Congelar os óvulos: estamos a pedir à medicina para resolver um problema da sociedade?
Artigo escrito por Tânia Sofia Simões, Técnica Superior de Diagnóstico e Terapêutica — Análises Clínicas e de Saúde Pública, Mestre em Embriologia e Reprodução Humana

Estamos a dar às mulheres mais liberdade reprodutiva ou estamos a pedir-lhes que recorram à tecnologia para compensar uma sociedade que torna cada vez mais difícil ter filhos?
Saiu recentemente uma notícia que dá conta do aumento, em Portugal, da preservação da fertilidade por motivos sociais, isto é, na ausência de uma indicação médica que comprometa a fertilidade. Segundo a notícia, o número de mulheres que recorreu ao congelamento de ovócitos aumentou 34% no último ano.
Entre os casos apresentados está o de uma mulher de 32 anos que decidiu congelar os seus ovócitos por não querer ser mãe naquele momento. A decisão não resulta de uma doença ou de um diagnóstico de infertilidade, mas da vontade de preservar uma possibilidade reprodutiva para o futuro.
A tecnologia permite conservar ovócitos obtidos numa determinada idade para tentar utilizá-los mais tarde. Mas existem várias etapas entre congelar os ovócitos e ter um bebé: criopreservação, descongelamento, fecundação, desenvolvimento embrionário, implantação e gravidez.
Um fator muito importante: a idade em que os ovócitos são obtidos. Os ovócitos envelhecem com a mulher, pelo que, de um modo geral, ovócitos obtidos em idades mais jovens apresentam maior potencial reprodutivo.
A sociedade mudou. A maternidade é frequentemente adiada por razões profissionais, económicas, relacionais ou simplesmente porque a pessoa ainda não quer ser mãe. Mas o envelhecimento reprodutivo feminino não mudou ao mesmo ritmo.
É precisamente neste espaço entre o tempo social e o tempo biológico que aparece a preservação de ovócitos.
Estamos perante uma conquista da medicina que aumenta as possibilidades individuais ou perante uma tecnologia que procura resolver um conflito criado pela própria organização da sociedade?
Nenhuma mulher deve ser julgada por querer ou não querer ser mãe. Há mulheres que querem ser mães mais tarde. Há mulheres que ainda não encontraram um parceiro. Há mulheres que querem priorizar estudos ou carreira. Há mulheres que simplesmente não sabem ainda se querem ser mães. E há mulheres que não querem ser mães. Nenhuma destas escolhas deveria ser tratada como moralmente superior às outras.
É precisamente por isso que a preservação da fertilidade pode ser entendida como uma ferramenta de autonomia. Mas essa possibilidade também levanta uma questão de desigualdade: quem consegue, efetivamente, ter acesso a ela?
Se uma mulher tem recursos económicos para congelar ovócitos aos 30 anos, pode adquirir uma possibilidade que outra mulher, na mesma situação biológica, não consegue adquirir.
A tecnologia pode, assim, aumentar a liberdade de quem consegue aceder a ela. Mas existe outra questão igualmente importante: a forma como comunicamos esta tecnologia. O congelamento de ovócitos pode ser entendido como “guardar a minha fertilidade para o futuro”. Mas isso é muito diferente de “garantir que poderei ter um filho no futuro”.
O sucesso do processo depende de múltiplos fatores: do número de ovócitos recolhidos, de quantos são maduros e, por isso, podem ser criopreservados, da sua sobrevivência ao processo de criopreservação e descongelamento, da capacidade de serem fecundados, do desenvolvimento normal dos embriões e, posteriormente, da ocorrência de implantação após a transferência.
E mesmo depois de conseguida uma gravidez, ainda faltam cerca de oito a nove meses até ao nascimento. Ou seja, entre um ovócito congelado e um bebé em casa existe uma longa sequência de etapas. E é precisamente esse bebé em casa que representa o resultado que se procura alcançar com os tratamentos de procriação medicamente assistida.
Por isso, preservar ovócitos significa preservar uma possibilidade reprodutiva futura — não garantir o nascimento de uma criança.
Será que estamos a aumentar a liberdade reprodutiva ou simplesmente a adaptar a medicina a uma sociedade pouco compatível com a maternidade?
Talvez a questão não seja apenas saber até onde a medicina consegue acompanhar as nossas escolhas. Talvez devêssemos também perguntar porque é que tantas dessas escolhas são feitas num contexto social que torna a maternidade cada vez mais difícil de conciliar com a vida profissional, económica e pessoal.
A preservação da fertilidade pode ampliar a liberdade reprodutiva, mas não deve transformar-se numa promessa de que a tecnologia consegue substituir o tempo biológico. A medicina pode dar-nos mais tempo, mas não deve servir para esconder a pergunta que está por detrás dele: porque é que tantas mulheres sentem que precisam de adiar a maternidade até uma idade em que começam a precisar da medicina para terem a possibilidade de a viver?




