisiva para o avanço da investigação clínica: a necessidade de financiamento público para responder a questões de saúde que ultrapassam os interesses da indústria.

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Foto: FMUP


O estudo apresentado encontrou uma redução significativa dos níveis de TMAO (um composto associado à ingestão de produtos de origem animal) com o consumo de hambúrgueres à base de plantas. O que nos diz este marcador sobre o risco cardiovascular e qual a relevância clínica desta redução?
Este composto, TMAO (N-óxido de trimetilamina), é um composto químico produzido pelas bactérias do intestino quando digerem nutrientes oriundos de alimentos de origem animal como carne vermelha ou marisco. Níveis sustentadamente elevados deste composto associam-se a um maior risco de doenças cardiovasculares, embora não haja relação de causalidade estabelecida de forma robusta, i.e., os níveis de TMAO podem ser confundidos por outros fatores como a função renal ou o estilo de vida. Contudo, verificar a redução dos níveis de TMAO com uma intervenção simples é potencialmente muito interessante, pois diz-nos que algo mudou, para melhor, na forma como as bactérias do intestino operam.

Que mecanismos poderão explicar a diferença observada nos níveis de TMAO entre os participantes que consumiram hambúrgueres vegetais e os que consumiram carne de vaca? Que papel poderá ter a microbiota intestinal neste processo?
Existe uma relação causal entre o consumo de hambúrgueres vegetais e a redução de TMAO, pois é um ensaio randomizado. Não colhemos fezes dos participantes, mas tudo indica que a diferença se deve a uma alteração da microbiota intestinal, sim.

O estudo também identificou níveis mais baixos de colesterol LDL após o consumo dos produtos à base de plantas. Até que ponto estes resultados permitem estabelecer uma relação entre a substituição da carne e uma redução do risco cardiovascular?
Sim, de facto, o perfil lipídico dos participantes também melhorou, o que pode significar uma redução do risco cardiovascular; todavia, para provar isto necessitaríamos de um ensaio clínico maior e com seguimento longo.

O ensaio incluiu pessoas com risco cardiovascular elevado, nomeadamente participantes com diabetes, hipertensão ou antecedentes de eventos cardiovasculares. Por que foi importante estudar esta população e poderão os resultados ser extrapolados para pessoas sem estes fatores de risco?
A população tinha risco cardiovascular elevado, pois queríamos verificar o efeito dos hambúrgueres vegetais (versus hambúrgueres de carne bovina) em fatores como a pressão arterial, o colesterol LDL, ou os peptídeos natriuréticos. 

Perante um doente com elevado risco cardiovascular que pretende reduzir o consumo de carne, que recomendações práticas considera mais adequadas: substituir a carne por estes produtos vegetais que a mimetizam ou privilegiar outras fontes de proteína de origem vegetal?
Sem dúvida privilegiar outras fontes, não processadas, de proteína de origem vegetal, pois os hambúrgueres vegetais são produtos ultraprocessados e com elevado conteúdo de sal. Mas claro que têm um lugar se forem consumidos com moderação, e.g., 1-2 vezes por semana, em substituição de carne. 

O estudo aponta para a necessidade de comparar diferentes modelos alimentares e, no futuro, até a chamada carne cultivada com a carne convencional. Quais considera serem as principais linhas de investigação que deverão ser desenvolvidas para perceber o verdadeiro impacto destas alternativas na saúde cardiovascular?
Acima de tudo, é importante salientar que o financiamento público para os ensaios clínicos da iniciativa do investigador em Portugal é praticamente inexistente e estas questões (entre outras) de saúde pública só podem ser respondidas com ensaios clínicos de apoio público, pois a indústria não tem qualquer interesse (pelo contrário) em saber os resultados e o impacto real na saúde das pessoas. Isto é mesmo o mais importante. Podemos ter boas ideias e questões importantes, mas sem financiamento público bem dirigido é impossível fazer ensaios clínicos da iniciativa do investigador. Aliás, este ensaio foi 100% financiado pela Universidade de McGill, em Montreal, no Canadá.