A BMIND.lab propõe uma abordagem experiencial ao desenvolvimento de pessoas, equipas e organizações, recorrendo à gamificação e à metodologia LEGO® Serious Play®. Em entrevista à Salus Magazine, Daniela Santos, fundadora do projeto, Business Performance Mentor, CEO e Management Ph.D, explica como estas ferramentas ajudam a tornar visíveis desafios complexos, promover o diálogo e transformar intenções em ação. Além disso, defende que o bem-estar e a saúde mental nas organizações dependem de liderança, confiança, clareza e prevenção, e não apenas de iniciativas isoladas.

A BMIND.lab trabalha o desenvolvimento de pessoas através de metodologias pouco convencionais, como a gamificação e os blocos LEGO®. Como nasceu esta abordagem e que impacto observas nas equipas e organizações?
Enquanto mentora, o meu foco nunca foi apenas a formação mas sim os resultados que daí advém. Sempre procurei perceber o que leva algumas pessoas e equipas a alcançarem resultados extraordinários enquanto outras, apesar do talento e dos recursos disponíveis, continuam bloqueadas pelos mesmos desafios.
Ao longo dos anos fui percebendo que a maioria das organizações não falha por falta de conhecimento. Falha porque existe desalinhamento, falta de comunicação, resistência à mudança ou dificuldade em transformar intenção em ação.
Foi precisamente essa procura por metodologias que gerassem envolvimento real e mudança comportamental que me levou à gamificação e ao LEGO® Serious Play®. Estas ferramentas permitem criar experiências onde as pessoas deixam de ser meros espectadores e passam a ser protagonistas do processo.
O impacto é muito significativo porque conseguimos transformar temas complexos, como liderança, cultura, estratégia ou colaboração, em conversas objetivas e produtivas. As equipas ganham clareza, aumentam o alinhamento e desenvolvem uma maior capacidade de agir em conjunto.
No final, não se trata de utilizar LEGO® ou gamificação. Trata-se de criar consciência, gerar compromisso e acelerar os resultados das pessoas e das organizações.
Muitas empresas falam hoje de bem-estar, mas nem sempre conseguem traduzi-lo em mudanças concretas. O que distingue a intervenção da BMIND.lab nesse sentido?
Acredito que o bem-estar organizacional não pode ser visto como um objetivo isolado. É uma consequência.
Quando existem problemas de comunicação, lideranças pouco eficazes, conflitos não resolvidos, falta de clareza sobre prioridades ou ausência de propósito, é muito difícil construir equipas verdadeiramente saudáveis e produtivas.
Na BMIND.lab trabalhamos com uma perspetiva diferente. Não nos limitamos a perguntar como as pessoas se sentem. Procuramos compreender o que está a causar esses sentimentos e de que forma isso está a impactar o desempenho individual e coletivo. Criamos espaços de diálogo que permitem trazer para cima da mesa aquilo que muitas vezes permanece escondido: perceções diferentes, desalinhamentos, expectativas não verbalizadas e obstáculos que afetam a performance das equipas.
O nosso objetivo é transformar conversas difíceis em oportunidades de crescimento. Porque quando as pessoas se sentem ouvidas, compreendidas e envolvidas na construção das soluções, o bem-estar deixa de ser uma iniciativa de recursos humanos e passa a fazer parte da cultura da organização.
Na BMIND.lab trabalhamos com uma perspetiva diferente. Não nos limitamos a perguntar como as pessoas se sentem. Procuramos compreender o que está a causar esses sentimentos e de que forma isso está a impactar o desempenho individual e coletivo.
A saúde mental continua a ser um desafio para muitas organizações. Considera que ainda existe um desfasamento entre o discurso e a prática?
Sem dúvida. Hoje, existe uma consciência muito maior para a importância da saúde mental, mas em muitas organizações continuamos a encontrar uma diferença significativa entre aquilo que é comunicado e aquilo que é vivido diariamente pelas equipas.
A questão não está apenas em disponibilizar iniciativas ou benefícios. A verdadeira questão é saber se as pessoas trabalham em ambientes onde existe confiança, segurança psicológica e espaço para expressar preocupações sem receio de julgamento.
Muitas vezes, os sinais de desgaste não surgem de forma repentina. São construídos ao longo do tempo através de lideranças pouco presentes, objetivos pouco claros, excesso de pressão ou falta de reconhecimento.
Por isso, acredito que o papel das organizações deve passar cada vez mais pela prevenção e não apenas pela reação.
Os líderes têm uma responsabilidade enorme neste processo. A forma como comunicam, dão feedback, gerem conflitos e apoiam as suas equipas influencia diretamente a experiência das pessoas no trabalho. No fundo, a saúde mental não é apenas um tema de bem-estar. É um tema de liderança, cultura e sustentabilidade organizacional.
Nos vossos programas recorrem frequentemente à gamificação e às metodologias LEGO® Serious Play®. Porque é que estas ferramentas conseguem desbloquear conversas e soluções que nem sempre surgem numa formação tradicional?
Porque as pessoas raramente mudam apenas porque ouviram uma apresentação interessante. A mudança acontece quando existe reflexão, envolvimento emocional e descoberta. As metodologias que utilizamos ajudam precisamente a criar esse contexto.
Quando alguém constrói uma representação visual de um desafio, de uma equipa ou de uma visão para o futuro, consegue expressar ideias que muitas vezes teria dificuldade em verbalizar diretamente. Isso torna o diálogo mais autêntico e menos defensivo.
Além disso, estas metodologias democratizam a participação. Numa reunião tradicional é comum ouvirmos sempre as mesmas vozes. Nestas dinâmicas, todas as pessoas contribuem e todas as perspetivas ganham espaço. O resultado é uma compreensão mais profunda dos desafios, maior alinhamento entre os participantes e decisões mais sólidas. Mais do que ferramentas criativas, vejo-as como aceleradores de consciência coletiva.
Os líderes que mais impactam não são necessariamente aqueles que sabem mais. São aqueles que conseguem transformar complexidade em direção. Para isso, precisam de ouvir, interpretar, questionar e ajudar as equipas a perceber aquilo que realmente importa.
A BMIND.lab trabalha com empresas, escolas e outras organizações. Há diferenças na forma como cada contexto encara temas como liderança, comunicação ou saúde psicológica?
Existem diferenças no contexto, mas não na essência. Uma empresa pode estar focada em produtividade, liderança e execução estratégica. Uma escola pode estar mais preocupada com colaboração, aprendizagem e desenvolvimento socioemocional. No entanto, em ambos os casos estamos sempre a trabalhar com pessoas.
E onde existem pessoas existem desafios semelhantes: comunicação, relacionamento interpessoal, gestão de expectativas, confiança, motivação e propósito.
Por isso, não acredito em soluções standard.
Enquanto mentor, procuro primeiro compreender qual é o verdadeiro desafio daquela organização e qual o impacto que esse desafio está a ter nas pessoas e nos resultados.
Só depois escolhemos as metodologias e as ferramentas mais adequadas. Porque o foco não deve estar na ferramenta. Deve estar na transformação que queremos gerar.
Que competência acha que será indispensável aos líderes nos próximos anos?
A capacidade de criar clareza. Vivemos num contexto cada vez mais complexo, onde existe excesso de informação, mudanças constantes e múltiplas prioridades em simultâneo. Os líderes que mais impactam não são necessariamente aqueles que sabem mais. São aqueles que conseguem transformar complexidade em direção.
Para isso, precisam de ouvir, interpretar, questionar e ajudar as equipas a perceber aquilo que realmente importa.
A verdadeira liderança não consiste em ter todas as respostas. Consiste em criar as condições para que as melhores respostas emerjam dentro da equipa.
Nos próximos anos veremos cada vez menos líderes que controlam e cada vez mais líderes que desenvolvem pessoas, promovem autonomia e alinham equipas em torno de objetivos comuns. Porque, no final, a performance sustentável nasce quando existe clareza sobre onde queremos chegar, compromisso com o caminho e capacidade de mobilizar pessoas para agir.




