“Controlar a dermatite atópica não significa apenas melhorar a pele”
A dermatite atópica pediátrica exige uma avaliação que ultrapasse as manifestações visíveis na pele. O impacto no sono, na aprendizagem, na saúde mental e na participação social deve ser integrado no acompanhamento clínico, com uma resposta articulada entre cuidados de saúde, famílias e escolas. Assim, e no âmbito do dia Mundial da Dermatite Atópica, celebrado a 14 de setembro, a Salus Magazine conversou com Duarte Mesquita, Diretor Médico da Sanofi Portugal, que sublinha a importância do controlo sustentado da doença, da educação terapêutica e da sensibilização da comunidade escolar para reduzir o estigma e promover a qualidade de vida.

A dermatite atópica pediátrica continua, por vezes, a ser encarada sobretudo como uma doença cutânea. Que aspetos devem ser considerados na avaliação clínica do seu impacto global na criança e no adolescente?
A avaliação clínica da dermatite atópica (DA) pediátrica deverá ir além da extensão e gravidade das lesões cutâneas. É essencial considerar também o impacto multidimensional da doença: qualidade e duração do sono, desempenho escolar, participação em atividade física e desportiva, relações sociais e bem-estar emocional da criança e da família. Muitas vezes, a área de pele afetada não traduz o verdadeiro peso da doença. Algumas crianças convivem diariamente com prurido persistente, privação de sono e limitações sociais que não são visíveis à primeira observação clínica. Ferramentas validadas de avaliação da qualidade de vida, complementares aos scores de gravidade cutânea, ajudam a captar esta dimensão e a adequar melhor a estratégia terapêutica.
O prurido intenso, as alterações do sono e as dificuldades de concentração podem, por exemplo, interferir com a concentração e aprendizagem. Como deve esta dimensão ser investigada durante a consulta e integrada na avaliação do controlo da doença?
O prurido persistente deve ser ativamente questionado e avaliado em cada consulta, e não apenas inferida a partir das lesões visíveis. Perguntar diretamente sobre despertares noturnos, sonolência diurna, dificuldade de concentração e rendimento escolar permite objetivar um impacto que a criança ou os pais podem não reportar espontaneamente. Estas questões devem integrar de forma sistemática a avaliação clínica, uma vez que constituem indicadores importantes do controlo da doença. O sono deve ser encarado como um verdadeiro marcador clínico: uma criança que não dorme bem dificilmente consegue aprender, concentrar-se e participar plenamente na vida escolar.
Muitas vezes, a área de pele afetada não traduz o verdadeiro peso da doença. Algumas crianças convivem diariamente com prurido persistente, privação de sono e limitações sociais que não são visíveis à primeira observação clínica.
Que sinais devem alertar os profissionais de saúde para um impacto significativo da dermatite atópica na saúde mental, na autoestima ou na participação social da criança?
O isolamento social, o evitar atividades desportivas ou a piscina, a recusa em frequentar a escola, as alterações de humor, irritabilidade ou perda de interesse em interações habituais são sinais de alerta. Nos adolescentes, o impacto na autoimagem pode traduzir-se em ansiedade, baixa autoestima ou sintomas depressivos. Por vezes, o sofrimento emocional manifesta-se através de sinais subtis, como evitar mostrar a pele, afastar-se dos colegas ou deixar de participar em atividades anteriormente apreciadas. É também fundamental perguntar diretamente sobre situações de bullying ou comentários negativos relacionados com o aspeto da pele ou até recusa da parte do doente em participar em atividades que antes gostava.
Qual deve ser o papel dos cuidados de saúde primários, da Dermatologia e da Pediatria no diagnóstico, seguimento e referenciação das crianças com dermatite atópica, sobretudo nos casos de maior gravidade?
Os cuidados de saúde primários desempenham um papel central no diagnóstico precoce e na gestão dos casos ligeiros a moderados, bem como na orientação das famílias. A Pediatria acompanha o desenvolvimento global da criança e a possível presença de outras patologias atópicas. A Dermatologia é a especialidade responsável pelo diagnóstico ou confirmação do mesmo, gestão da doença e definição do tratamento a implementar. É igualmente importante não normalizar sintomas persistentes nem assumir que a criança acabará por ultrapassar a doença. Hoje, há ferramentas terapêuticas que permitem controlar a inflamação, melhorar a dermatite atópica e reduzir significativamente o seu impacto na qualidade de vida. Quanto mais cedo atuarmos, maior será a probabilidade de evitar anos de sofrimento para a criança e para a família.
A gestão da doença exige cuidados diários e pode representar uma carga importante para pais e cuidadores. Como pode a equipa de saúde melhorar a educação terapêutica e promover a adesão às medidas de controlo?
A educação terapêutica é um pilar do sucesso do tratamento. A equipa de saúde deve explicar de forma clara e prática a aplicação de emolientes, a identificação precoce de exacerbações e o uso correto da terapêutica prescrita. Demonstrações práticas, materiais de apoio e o envolvimento ativo da criança, de acordo com a sua idade, aumentam significativamente a adesão. É igualmente importante reconhecer o desgaste físico e emocional dos cuidadores, frequentemente marcado por noites interrompidas e preocupação constante com os surtos da doença. Validar estas dificuldades fortalece a relação terapêutica e promove melhores resultados a longo prazo.
A articulação entre profissionais de saúde, família e escola é fundamental para garantir que a dermatite atópica não compromete o percurso educativo nem o desenvolvimento social da criança.
A evolução científica e o aparecimento de terapêuticas inovadoras têm ampliado as possibilidades de tratamento. Que critérios devem orientar a decisão terapêutica e a avaliação de um controlo sustentado da doença?
A decisão terapêutica deve considerar não apenas a gravidade clínica, mas também o impacto da doença na qualidade de vida, a resposta a tratamentos prévios e as necessidades da criança e da família. O aparecimento de terapêuticas inovadoras, incluindo medicamentos biológicos, ampliou significativamente as opções disponíveis para os casos moderados a graves. Paralelamente, evoluiu também a forma como definimos sucesso terapêutico. Hoje, sabemos que controlar a dermatite atópica não significa apenas melhorar a pele. Significa permitir que a criança durma melhor, participe em atividades físicas, se concentre na escola, desenvolva a sua autoestima e viva a infância e a adolescência com maior normalidade. Numa doença que pode estar associada à marcha atópica e a outras manifestações alérgicas, o objetivo é uma abordagem integrada e segura que devolva qualidade de vida de forma sustentada.
No regresso às aulas, que recomendações devem os profissionais de saúde transmitir às famílias e às escolas para garantir uma resposta adequada às necessidades das crianças com dermatite atópica e reduzir o impacto da doença no seu percurso escolar?
As famílias devem ser aconselhadas a manter a rotina de hidratação e a terapêutica de manutenção, mesmo em períodos de melhoria dos sintomas. É igualmente importante sensibilizar a escola para a natureza não contagiosa da doença, prevenindo situações de estigma ou discriminação. Quando necessário, devem existir orientações claras para a gestão da doença em contexto escolar. A articulação entre profissionais de saúde, família e escola é fundamental para garantir que a dermatite atópica não compromete o percurso educativo nem o desenvolvimento social da criança. Nenhuma criança deveria ver a sua experiência escolar condicionada por uma doença que pode ser adequadamente controlada. A sensibilização da comunidade escolar é um passo importante para promover inclusão, reduzir o estigma e apoiar o bem-estar da criança.




